por Milly Lacombe
Tpm #170

Embora já conhecesse você, nunca tinha enxergado o que enxerguei naquela noite, e antes mesmo de você chamar o táxi eu sabia que algo em mim estava para sempre transformado

Estávamos na cama numa manhã de sábado, uma de nossas primeiras manhãs acordando juntas, e você levantou muito cedo dizendo que ia participar de uma corrida de rua e voltaria logo. Não eram nem 7 da manhã, o quarto estava bastante escuro, e embora eu preferisse que você continuasse ao meu lado entendi que isso não ia acontecer porque em questão de segundos você estava de pé e vestida com a roupa da competição. Percebi naquele instante que você faz as tarefas mundanas de forma acelerada, e por isso atrapalhada, fato comprovado através de uma série de eventos que se deu logo em seguida: você saiu do quarto e chutou minha mala que estava no chão – dado que moramos em estados diferentes e eu tinha chegado à sua casa na noite anterior –, a caminho da cozinha tropeçou em alguma coisa na sala e rompeu gritando um “ai” e batendo no liquidificador o que talvez fosse um suco ou uma vitamina deixou cair alguma coisa no chão fazendo um barulho estridente e mais uma vez emitiu um gemido de dor. Eu, da cama, refletia sobre tanta energia para aquela hora de um sábado nublado.

LEIA TAMBÉM: Milly Lacombe sobre a queda do avião da Chapecoense

Alheia a meu devaneio, em menos de 10 minutos você já tinha tomado o que quer que seja que preparou no liquidificador, estava de cabelo preso, dentes escovados, fio dental passado porque agora já sei de sua obsessão com o fio dental, tênis calçado e abaixada ao meu lado me dando um último beijo antes de sair. Pensei que seria bom eu também levantar e, aproveitando que eu já tinha mesmo acordado, fazer ioga até que você voltasse para que assim pudéssemos tomar café da manhã juntas e depois namorar um pouco mais. Ia falar tudo isso, mas não tive tempo porque você já tinha saído de casa. Imaginei que voltaria depois de uma hora, ou talvez até mais do que isso, porque, usando meu passado de triatleta, calculei que uma pessoa de cerca de 40 anos que tivesse acabado de começar a praticar o esporte fosse correr 5 quilômetros em uns 40 e poucos minutos.

Estava ainda na cama divagando sobre tudo isso quando você voltou, e eu imaginei que você tivesse desistido da competição, mas você entrou no quarto dizendo que tinha vencido na sua categoria, e o troféu que estava em suas mãos comprovava isso. Perguntei curiosa qual havia sido seu tempo e você disse que havia corrido em menos de 25 minutos, o que seria um tempo surpreendente até para alguém mais jovem e que se dedica à arte da corrida já há alguns anos. Aquilo me impressionou porque me fez ver que você então era bastante rápida em tudo o que fazia.

Mas então lembrei da forma delicada e sensível de como você faz amor, e borda sua arte sentada no sofá da sala enquanto escuta o norueguês Erlend Oye cantando “Estate” em italiano, uma música que agora é nossa, e nada ali poderia ter me indicado que você, exercendo tarefas cotidianas, fosse ser tão acelerada.

Encanto e fascínio

Conhecer mais profundamente uma outra pessoa, e seus hábitos e jeitos e manias, é fascinante e tudo a seu respeito me encanta. Foi muita sorte a minha estar em casa naquela quinta-feira quando você tocou a campainha dizendo que tinha ido me fazer uma visita. Embora eu conhecesse você há alguns anos, nunca tinha enxergado o que enxerguei naquela noite, e antes mesmo de você chamar o táxi para ir embora eu sabia que alguma coisa em mim estava para sempre transformada. Quando, semanas depois, beijei sua boca pela primeira vez tive a certeza de que eu estava me apaixonando, e que isso era muito bom.

Você então me pediu para ir com calma, dizendo que tinha medo de que suas esquisitices pudessem me assustar, mas onde você vê esquisitice eu vejo apenas encanto e fascínio; onde você vê melancolia eu vejo autenticidade, onde você vê complicações eu vejo vida e arte. Me entregar a você foi das coisas mais fáceis que já fiz na vida, e fazer amor com você das mais profundas, significativas e lindas.

LEIA TAMBÉM: Todos textos de Milly Lacombe na Tpm

Hoje, quatro meses depois, entendo que cheguei em casa outra vez. Não é todo mundo que tem a sorte de encontrar alguém capaz de fazer ao mesmo tempo rir, pensar e sonhar. Não é todo mundo que tem a sorte de se apaixonar quando a vida parecia já ter oferecido todas as paixões possíveis. Não é todo mundo que tem a sorte de transformar uma amizade em encantamento tão doce. Enxergar a mulher arrebatadora, deslumbrante e sedutora que existe em você foi um presente e tanto para mim. Que bom que você tocou minha campainha e que eu estava em casa naquela quinta-feira de maio.

Créditos

Imagem principal: Brunna Mancuso

matérias relacionadas