por Renata Corrêa

O amor próprio foi destroçado: tanto para relacionamentos quanto pra aturar histórias que nos ensinam que pra ser feliz, melhor é aturar um mala sem alça do que encarar a si mesma

Recentemente, tomei um drink com uma amiga, atriz jovem e em franca ascensão. Estávamos felizes. Eu porque depois de algumas semanas de negociação tinha fechado um trabalho importante em uma sala de roteiro, e ela porque pela primeira vez experimentava o gosto da popularidade, recebendo feedbacks positivos depois de ter participado de uma série bem sucedida. E como é comum na nossa geração, os louros não veem sem uma (boa) dose de reclamação - eu, sem tempo para tirar férias há anos, ela lamentando pois foi informada que às vésperas do início do set da segunda temporada, a equipe criativa, exclusivamente composta por homens, simplesmente ainda não tinha fechado o arco dramatúrgico da de sua personagem. Mas, adivinhem só, dos protagonistas homens já estava tudo definido.

Muitas vezes a gente olha uma personagem feminina estereotipada na TV e não sabe que para aquela mulher ser retratada assim foram muitas etapas onde foi negligenciada. Produtores, diretores, autores e roteiristas que foram criados num caldeirão cultural audiovisual onde a mulher funciona como um penduricalho simplesmente pensam: ok, vamos colocar essa Maniac Pixie Girl numa loja de conveniências e fazer ela se apaixonar sem motivo algum por esse cara feio, desinteressante, careta e neurótico. Por que não? Isso soa perfeito!

“A ideia de que mulheres lindas/bem sucedidas se interessam por caras feiosos e babacas porque sim parece ser uma obsessão de Judd Apatow”
Renata Corrêa

A segunda temporada de Love começa exatamente do mesmo ponto em que a primeira terminou: no beijo de reconciliação entre Mickey e Gus nessa mesma loja de conveniências. E atento às críticas, Judd Apatow, o criador e produtor executivo da série, tenta dar um reboot ou solucionar problemas que foram identificados pela audiência na primeira temporada - como uma cena inteira de pillow talk onde Mickey, interpretada pela deusa Gillian Jacobs explica por que acha Gus, interpretado pelo mal ajambrado Paul Rust, bonito.

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A ideia de que mulheres lindas/bem sucedidas se interessam por caras feiosos e babacas porque sim parece ser uma obsessão de Judd Apatow. Basta lembrar de Katherine Heigl e Seth Rogen em Ligeiramente Grávidos. A mulher bela é algo que o nice guy está destinado a merecer, afinal ele é legal e mais nada. Mas isso não seria tão problemático se todo relacionamento do casal protagonista não estivesse baseada na infinita paciência de Gus com as maluquices de Mickey e no medo patológico de Mickey de perder um cara que ela conheceu literalmente ontem. Qual a diferença disso para uma mocinha de comédia romântica desesperada para agarrar um marido?

Como diria um bom filósofo do twitter: namorar é pra ser feliz, se fosse pra passar nervoso eu dobrava um lençol de elástico.

Quando vi que a segunda temporada de Love estava com avaliação máxima no Rotten Tomatoes, quase chorei no teclado. Eu já tinha visto os quatro primeiros episódios e em todos eles alguma mulher dava mole/se oferecia para transar com Gus. E ele gentilmente recusava. A fixação dos criadores com a ideia de que o charme do idiota sem habilidades sociais é irresistível acabou com o meu humor. Mas sou uma viciada em produtos da cultura pop, e se perseverei lendo todos os livros da série Cinquenta Tons de Cinza só pra poder saber, afinal, o que tanto as pessoas achavam de bom, por que eu não investiria meu tempo vendo os oito episódios restantes? Além da minha força de vontade, alguns amigos me encorajavam falando que “melhorava pro final”. Nunca caiam nessa, amiguinhos.

Liguei o ar condicionado, posicionei meu potinho de castanha de caju e minha taça de vinho, sabendo que o algoritmo da Netflix apenas contabilizaria meu binge watching sem saber dos espasmos de tristeza quando em um episódio Randy, o namorado de Bertie, toma cogumelos e a ameaça de assassinato. Piada de violência contra mulher, cool! Ou quando decisões dramatúrgicas eram tomadas sem nenhuma coerência interna para as personagens, só para movimentar a trama. Não é estranho quando Gus decide não pegar o seu trabalho dos sonhos em Nova Iorque, mesmo que no final da temporada anterior ele tenha praticamente agredido uma equipe de roteiristas para se manter no writer’s room de Witchita? E claro, a recusa de Mickey em visitá-lo em Atlanta com uma passagem surpresa, ou de não concordar com o namorado ter recusado um trabalho por causa dela fazem a personagem pagar de louca que não entende atos de romantismo.

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Sou um ano mais velha que a protagonista de Love e acho muito surpreendente que a minha geração, tão desconstruidona, rompedora de paradigmas, disruptiva yadda yadda está comprando mais uma vez a narrativa do relacionamento disfuncional como algo romântico, aceitável e o pior: desejável. Pelo jeito nosso amor próprio foi destroçado - tanto para relacionamentos quanto para aturar histórias que nos ensinam que para ser feliz, melhor é aturar um mala sem alça do que encarar a si mesma. 

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