por Nathalia Zaccaro

Letícia Sabatella se prepara para viver (e cantar) Edith Piaf no teatro e dividiu com a gente suas reflexões sobre a personagem

Durante os 47 anos de sua vida, Edith Piaf passou pela Segunda Guerra, compôs um clássico mundial, a música "La Vie en Rose", enfrentou a morte do grande amor de sua vida, viciou-se em álcool e morfina, sobreviveu a três acidentes automobilísticos e inspirou pessoas ao redor do mundo com sua força e talento. Uma delas é a mineira Letícia Sabatella, que estreia em outubro, em São Paulo, o espetáculo A Vida em Vermelho – Brecht e Piaf. "Sempre fui muito atraída pela biografia da Piaf, ela conseguiu sobreviver porque cantava. Uma mulher intensa que sabia reconhecer humanidade nas pessoas", conta a atriz.

A intensidade e a humanidade de Piaf foram traduzidas em músicas cheias de uma força que seu corpo perdeu rapidamente, consequência de tudo que viveu, seja a relação com as drogas seja a relação com as pessoas, suas perdas. Mas, em 1960, a cantora usou sua voz poderosa para avisar o mundo de que ela não se arrependia de nada em sua vida. Que seus amores, tremores, mágoas e prazeres estavam varridos e superados. A letra da música "Non, je ne regrette rien" é um dos maiores sucessos da carreira da francesa, celebra a biografia dramática e gloriosa de Piaf.

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Criada pela avó, ela cresceu em bordéis de Paris. Aos 15 anos, abandonou a família para cantar na rua. Teve uma filha que morreu aos dois anos, vítima de meningite. Aos 25 já tinha se tornado queridinha da elite francesa, gravado seu primeiro disco e se firmado como uma das principais cantoras de sua geração (e da história da música).  

Na construção dessa intensa personagem, Letícia passa pelo filme estrelado por Marion Cotillard — "Tenho muitas lembranças desse filme" — e pelas pesquisas que tem feito. E, enquanto se prepara para cantar e viver Piaf no teatro, a atriz conversou com a gente sobre música, razão, emoção e ativismo. 

Conta um pouco mais sobre esse projeto? É um encontro improvável entre o dramaturgo Bertolt Brecht e a cantora Edith Piaf. Além dos personagens título, interpretamos também uma dupla de clowns, que são como alter egos dos protagonistas. Esses narradores vão contando a história e aparecem personagens da vida da Piaf, amores da vida dela. E do Brecht também. É um embate entre razão e emoção com tom cômico e musical.

Na sua vida, como você equilibra razão e emoção? Como Piaf, sou muito sensível. Mas, aos 46 anos, o tempo trouxe harmonia para meu conflito entre razão e emoção. Busquei muito isso, é um caminho de autoconhecimento.

Você já curtia a Piaf antes da ideia da peça surgir? Sempre fui muito atraída pela biografia da Piaf, ela conseguiu sobreviver porque cantava. Uma mulher intensa que sabia reconhecer humanidade nas pessoas. Contamos na peça um pouco da história de como ela viveu a ausência dos pais e foi criada em um prostíbulo. É lindo como ela encontrou amor em um universo tão marginalizado como o das prostitutas daquela época.

“O feminismo é uma causa necessária. Essa inferiorização constante e silenciosa das mulheres é uma violência”

Cantar no palco é natural para você? Muito. Eu me apresento desde 2014 com o Caravana Tonteria, um espetáculo de improviso em que canto o tempo todo. Na minha casa sempre fluiu musica, as mulheres tinham o canto como cura, como forma de transcendência. Minha avó nunca estudou música, mas ela tinha um assovio soproso que ia inventando canções. Ela compunha sem nem perceber. A música sempre me alimentou de sonhos.

Mas e cantar em francês? Ah, eu não falo francês, eu suspiro francês [risos]. Vamos fazer algumas canções em português também, estamos encontrando coisas lindas, como uma versão de "Hynme a l'amour".

Fernando Alves Pinto interpreta o Brecht na montagem. Como é trabalhar com o namorado? Nossa parceria criativa dá certo. Nós dois queremos nos desenvolver cada vez mais musicalmente, é um ponto em comum. Já trabalhamos juntos no Caravana, estamos afinados. Mas, claro, temos outros projetos paralelos acontecendo em que não estamos juntos.

O filme Piaf – Um hino ao amor, em que a Marion Cotillard interpreta a cantora, é uma referência para você? Ah sim, é uma das imagens que aparece na minha cabeça, tenho muitas lembranças desse filme. É inegavelmente maravilhoso. Conheci muito da história da Piaf ali, depois fui atrás de mais informações.

Está dando vida a alguma outra personagem além de Piaf? Já comecei a gravar algumas cenas da Delfina, de Tempo de Amar, próxima novela das 18h. Uma mulher sem voz, pobre, que nunca teve muito espaço, vive para servir o patrão, que será interpretado pelo Tony Ramos, e se torna concubina. Ela tem uma filha com ele que não é reconhecida e isso desperta nela a vontade de vingança. Ela tenta derrubar os obstáculos de sua vida de maneira não heroica, é a narrativa de uma vilã. Me fez pensar sobre a até que ponto podemos chegar quando nossos sonhos são considerados miseráveis. Delfina é uma bruxa do sistema patriarcal.

Você acha importante combater esse sistema patriarcal? Claro, o feminismo é uma causa extremamente necessária. É uma luta com muito chão pela frente. Essa inferiorização constante e silenciosa das mulheres é uma violência. Temos muito pouco espaço para exercer nossa autoestima. Eu experimento essa sensação, fico imaginando mulheres com menos condições. Isso me toca muito. Sempre que a gente fala da pirâmide da injustiça social vemos que quem é mais atingido é sempre uma mulher.

Como você equilibra suas posições políticas e sua carreira? Sou feita de várias dimensões, não sinto que devo abrir mão de nada. De algum modo sempre percebi onde as lutas estavam acontecendo, tenho tido oportunidade de conversar, ouvir outras pessoas. Tenho frequentado encontros na casa do Caetano [Veloso], temos ido lá por conta da urgência da situação do país. Eu me sinto no dever de estar atenta e não me omitir em questões envolvendo essa dívida histórica que temos com índios, negros e pobres. Eu não escolhi minha profissão para enriquecer, escolhi para ter condições de ter um espaço a ser exercido. Não tenho vontade de fazer arte panfletária, mas gosto de personagens que façam pensar, que não sejam politicamente corretas. 

Um pouco de som

Piaf influenciou gerações seguidas da música francesa. Preparamos uma playlist com Zaz, Françoise Hardy, Brigitte Bardot, Charlotte Gainsbourg, entre outras. Dá o play!

Créditos

Imagem principal: Flávia Canavarro/Divulgação

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