por Natacha Cortêz
Tpm #170

O diagnóstico que veio aos 25 anos levou Laura Pires à pane total. Corpo e mente precisaram de uma reprogramação profunda para, enfim, reencontrarem o equilíbrio

Há dez anos, Laura, arquiteta morando no Rio de Janeiro, acordou com a sensação de um cisco no olho esquerdo. O incômodo persistia e ela procurou um, dois, meia dúzia de médicos com diferentes especialidades, mas nenhum diagnóstico dava conta da complexidade de seus sintomas – que àquela altura combinavam visão embaçada com fadigas intensas, confusão mental, formigamentos e paralisias dos braços e das pernas. Daquele cisco no olho, em semanas ela passou de alguém independente para totalmente dependente. Chegou a pesar 37 quilos e precisava de ajuda pra mínimas atividades cotidianas. “Até pra segurar um copo, lavar a cabeça ou comer com talheres.” A busca para dar um nome à condição que enfrentava acabou no diagnóstico de esclerose múltipla, doença inflamatória crônica que compromete o sistema nervoso central e pode ser gravemente debilitante.

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O diabo com a esclerose é que a doença se manifesta de maneira diferente em cada um. Além disso, sua expressão e cura ainda são mistérios para a medicina moderna. Aos diagnosticados, resta buscar um convívio equilibrado com sintomas e a diminuição na ocorrência deles. Era aqui que Laura Pires, hoje com 35, deveria chegar.

Se seguisse o que recomenda a medicina moderna, o tratamento seria à base de corticoide injetável. Mas as chances de recuperação (ainda não se fala em cura) apresentadas como perspectivas eram tímidas: “Nem 30%, os médicos diziam”. A única certeza do pacote eram efeitos colaterais intensos e desagradáveis. Para ela, essa não parecia uma equação razoável. “Não estava claro até que ponto o tratamento proposto poderia me ajudar ou me desequilibrar ainda mais. Então Marcus [ex-marido de Laura, um entusiasta da medicina ayurvédica] lembrou de um médico que havia conhecido durante uma viagem à Índia, quando sofreu com uma inflamação nos olhos. Enviei um e-mail para esse médico, que respondeu disposto a me atender.”

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Além da alimentação ayurvédica, rica em orgânicos, leites vegetais (como de amêndoas e arroz) e ervas, ela medita, faz ioga e exercícios respiratórios religiosamente, trabalha apenas três dias por semana, sem nunca ultrapassar 6 horas diárias. “Tenho uma rotina muito diferente do que a maioria das pessoas considera ideal. Não preciso, nem quero, trabalhar 12 horas por dia pra me sentir eficiente. Pra mim, as medidas do que é ser alguém bem-sucedido mudaram completamente.”

Depois do mergulho na ciência indiana, Laura resolveu estudar e se tornou terapeuta ayurvédica. É formada pelo Ganga Spa com especialização em herbologia, saúde da mulher, nutrição e culinária pela International Academy of Ayurveda – todas instituições na Índia. Hoje, ela ministra cursos de culinária e palestras por todo o país. Neste mês, ela lança Nutrindo seus sentidos (Ed. Rocco), seu segundo livro, em que divide receitas ayurvédicas para restaurar corpo e mente. “Comida ajuda, mas não resolve. O segredo para o equilíbrio é aprender a relaxar e a se respeitar.” 



Tpm. De onde veio a confiança de procurar a ayurveda em vez da medicina alopática em um momento de extrema vulnerabilidade?
Laura Pires. A Índia foi mesmo uma escolha corajosa se você considerar que sou uma mulher ocidental que cresceu aprendendo a confiar na medicina tradicional e que quase nada sabia de ayurveda. Mas, veja, na época eu não via de fato motivos para tratar a esclerose na medicina moderna. Eu tinha sofrido uma reação alérgica a um comprimido de 20 miligramas de corticoide. Como poderia tomar mil miligramas por dia? Além disso, os médicos daqui me davam 30% de chances de recuperação. As pessoas sempre me perguntam: é esse o tratamento pra cura? Não posso dizer, mas foi o tratamento que serviu pra mim.



E sua família, apoiou a decisão de você se tratar na Índia? Toda a minha família foi contra.

Mesmo assim, e debilitada, você embarcou. Sim. E a viagem durou 24 horas e foi terrível. Não sentia mais o meu corpo, estava cheia de tremores, dormências e cãibras até na cabeça.

O que os médicos ayurvédicos, os que atendem você, dizem do seu caso? Quando fui internada, a doença estava no comecinho, era recém-descoberta. Isso ajudou muito. Eles não estavam lidando com alguém que já passava pelo terceiro surto da doença e trazia sequelas. Eu também sou uma paciente muito rigorosa, que não deixa de fazer nada do que foi indicado. Realmente transformei minha vida, como recomendado. Depois, a doença abrandou. Por tudo isso, e pelas minhas voltas anuais à Índia, eles consideram meu caso bem-sucedido e a minha doença, controlada.

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A medicina tem dificuldade para explicar as causas de doenças autoimunes, como a esclerose. Qual a sua interpretação do caso? Não é à toa que tive o diagnóstico de uma doença autoimune. Eu não estava olhando pra mim. Tudo que entra em contato com nossos cinco sentidos é alimento. Aquilo que a gente vê, aquilo que a gente ouve, aquilo que a gente sente, aquilo que a gente inala e aquilo que a gente come. Tão importante quanto o que a gente “come” é a maneira como a gente digere. Quantas vezes a gente não ouve as pessoas falarem que estão entaladas com alguma situação? Que não digeriram bem uma conversa? Você pode ter uma alimentação maravilhosa, comer orgânicos, preparar a própria comida; se não cuidar das suas emoções, se não for verdadeiro consigo, se não resolver suas angústias, vai adoecer.

Dá pra dizer que isso aconteceu com você? Que não foi verdadeira consigo, que não cuidou das suas emoções? Também. No primeiro surto, estava num momento de separação muito difícil, que me tirava a paz. Eu e meu ex-marido conversávamos sobre isso. E senti a perda do controle, porque não podia evitar o rompimento. A tentativa de controle de uma situação fez com que eu perdesse de verdade o controle das minhas funções físicas. Além disso, eu ainda comia errado (era vegetariana, mas exagerava no açúcar, nas más gorduras e nos industrializados), trabalhava como uma louca e não tinha horário pra nada. Era sedentária e emocionalmente instável. Realmente acredito que a gente acaba não só aceitando, mas contribuindo pra que doenças se manifestem. Somos negligentes com os nossos cuidados, físicos e emocionais. Querendo atender a expectativas que nem sempre são verdadeiramente nossas, a gente acaba se frustrando e rompendo limites. Implodimos. Meu grande aprendizado foi: não preciso esperar enlouquecer pra me perceber e me transformar.

“Meu grande aprendizado foi: não preciso esperar enlouquecer pra me perceber e me transformar”
Laura Pires

Conta da sua rotina. Como começa e como termina um dia seu? Acordo antes das 6 da manhã. Aplico óleo medicado com ervas no corpo, tomo um chá morno e faço uma prática de ioga. Medito diariamente e sou rigorosa com a alimentação, que é sempre fresca e orgânica. Também durmo cedo, por volta das 22 horas. Nunca mais voltei ao ritmo alucinado de antes. Sei quando é hora de me recolher. Não quero convencer ninguém de que a ayurveda é a melhor opção para tratar a esclerose, não se trata disso. Sei que ela não é indicada pra tudo. A alopática também não, e não sou contra ela. Tive febre tifoide na Índia no ano passado e tomei antibiótico.

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Existe uma Laura antes e uma depois do diagnóstico de esclerose? O que mudou? Mudou tudo! Passei a me perceber, a entender o que mexe comigo e como mexe. A partir disso, faço escolhas conscientes. Se você não para por escolha, vai ser parado. Por bem ou por mal. A esclerose é muito simbólica nesse sentido. Pode parecer engraçado, mas sou agradecida por a doença ter acontecido. Sou uma pessoa melhor, especialmente pra mim mesma. Pra alguns, sou chata, cheia de horários, pequenos rituais indispensáveis e limitações. Não concordo. Nunca estive tão feliz. Não tenho a menor saudade da Laura do passado.

Vai lá: laurapires.com.br

Agradecimento Escola Wilma Kövesi de Cozinha wkcozinha.com.br

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Créditos

Foto principal: André Klotz

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