por Luciana Obniski
Tpm #129

Contardo Calligaris acredita que o equilíbrio de poder no casamento está ligado ao sexo

Contardo Calligaris acredita que o equilíbrio de poder no casamento e na convivência está ligado ao sexo sem amarras

Ao sentar na cadeira reclinável de seu consultório, o psicanalista Contardo Calligaris, 64 anos, alfineta: “Tema chato esse, não?”. Mas discorre com interesse sobre casamento. É que, além de discutir o assunto nas sessões, em artigos e em palestras que dá pelo mundo, ele já se casou oito vezes. Mas continua acreditando que a vida a dois é melhor – e que não há como escapar dessa máxima.

Por que nunca se separou tanto no Brasil, mas as pessoas continuam acreditando no casamento? Há quem diga que os responsáveis por isso são os hormônios, sobretudo nos homens. Imediatamente depois de ter transado, os homens produzem hormônios que dão vontade de se juntar. Por isso, um homem nunca deve discutir o futuro do relacionamento após uma transa [risos]. Acho que a vontade de viver a dois é muito grande em homens e mulheres. Não tem por que mudar.

A vontade não mudou. Mas as regras dos casamentos, sim. Cada vez mais a nossa sociedade tem valorizado a solidão. Então, talvez a gente esteja a caminho de inventar modelos de casamento mais praticáveis. Acho que a necessidade da solidão de cada um tende a crescer. É possível que nossas casas sejam pensadas em função disso, ou que casais morem separados. É possível que o casamento não seja nenhum contrato econômico no futuro, como foi em grande parte do século 19. E que seja um casamento de amor, mas muito mais uma parceria, no sentido de achar a vida mais interessante do lado do outro, sem excluir que cada um tenha uma vida própria, inclusive sexual. Não estou pensando no ideal dos anos 60, que fez um monte de gente infeliz, mas numa relação que reduza substancialmente o ciúme.

Mas isso é quase impossível de imaginar hoje. Sim, porque o casamento continua sendo um lugar altamente projetivo. A maioria das pessoas usa o casamento para culpar o outro por coisas que não fez. Culpar o cônjuge por ele próprio não ter conseguido levar adiante um plano de vida. Limitamos mais o outro do que o ajudamos a ser tudo o que ele poderia ser. Idealmente, um bom casamento seria um casamento que potencializasse o que o outro tem de melhor, mesmo que isso desviasse do plano inicial de cada um.

E você já vê relações desse tipo? Pouco, mas elas estão acontecendo. Quando a gente fala de outro tipo de relação, logo acham que um dos dois quer pular a cerca. Não é isso. Se a mulher do Amyr Klink tivesse dito: “Eu quero que você jante em casa todas as noites”, ia ser um problema. E a gente não teria tido o Amyr Klink. Ele teria reprimido uma potencialidade muito importante. Ela sofreu? Deve ter sofrido. Mas casamento é isso. É querer que o outro dê o máximo de si. Não a nós, mas a ele mesmo.

A independência financeira feminina não nos aproxima desse ideal de casamento que você acredita? Sim, sem dúvida. Do ponto de vista da mulher, ser independente é muito bom, porque diminui a chantagem econômica. Mas a chantagem continua sendo muito forte mesmo assim, porque ainda há muitos casais que não se separam por uma questão econômica. E também porque é muito dolorido. Eu lamento todos os meus fins de casamento, que não foram poucos. Já fiz isso umas oito vezes.

 

"A maioria das pessoas usa o casamento para culpar o outro por coisas que não fez"

 

Mas continua achando que a melhor forma de viver é a dois? Sim. Porque o interessante do casamento é que ele aposta na continuidade, no aprofundamento. No meu caso, e no meu escopo, não fracassa o lado do ideal romântico e do sexo selvagem. Fracassa o lado da parceria, do fato de que os dois não conseguem mais desejar que o outro conquiste tudo o que quiser. O casamento é uma tremenda armadilha. Não digo que a gente tenha que fugir dele, mas vejo pessoas que levam oito anos para se separar, quando deveriam ter terminado em duas semanas, porque não sabem como contar para os filhos, como farão no próximo Natal...

As carreiras das mulheres têm atrapalhado os casamentos? Não sei. O esquema clássico de sempre sacrificar a carreira perante o casamento está em crise. Acho que casamento e carreira têm pesos parecidos na vida da mulher atual, e acho que o homem só agora está se dando conta disso.

Isso mudou alguma coisa na relação? Os homens passaram a dar mais valor à mulher. Veja, não à carreira da mulher, mas à mulher em si, porque os homens têm sempre a esperança de que a carreira da mulher seja menor do que a deles, porque no fundo são todos instrumentos de domínio. Eu mesmo assumo que não conseguiria ficar casado com uma mulher que ganhasse muito mais do que eu. A melhor saída é que esse domínio tivesse expressões eróticas em vez de não eróticas.

Como assim? O poder é erótico desde o século 18. É um dos grandes traços da modernidade. É um jogo. Então, acredito, mesmo sem ter como comprovar, que quanto menos um casal for politicamente correto nas transas, tanto mais o equilíbrio de poder no casamento e na convivência será respeitado. Ou seja, quem consegue brincar de amarras e dominação na cama, quem tem um sexo imaginativo, evita formas de domínio na vida cotidiana, e isso tende a prolongar a vida do casal.

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