por Ana Manfrinatto

Vou explicar em Les Criolês

Não vou fazer resenha do show do Criolo e do Emicida aqui em Buenos Aires, no último domingo, porque o Gustavo Pelogia fez uma incrível (com vídeos e tudo o mais) pro site Scream & Yell. Vou é contar da minha experiência pessoal porque é isso o que o povo quer saber – ou é isso o que eu quero escrever.
 
Daí que eu era a assessora de imprensa do show, o Grito Rock Buenos Aires 2012, onde também tocaram os argentinos Mustafa Yoda e Pollerapantalón. Tudo isso foi organizado pelo Niceto Club, Fora do Eixo, Studio SP e o selo local Sonoamerica.
 
Trabalhei horrores na divulgação e por sorte deu tudo certo: saiu matéria grande (de uma página!) nos principais jornais da cidade: La Nación, Clarín, Página/12 e Buenos Aires Herald, dentre outros.
 
O que mais chamou a minha atenção durante este trabalho foi o feedback dos jornalistas. Não vou citar nomes, mas todos me escreviam dizendo que a entrevista com o Criolo (via telefone ou Skype) havia sido “uma experiência mística” ou então que ele era “um ser iluminado”.
 
Tudo isso só aumentava a minha expectativa de conhecê-lo pessoalmente no domingo, o mesmo dia do show, quando ele chegaria. Pois bem, o dia chegou e eu o conheci. Contei que eu era a assessora local e que teríamos três entrevistas, previamente combinadas, para fazer.
 
Faltavam poucas horas pro show e não só o Criolo, assim como toda a banda, haviam chegado a Buenos Aires e ido direto para a casa de shows sem, nem sequer, passar pelo hotel. A resposta? “Tudo bem, eu sou apenas um operário e tô aqui pra isso”. Logo depois: “Deixa a água passar pelo rio”.

Realiza: você trabalhando, louca, num corre-corre danado e o artista, que deveria estar cansado e cheio de não-me-toques, te responde isso. Ponto pro Kléber! Fizemos uma entrevista pra rádio, uma pra tevê e uma pra uma revista francesa.

Nesta última, a mais longa e detalhada, eu tive que ser intérprete. Foi aí então que eu percebi porque todos os jornalistas que já o haviam entrevistado diziam que tinha sido uma experiência mística: além dele agradecer o jornalista, ser atencioso (de verdade!) e agradecer o trabalho alheio, ele olha fundo no olho e fala.

E quando fala, faz metáforas lindas, escolhe palavras bonitas, a voz é doce e não tem nada a ver com a “agressividade” que ele põe pra fora com as músicas dele... quer dizer, é de verdade o moço do Grajaú grato à família que a gente já viu na Revista Trip, no Esquenta da Regina Casé, em todos os lugares.

Só que o tempo era curto e tivemos que cortar a entrevista: o artista, quer dizer, o operário, teria que ir para o hotel tomar banho. E eu teria que ir de co-piloto já que o Caiubi Mani, do FDE, era o motorista e não sabia o caminho.

Esse bate-volta Palermo – Recoleta – Palermo foi mágico porque nenhum dos três se conhecia e, no entanto, falávamos como se fôssemos brothers. Cada um contou um pouco da vida: O Caiubi, que é de Araraquara, disse que era fã e que nunca havia visto um show dele. Eu contei que era de Itapevi e que “Ainda há tempo” foi o meu disco de cabeceira e o Kléber, que a gente tá careca de saber que é do Grajaú, contou que havia sido convidado pra jogar bola com o Toquinho e que conheceu o César Mendes na casa do Caetano (sim, o Veloso).

A gente falou sobre São Paulo, sobre Buenos Aires, sobre ser estrangeiro, assuntos da vida que não tinham nada a ver com se a divulgação tinha sido boa ou se o Niceto Club estava cheio. Só que aí estávamos a uma quadra do hotel e recebemos uma ligação dizendo que teríamos que voltar.

O Kléber, quer dizer, o Criolo, poderia tomar um banho de dez minutos e fazer o público esperar. Sobretudo porque eu expliquei que as demoras em espetáculos argentinos são tão comuns que já são esperadas, assim como as noivas. Só que não: “é o meu compromisso e eu não posso desrespeitá-lo”, ele disse.

Assim que tocamos a perua de volta ao lugar do show e, quando chegamos lá, o Emicida tava quebrando tudo em cima do palco. Sim, a casa tava cheia. Sim, tava cheio de brasileiro mas sim, também tinham vários argentinos curtindo o som made in Quebrada.

Logo em seguida o Criolo entrou no palco com uma túnica e também quebrou tudo. Eu fiquei feliz à beça de ver que o show era tão bom quanto eu esperava e deixei os zilhares de amigos e jornalistas pra ver tudo de camarote – ou seja, bem na frente do palco. Mano, as pessoas cantavam T O D A S as músicas.

De repente eu olho pro lado e tinha um cara com um cartaz escrito “Grajaú Carapicuíba Só os loko”. Gritei que eu era de Itapevi e dei um abraço nele. A quantidade de vezes que eu escutei gente (diferente) gritando Z.O. do meu lado foi incalculável. E o Criolo, que parecia estar em transe no palco, fez com que todo o público tivesse na mesma sintonia.

Terminado o show eu fui ao camarim dar parabéns. O Kléber tava sentadinho, cansado que só, e disse “Ana, por favor, sei que não é sua função, mas, você poderia pegar uma garrafa de água pra mim?”. (Essa parte, sobre a humildade que todos comentam, deixei pro fim)

Peguei a água, tirei foto, conversei com a banda, ganhei presente do Daniel Ganjaman (um vinil e um CD do "Nó na Orelha") e um autógrafo:

“Ana, muitos são os caminhos
Fortaleça seus pés pois a cabeça tem sempre mania de desvendar nossos medos”

Depois dessa eu me despedi de todo mundo, fortaleci meus pés e fui tomar uma cerveja com namorado e amigos. Além do cansaço de quem dançou muito, trabalhou idem e essa frase retumbando na cabeça; ficou a alegria de quem, como fã, só queria ver o show de um artista querido na sua cidade e... conseguiu!

Pronto, foi assim que começou a minha semana! :-)

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