por Mara Gabrilli
Tpm #138

O Ministério da Saúde ainda cria entraves para a incorporação ao SUS de equipamentos que ajudam quem, como eu, precisa reaprender a andar

Toda semana eu ando na Lokomat. Trata-se de um equipamento suíço composto de uma esteira de academia, um guindaste, que me suspende por um colete semelhante ao dos paraquedistas, e um exoesqueleto, que, fixado em minhas pernas, me conduz, roboticamente, sobre a esteira em movimento. Esse é o primeiro equipamento a produzir, na história, uma marcha perfeita.

Lá na AACD, onde utilizo o equipamento, vejo crianças com paralisia cerebral, por exemplo, chegarem andando com muita dificuldade. E, depois de caminharem 30 minutos na máquina, saem caminhando melhor.

Como ainda não ando sozinha, vejo os resultados de outra forma. Evita a osteoporose, tonifica a musculatura, incrementa o equilíbrio. Meu corpo fica mais organizado. E, o melhor benefício de todos, me deixa muito feliz. Gosto de andar me olhando no espelho, colocando esta informação de volta no meu imaginário, no meu cérebro, disponibilizando nova ideia para novas conexões.

Nesta semana, meu fisioterapeuta na AACD me comunicou meu relatório de treino: completei 106 quilômetros. Superei, no papel de tetraplégica, a marca de 101 quilômetros da ultramaratona que corri na Itália antes de quebrar o pescoço.

Há alguns anos que pedalo toda semana, também. É uma bicicleta com eletroestimulação. Os eletrodos são fixados nos quadríceps e ísquios tibiais (músculos da coxa) e nos glúteos (músculos do bumbum). Ao dar choque, produzem meu movimento de pedalar. São minhas pernas as protagonistas do exercício. Além de tentar fazer o movimento junto para reaprendê-lo, também faço uma respiração taquipneica, que, com a ajuda dos dedicados fisioterapeutas da rede Lucy Montoro, descobrimos acelerar muito a velocidade das pernas. É muito curioso, pois, quando desacelero a respiração, as pernas desaceleram junto.

Hoje, com a dieta de atleta que pratico e mais essa respiração, pedalo durante 1 hora, com 3 quilos de resistência. E ainda saio de lá cheirosa, pois não transpiro nem uma gota. Além das coxas fortes, esse exercício me deu definição abdominal, melhorou a minha condição cardiorrespiratória e me deu vontade de pedalar aquela que um dia foi meu principal meio de locomoção.

E, como todo dia me esparramo numa banheira para tomar banho, estou quase pronta para fazer um “tetratriatlon” – tenta falar essa palavra rápido... (risos).

Pena que ainda contamos nos dedos os brasileiros que têm acesso a esses equipamentos. Embora todos os que utilizo estejam nos serviços públicos, o Ministério da Saúde cria entraves para sua incorporação e oferta pelo Sistema Único de Saúde. Até ao vice-presidente da República já mandei meu vídeo andando, para sensibilizá-lo sobre o processo e permitir que os deputados criem emendas parlamentares para equipar nossos centros de reabilitação. Estou trabalhando nisso por acreditar que, como eu, muitos brasileiros, com uma boa reabilitação, podem produzir pelo nosso país.

Mara Gabrilli, 42 anos, é publicitária, psicóloga e deputada federal pelo PSDB. É tetraplégica e fundou a ONG Projeto Pró­ximo Passo (PPP). Seu e-mail: maragabrilli@maragabrilli.com.br

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