por Milly Lacombe

"Os últimos dias foram cheios de horror para os direitos da mulher. Tudo o que temos é umas às outras"

Até pouco tempo atrás não havia no mundo o conceito de estupro dentro do casamento. Uma mulher não poderia ser estuprada se fosse casada, dado que o corpo dela pertence ao marido, e, como proprietário, ele podia fazer com esse corpo o que bem entendesse.

A mulher como objeto de consumo está em nosso imaginário desde sempre: crescemos assistindo às instituições mercantilizarem tudo a nosso respeito. Como muitíssimo bem colocou a cineasta Anna Muylaert, todas nós tomamos machismo na mamadeira.

Como fenômeno, o machismo é um dos alicerces do patriarcado, esse sistema de relações que nos rege e que diz que ideologicamente o homem é superior à mulher. Claro que, racionalmente, sabemos que não é assim, mas não se elimina séculos desse patriarcado infiltrado em nossas células em alguns poucos anos, então é importante saber que estamos no meio de uma batalha e que não podemos aceitar dar nenhum passo atrás.

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Os últimos dias foram cheios de horror para os direitos da mulher: tivemos Jair Bolsonaro em palestra na Hebraica do Rio dizendo que teve uma filha porque “fraquejou” na hora do sexo, tivemos um abusador moral em rede nacional de TV como protagonista de reality show, tivemos celebridade Global sendo exposta como agressor sexual, tivemos Silvio Santos assediando moralmente e ao vivo Rachel Sheherazade, sua funcionária, tivemos, como temos diariamente, mulheres sendo assassinadas por seus parceiros (no Brasil e no mundo), tivemos formandos em medicina no Espírito Santo fazendo foto com as calças arriadas e as mãos simulando uma vagina em frente a seus pênis. Enfim. Tivemos machismo e misoginia de todos os tons.

E tivemos reações. Tivemos mobilizações. Tivemos solidariedade. Porque nenhum direito civil na história jamais foi conquistado sem luta, suor e, algumas vezes, sangue.

Quando funcionárias da Globo decidiram criar a campanha Mexeu com uma Mexeu com Todas, elas estavam reagindo não apenas aos abusos cometidos por José Mayer contra a figurinista Susllem Tonani, mas reagindo a todos os abusos cometidos por todas as figuras de autoridade contra toda e qualquer funcionária de qualquer empresa ao longo dos anos. É, nesse sentido, um movimento importante.

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“A escolha de “mexer” talvez tenha sido um equívoco, porque palavras importam muito, e estuprar, abusar, agredir e violentar não é “mexer””
Milly Lacombe

Não conheço mulher que tenha deixado de sofrer algum tipo de assédio. A diferença é que se antes eles eram silenciados, agora eles começam a vir à luz. Claro que ainda haverá os que ficarão ocultos porque com todo o abuso existe uma força de opressão e de coerção, aquelas que levam a gente a acreditar que correr para o RH e contar o que aconteceu vai apenas nos fazer perder o emprego (uma verdade em muitos casos) e aquelas que nos levam a acreditar que talvez a culpa pelo abuso tenha sido nossa, que talvez pudéssemos ter saído de casa com outra roupa, que talvez tenhamos dado a entender que estávamos a fim… É o machismo que tomamos na mamadeira pulsando em nossas artérias. Mas a escolha da palavra “mexer” para conduzir campanha tão importante talvez tenha sido um equívoco porque palavras importam muito, e estuprar, abusar, agredir e violentar não é “mexer”.

Só que a Rede Globo pegou carona na campanha – mesmo depois de acobertar os abusos de José Mayer –, transformando a iniciativa em ação de relações públicas, e dificilmente uma corporação se solidarizaria com qualquer movimento que usasse no slogan palavras como “agressão”, “estupro”, “abuso”, “violentar”.

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Aceitar que uma corporação entre na batalha contra o machismo é uma decisão difícil, porque se por um lado a força de suas máquinas ajudarão a divulgar a iniciativa, por outro a corporação limitará a discussão a um escopo que considera aceitável e decente, e estará sempre mais preocupada com sua imagem do que com os casos de abuso ou com o fim do machismo.

Não fosse assim o personagem que ganhou fama no mais recente BBB agredindo, assediando e abusando de uma mulher em rede nacional de TV teria sido expulso ao primeiro crime cometido contra ela. Mas em nome da audiência, e do lucro, o abusador foi ficando em cena, ensinando à juventude brasileira como faz para se abusar de uma mulher – e acabou saindo apenas depois de intervenção policial.

Então é importante entendermos que essa batalha é nossa, que as palavras escolhidas precisam ser as nossas, que a narrativa é propriedade da mulher e que não aceitaremos ser limitadas ao escopo do que as instituições entendem como debate aceitável. 

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O que não significa dizer que estamos nesse jogo para nos opor ao universo masculino. Esse foi o erro dos movimentos dos anos 70, aliás: colocar em arenas opostas homens e mulheres.

Dentro do patriarcado os homens são tão vitimados como as mulheres. Ao serem doutrinados a acreditar que somos um pedaço de carne eles são levados a acreditar que, como mercadorias para consumo, podem ser nossos proprietários.

“Você só é proprietário daquilo que pode destruir. O que leva boa parte do universo masculino a acreditar que pode abusar, violentar e matar”
Milly Lacombe

Manchetes com as quais o noticiário nos oferta diariamente não se cansam de usar termos como “cerveja, futebol e mulher” em uma mesma frase, um tipo de machismo subliminar, mas que entra na corrente sanguínea de todos nós: a mulher como produto para consumo e criada para o prazer masculino, coisa bastante normal para uma sociedade orientada pelos valores do mercado. Afinal, você só é proprietário daquilo que pode destruir. O que leva boa parte do universo masculino a acreditar que pode agredir, abusar, violentar e até matar, se assim for sua vontade.

Do outro lado dessa lua está a adoração à mulher, a suas linhas e curvas: colocar a mulher em um pedestal, admirá-la de longe, venerá-la; ações que apenas nos separam da natureza na qual estamos todos misturados, nos reduz a uma peça de arte e, como peça de arte, a um objeto, a uma mercadoria. Desse lado da lua, as consideradas belas podem ser veneradas e aplaudidas, as que não preenchem o padrão de beleza daquela específica sociedade podem ser descartadas, renegadas, esquecidas.

Somos, assim, apenas mais um dos produtos de um arranjo social que se baseia na figura do homem como superior, uma crueldade para mulheres, mas também para homens.

“O patriarcado reduz o homem aos seus desejos, tirando a oportunidade de aprender a amar, de saber conviver, e roubando a chance de evoluir”
Milly Lacombe

O patriarcado reduz o homem a um bicho, o mantém na ignorância a respeito de seu real alcance humano, o transforma em uma peça desprovida da capacidade de usar o intelecto, a maior de nossas riquezas. O patriarcado reduz o homem ao conjunto de seus desejos, escravizando-o, privando-o de liberdade, tirando dele a oportunidade de aprender a amar, de saber conviver e, por fim, roubando dele a sagrada chance de evoluir.

Ser mulher é, assim, um enorme privilégio porque não somos criadas para enxergar outros seres humanos como objetos de consumo para nossa satisfação e podemos, livres desse aprisionamento, simplesmente amar. Talvez por isso a derradeira revolução, aquela que vai finalmente nos elevar a um lugar de mais significado, seja a feminista, essa amparada pelos valores femininos de solidariedade, afeto, sensibilidade e compaixão.

Somos, homens e mulheres, vítimas desse sistema medieval chamado patriarcado e só nos livraremos dele quando percebermos que não se pode eliminar o conflito de classes da luta contra o machismo. A batalha precisa que ser pelo direito de abortar, pelo direito de ganhar salários iguais, pelo direito de não colocarem as mãos em nossas vaginas sem que desejemos, mas também pelo direito à saúde e à educação gratuitas para quem não pode pagar, por segurança trabalhista, pela aposentaria com idades diferentes, por licença-maternidade etc. Porque é essa a batalha que vai nos unir em uma mesma arena.

Como escreveu a psicoterapeuta americana Harriet Fraad, especializada em desigualdade social e feminismo, tudo o que temos é uns aos outros; já o poder econômico tem o dinheiro, as forças de repressão, a polícia e o exército. Por isso, segue ela, “apenas um movimento que nos una em torno das diferenças de classe e paute todas as questões [que nos oprimem] vai ser capaz de transformar a realidade”.

O propósito do envolvimento nessa batalha política e feminina é a de nos tornar aptos e aptas a desenvolver amplamente nossa capacidade humana. É, aliás, a única iniciativa que nos libertará.

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