por Maria Ribeiro
Tpm #167

Esse é o nome de um bairro em Salvador, mas, hoje, é também metáfora da tristeza pelo sangue derramado

Hoje é segunda-feira e um rapaz foi morto na Bahia (eu tô escrevendo). Hoje é não sei que dia e um rapaz foi morto na Bahia (você tá lendo). Sim, MAIS UM ataque homofóbico (eu tô gritando). Não, nada foi roubado. Não, nenhum motivo aparente. Saindo de boate gay, sem inimigos, Orlando feelings. Pelo menos foi o que saiu na CBN, a rádio de notícia que roubou o endereço da Globo FM, onde eu sempre ouvia o Lulu Santos. Enfim.

Eu tava indo ver Julieta, do Almodóvar, era meu primeiro dia de férias. De propósito não li o jornal, dane-se o dólar e a Lava Jato, e também não queria ouvir rádio, chega de Olimpíadas e obras superfaturadas. Entrei no carro disposta a ouvir “Something to Remember”, da Madonna, e a esquecer meu nome e todos os meus números civis, não fosse essa mania de querer ser quem não se é (tipo Leminski, só que ao contrário).

É que a pessoa que eu não sou, mas quero ser – agora sem tanta certeza –, já deixa o dial no Sardenberg e na Miriam Leitão pra mó de entender um cadinho mais de política e economia enquanto fica no trânsito, aquele papo de limão e limonada. E aí quando você menos espera vem o índice Bovespa e a umidade relativa do ar, mesmo quando você só queria uma musiquinha bem velha e reconfortante. Julieta, Almodóvar, férias, Lulu Santos. Um rapaz foi morto na Bahia.

Antes de ouvir sobre o crime no Rio Vermelho eu já tinha lido no Facebook sobre um garoto russo de 17 anos que foi assassinado na escola por ser considerado homossexual. Sim, na escola. Sim, e agora com ponto de exclamação e em caixa-alta, NA SALA DE AULA! Deus não existe.

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Antes ainda, mais especificamente um ano atrás, eu tinha ido a Salvador conhecer a casa do Jorge Amado, e achei o Rio Vermelho um lugar idílico, onde se ouviria Dorival Caymmi pra sempre, e nunca nada de mal poderia acontecer a ninguém.

Lulu Santos, Dorival Caymmi, tarde em Itapoã. Era isso que eu queria. Que eu queria querer. Mas não deu. E nem foi por causa do índice Bovespa. Porque entre o antes do rapaz morto na Bahia e o antes do menino russo assassinado em sala de aula, eu já tinha ficado triste – porque essa garota azul chamada tristeza nunca que tira férias, não é mesmo? – por causa da história da Jozelita, mãe do menino Roberto, aquele que junto com quatro amigos tomou 111 tiros de quatro policiais militares no Rio de Janeiro e morreu aos 16 anos sem ter cometido crime algum.

Então, Jozelita não aguentou e, menos de um ano depois do filho, morreu também. Ela tinha 44 anos e no atestado de óbito escreveram que “o falecimento ocorreu por conta de uma pneumonia”. Aham. Tá mais pra injustiça. Os PMs que assassinaram seu menino tinham acabado de ser inocentados.

Às vezes não dá pra ficar feliz só porque a gente quer ficar feliz (eu tô sussurrando). Às vezes um rapaz morto na Bahia te lembra que a vida é cruel e que a única coisa que a gente pode fazer é amar todo mundo o máximo possível.

E agora me lembro de que esta coluna se chama Respiro, e talvez devesse ser mais leve, mais Lulu Santos, férias na praia, uma música velha da Madonna. Perdão.

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