por Lia Hama

Eliane Dias, empresária do Racionais MC’s, e Alexandra Loras, consulesa da França, criam grupo de mulheres para estimular o orgulho negro

Imagine um mundo onde os líderes revolucionários, os filósofos e os escritores mais admirados são todos negros. Deus e Jesus Cristo têm os cabelos crespos e a cor de pele escura. Os heróis dos filmes e dos desenhos animados são todos negros, assim como os reis, as rainhas e as princesas. Nos livros de história, os brancos só aparecem em duas páginas que falam sobre seu passado de escravos. Nas novelas, as mulheres brancas ou são faxineiras ou são amantes dos negros ricos. Aos brancos restam os papéis de malandros e traficantes de drogas.

O exercício de imaginação de um mundo ao reverso é proposto pela consulesa da França em São Paulo, Alexandra Loras, que há três anos vive no Brasil. “Gosto de sugerir essa dinâmica para que os brancos sintam como é o nosso dia a dia como negros. Essa empatia é importante para que possamos buscar, juntos, uma situação de maior equilíbrio na representação de negros e brancos”, explica Alexandra, filha de mãe francesa e pai africano, nascido numa aldeia da Gâmbia. Jornalista e ex-apresentadora do canal TF1, Alexandra escreveu uma tese de mestrado sobre a ausência de negros no noticiário televisivo francês.

Em novembro passado, Alexandra se juntou a Eliane Dias, empresária do grupo Racionais MC's e mulher do rapper Mano Brown, para criar o grupo batizado de Negras Empoderadas. “Somos cerca de 50 mulheres, entre advogadas, empresárias, cantoras, atrizes, psicólogas e ativistas, que se reúnem uma vez por mês para debater assuntos de interesse das mulheres negras. Os temas vão da representação dos negros na TV, passando por violência doméstica e gravidez entre jovens negras”, explica Eliane.

Muito axé
A Tpm acompanhou o último encontro das Negras Empoderadas realizado no dia 5 de março, às vésperas do Dia Internacional da Mulher. Um ônibus saindo do centro de São Paulo levou o grupo até o município de Diadema, na Grande São Paulo, onde fica o terreiro de Mãe Carmen de Oxum - o Ilê Olá Omi Asé Opô Araká. “A mãe Carmen é uma yalorixá de grande referência no Brasil. É poderosa e empodera outras mulheres. Ela defende sua religião, luta contra a homofobia e o machismo. Quis trazer o grupo para mostrar o exemplo de uma mulher negra guerreira e inspiradora”, conta Eliane.

“A mãe Carmen é uma yalorixá de grande referência no Brasil. É poderosa e empodera outras mulheres”
Eliane Dias

As empoderadas assistiram a uma apresentação de dança das filhas de santo ao som de atabaques, almoçaram pratos típicos da culinária africana, como acarajé, caruru e vatapá, e visitaram o terreiro da mãe de santo, com aposentos dedicados a cada um dos orixás, os deuses do candomblé.

Ao final, Alexandra falou sobre a importância de promover a identidade negra com referências positivas. “Precisamos resgatar nossa autoestima, nosso orgulho negro. Machado de Assis, Teodoro Sampaio e André Rebouças eram intelectuais fantásticos, mas a maioria dos brasileiros não sabe que eles eram negros. A geladeira foi inventada por um negro, o marcapasso também. A antena parabólica, o telefone celular e muitas outras coisas. É preciso contar isso para as nossas crianças”, disse a consulesa, exibindo seus cabelos curtos, estilo black power.

“Precisamos resgatar nossa autoestima como negros. Machado de Assis, Teodoro Sampaio e André Rebouças eram intelectuais fantásticos, mas a maioria dos brasileiros não sabe que eram negros”
Alexandra Loras

O grupo das Negras Empoderadas é fechado (só entra quem é indicada por uma integrante do grupo). O próximo encontro delas será com a primeira-dama da cidade de São Paulo, Ana Estela Haddad, para debater políticas voltadas para as mulheres negras na capital paulista.

 

 

Créditos

FilGr

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