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por Redação
Tpm #76

Na França há 24 anos, a brasileira Kátia Adler, 44, é presidente da Associação Jangada – que promove a cultura do Brasil – e está à frente do Festival de Cinema Brasileiro de Paris, que em sua última edição recebeu mais de 7,2 mil pessoas.

 

Ela cansou da faculdade de economia que cursava no Rio de Janeiro e decidiu que queria estudar cinema a sério – mesmo sendo uma adolescente que só assistia a TV. Foi, então, estudar na Universidade Paris 8, criada após o tumultuado ano de 1968 e por onde passaram nomes como Foucault e Lacan, quando a França foi tomada por revoltas estudantis liberalistas. Depois de 24 anos longe do Brasil, Kátia Adler é a responsável pelo Festival de Cinema Brasileiro, que está em sua décima edição e que chega a atrair mais de sete mil pessoas. A reportagem da Tpm conversou com Kátia sobre trabalho, cinema e suas duas maiores produções independentes: as filhas.

Por que você largou a faculdade no Brasil e se mudou para a França?
Eu vim estudar cinema aqui em 1984, me formei e acabei ficando. Desde então, trabalhei em curtas, documentários e na televisão francesa.

Antes, você passou um tempo em Israel...
Quando eu tinha 20 anos, resolvi fazer um kibutz em Israel; na época eu estudava economia no Brasil. Lá mesmo, eu decidi que queria estudar sério cinema. Então, liguei pro meu avô, que disse: “Vai pra França ou pra Itália estudar. Agora sim é uma profissão que vale a pena. Larga logo essa coisa de Economia”.

Então sua família te apoiou?
Sim, minha família sempre me deu todo o incentivo e, quando me mudei pra França, eles me ajudavam, inclusive economicamente.

E como foi estudar na Universidade Paris 8?
Na época foi muito importante pra minha vida. Eu só tinha o costume de ver filme americano, não tinha uma cultura de cinema muito diversificada, era uma adolescente que gostava mais de televisão. Eu aprendi muito na faculdade, cinema do mundo inteiro, filmes que não existiam no Brasil. Foi muito bom pra essa formação que eu tenho hoje.

Você vive sozinha em Paris?
Não, tenho minhas filhas gêmeas de 4 anos e meio, Camille e Gabrille, de produção independente.


Kátia com suas filhas gêmeas, Camille e Gabrielle


E como surgiu a idéia do festival?
Já no fim dos anos 90, eu estava muito afastada do Brasil e achava que pouquíssima coisa brasileira chegava por aqui e, por isso, resolvi defender a imagem do meu país e mostrar a cultura brasileira.

Como foi o desenvolvimento?
Não foi fácil, e não é até hoje. Mesmo já tendo dez anos, a cada edição parece que eu começo de novo. Agora o que facilita um pouco é que eu conheço muita gente do cinema, entre diretores e produtores.

Sofreu algum preconceito por ser mulher ou brasileira?
Não, mas no início foi meio difícil por eu ser bem jovem.

Os filmes brasileiros são bem-aceitos?
Os franceses são um povo muito curioso, então a gente tem um bom público francês, interessado em descobrir o cinema brasileiro.

E tem muito brasileiro que vai ao festival também?
Tem bastante brasileiro estudando aqui e que acaba trazendo os amigos franceses, eles querem mostrar a cultura deles.

A festa com a participação de artistas da música brasileira, como Luiz Melodia, Mart’Nália e Roberta Sá, é uma forma de divulgar o festival?
Claro, a música brasileira abre muitas portas, é muito mais fácil que o cinema.

Trabalhar com cinema na França é mais fácil que no Brasil?
Não acho, em qualquer lugar do mundo trabalhar e defender a cultura é sempre difícil. A gente não tem o apoio que gostaria de ter.

Saguão do cinema L'Arlequin, um dos locais onde os filmes
estão sendo exibidos

A décima edição do Festival de Cinema Brasileiro – que, em outros anos, já recebeu nomes como Julio Bressane, Sergio Rezende e Marieta Severo – rola em Paris até dia 27 de maio. Entre shows e debates com convidados especiais, serão exibidos 44 filmes, como Lavoura Arcaica e Saneamento Básico. O festival premiou este ano Paulo Caldas, diretor de Deserto Feliz, e Sandra Kogut, de Mutum¸ ambos escolhidos como Melhores Filmes. Para surpresa de todos, não houve ganhador do prêmio de Melhor Ator, mas sim, duas Melhores Atrizes: Dira Paes (Incuráveis) e Nash Leila (Deserto Feliz). “Nos filmes selecionados para o festival, as mulheres estavam melhores, suas personagens eram mais fortes”, explica Kátia. Todo ano, a brasileira tem que batalhar para conseguir os 500 mil reais, custo médio do evento, que, neste ano, conta com o apoio do BNDES, Embraer, Embratur e TAM. Ela ainda pretende organizar muitos mais, além de uma segunda edição do Festival de Cinema Basileiro – a partir do dia 27 de novembro – em Toronto e Montreal.

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