por Natacha Cortêz

Bem-vindo ao Chile, o país onde um grupo de mães que promove o cultivo doméstico de cannabis está mudando o conceito de droga que envolve a maconha

Era final de 2012 em Santiago, capital do Chile. Diagnosticada desde os dois anos com epilepsia refratária (condição na qual as crises epilépticas são recorrentes e contínuas), a pequena Javiera, aos cinco, vivia sua pior fase. Tomava seis remédios diferentes em doses máximas na forma de mais de 20 comprimidos diários. Apesar da medicação, sofria crises praticamente ininterruptas. “Duravam dia e noite, sem pausas. Não havia descanso para ela, nem para nós”, conta Paulina Bobadilla, a mãe. Javiera não vivia como uma criança, não tinha a leveza e a doçura que a infância permite. Era violenta. Agredia quem estava por perto e a si mesma. Chegava a arrancar as próprias unhas, uma a uma. Quando não isso, estava completamente ausente. Para os médicos que a tratavam, o comportamento autodestrutivo era considerado normal, nada além de efeitos colaterais das medicações. A sutil perda da visão, danos nos rins, fígado e outras irritabilidades eram outros efeitos “esperados” por eles.

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Naquela época, Paulina também havia se tornado uma paciente em tratamento e usava remédios para aliviar a depressão que a condição da filha lhe causava. Em uma situação limite, na qual não enxergava mais saídas, pensou em se atirar com Javiera de um penhasco. Foi quando em uma manhã banal viu Ana María Gazmuri, conhecida atriz chilena, falando de maconha medicinal em um programa de TV – desses feitos para donas de casa. Ana María, diretora da Fundação Daya, dona da maior plantação de maconha para uso medicinal da América Latina, explicava os benefícios terapêuticos que a planta pode trazer para quem sofre com problemas neurológicos, epilepsia, câncer e mais uma enorme variedade de enfermidades. “Escrevi a Ana pelo Twitter e disse que precisava vê-la urgentemente. Nos encontramos e a partir daí minha vida e de Javiera nunca mais foi a mesma”, conta Paulina.

Convencida por Ana María, Paulina abriu mão dos fármacos tradicionais e passou a tratar a filha com o extrato feito da flor da planta de maconha. Uma receita simples, que pode ser feita por qualquer pessoa. Em uma semana de tratamento, Javiera era outra. “Tive minha filha de volta e ela teve sua infância recuperada”, garante a mãe.

Homemade
O encontro com Paulina despertou em Ana María a vontade de ajudar outras mães – e elas eram inúmeras e desesperadas. A dupla realizou então um primeiro evento para reunir essas mulheres. Compareceram nove famílias. No segundo, foram mais de 100 famílias de todas as partes do Chile. Nessas reuniões, Paulina e Ana apresentavam a maconha como a matéria prima de um óleo medicinal que poderia ajudar efetivamente pacientes epilépticos. Começava ali a MamáCultiva, uma organização sem fins lucrativos que tem como objetivo reunir mães de crianças com epilepsia refratária, câncer e outras doenças, que não têm encontrado melhoras com a medicina tradicional e buscam na cannabis uma terapia alternativa. “90% das famílias não tinham tido contato anterior com a planta. Não conheciam, não eram usuárias e tinham muito preconceito”, comenta Ana. “Antes de começarmos o tratamento, meu marido tinha uma postura proibicionista em relação à maconha. Dizia: ‘não podemos drogar Javiera’. Mas a verdade é que ela já estava drogada. Vivia drogada”, relata Paulina.

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Mas o preconceito não foi maior do que a esperança dessas famílias na cannabis. Quase quatro anos depois, mais de 35 mil pessoas já passaram pelos encontros e conversas públicas realizados por Paulina e Ana María. “Saem dessas reuniões muito lúcidas, entendendo a história e o uso da planta”, diz Paulina. A forma como a maconha é vista no Chile de fato mudou. 86% da população apoia o uso medicinal da cannabis, enquanto 47% apoia qualquer uso, diz a plataforma de pesquisa Plaza Pública Cadem. “Isso só foi possível pelo trabalho pedagógico que realizamos nos últimos anos. Hoje, vou à TV e falo abertamente sobre os benefícios da planta, e não há protestos em relação a isso”, diz Ana María.

O Chile é pioneiro no cultivo de maconha medicinal. Sua legislação, que autoriza a produção e venda de remédios derivados da planta, está anos-luz a frente da brasileira. Por aqui, a Anvisa autorizou a importação, por pessoa física, de medicamentos e produtos com canabidiol (CBD) e tetrahidrocanabinol (THC), desde que exclusivamente para uso próprio e tratamento de saúde; no entanto, ao contrário do Chile, plantar a cannabis para uso medicinal no Brasil não é permitido.

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Segundo dados da Fundação Daya, cerca de 200 mil pessoas se beneficiam da maconha medicinal hoje no país. A iniciativa de Ana María vem aumentar esse número. Graças à Fundação Daya, em uma fazenda em Colbún, 6.400 plantas são cultivadas com a autorização do governo e o financiamento de 20 municípios chilenos. "O objetivo do projeto é gerar três grandes estudos clínicos que serão desenvolvidos pelo Instituto Nacional do Câncer e dois hospitais e livrar as famílias do mercado ilegal", afirma Ana María.

Aqui, conversamos com Ana María sobre seu trabalho a frente da Fundação Daya, preconceito, maconha medicinal no Brasil e cultivo doméstico.

Tpm. Como começou o seu envolvimento com a pesquisa científica da
cannabis? Ana María. Além de ser atriz, sou terapeuta floral, reikista, estudei budismo. Sempre tive interesse por saúde e equilíbrio. Além disso, em minha família o uso da maconha sempre foi completamente normal. Descobri o óleo de cannabis através da internet. Entrei em contato com quem está conduzindo a investigação científica e quis me juntar. Foi aí que dei início ao trabalho que realizamos na Fundação Daya, que basicamente é um esforço de pesquisa e de disseminação da informação. Queremos desmistificar a fama pejorativa que a cannabis ganhou nos últimos anos. É preciso atrever-se, resistir, dar a cara a tapa para isso.

Quais são as enfermidades que podem ser tratadas com a planta?
A versatilidade terapêutica da cannabis é imensa. Contamos com receptores canabinoides em todo nosso organismo e isso explica a utilidade que a planta tem para diversas patologias, os seus efeitos analgésicos, anti-inflamatório, antiemético, regulador do humor, do apetite e do sono. Na Fundação Daya, atendemos pacientes com câncer, com fibromialgia, esclerose múltipla, várias neuropatias, artrite, artrite reumatoide, distonia, epilepsia, autismo, doença de Crohn, depressão, estresse. Por exemplo, 10% dos pacientes de epilepsia refratária que atendemos nunca mais tiveram crises. Isso é revolucionário para a doença.

Como veem a situação brasileira quanto a legalização do uso medicinal da maconha?
O Brasil certamente carece de educação cívica sobre a questão, há ignorância e desinformação. É muito fácil encontrar pessoas que não têm ideia do uso medicinal da maconha. Já a população chilena não pensa mais a maconha pela ótica do narcotráfico, mas da medicina. É urgente que o Brasil pense sobre a proibição, que traz consequências tão trágicas para toda a América Latina. Começar pela descriminalização do cultivo doméstico é um bom caminho.

Por que é importante priorizar o cultivo doméstico?
Primeiro, o cultivo doméstico te permite produzir o extrato por um baixíssimo custo. Depois, é fundamental estimular a produção de uma indústria local da cannabis. Isso também tornaria o tratamento com a planta mais barato. E veja, para muitas patologias o cultivo doméstico é suficiente. Artroses, artrite, dores musculares, para essas dores não é necessário um remédio feito em laboratório. A planta, em sua forma mais natural, te basta. Uma maceração, um extrato, um creme, receitas caseiras mesmo. E ensinamos em nossas oficinas a feitura desses produtos, e tudo de forma artesanal. Mas ao mesmo tempo, cultivamos diversos tipos de cannabis na Fundação Daya para a pesquisa científica. E uma coisa não anula, e nem pode anular, a outra.

Durante os últimos anos, o potencial medicinal da cannabis foi ocultado e negligenciado. A planta ainda é vista com grande preconceito. Você pode falar um pouco sobre isso?
O primeiro registro do uso medicinal da maconha é de 5 mil anos atrás. O paradigma da proibição é coisa de 100 anos. Antes, a relação do ser humano com a planta era muito rica e absolutamente naturalizada. O uso espiritual e medicinal era amplamente aceito e difundido. A ideia da embriagues canábica e do vício surgem da proibição, cuja origem nunca foi científica, mas sim de interesses econômicos e desejo de controle social. Isso causou a estigmatização dessa planta medicinal magnífica. Para nós, o trabalho pedagógico é a chave do progresso. Com ele, temos cidadãos informados e capacitados a tomar as melhores decisões. Na Fundação Daya temos mais de 5 mil pacientes que cultivam a planta e preparam seus produtos terapêuticos. Fizemos uma verdadeira revolução no nosso país, o que explica o enorme apoio público que conseguimos. Chega de ignorância, há muito sofrimento no mundo e não há tempo a perder.

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O fato de você ser uma pessoa pública ajudou nesse processo?
Sim. Tenho ao meu favor o capital de afeto e credibilidade do publico chileno, que me conhece há 21 anos. Além das novelas e da TV, tenho um a participação política consistente. Penso que as senhoras, as donas de casa, as mães, esse tipo de público, que geralmente traz um conservadorismo entranhado, pôde me escutar e repensar a cannabis. Estava ali, na frente deles, uma senhora, em plena TV aberta, falando de maconha. E mais, dizendo que ela pode ser usada como um remédio. Nunca em minha carreira fui tão famosa quanto agora.

Créditos

Imagem principal: Bruno Torturra / Divulgação

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