por Lygia da Veiga Pereira

A criação de bancos de gametas nos transformou em produtos, mercantilizou o ser humano, vendendo a herança de olhos azuis, cabelos lisos e diplomas de Harvard

Uma das novidades do nosso admirável mundo novo é a possibilidade de obtermos óvulos e espermatozoides de doadores para termos nossos filhos. Sim, bancos desses doadores se multiplicam no mundo todo, e atendem às necessidades das mais variadas pessoas: homens e mulheres com problemas de fertilidade, casais homosexuais, mulheres desejosas de uma produção independente, e por aí vai (já falei sobre isso aqui). 

Aqui no Brasil, esses bancos de doadores de gametas (óvulos e espermatozoides) são regulamentados pela ANVISA, que não permite a remuneração dos doadores e disponibiliza informações somente sobre a idade, altura e peso dos mesmos para os clientes.  Já em bancos dos EUA, por exemplo, podemos saber a cor dos olhos, profissão, escolaridade, hobbies, histórico da família e até o signo dos potenciais doadores de gametas.  Além disso, fotos atuais e dos doadores quando crianças muitas vezes estão disponíveis.

Com tanta informação, sorte a dos americanos? Talvez não... Uma pesquisa recente mostrou que, se por um lado o acesso a muita informação sobre a doadora de óvulos ajuda o casal a escolher as mais parecidas fisicamente consigo e as mais saudáveis (características razoáveis de serem desejadas?), por outro pode causar uma série de angústias e dilemas

Como ninguém é perfeito, ao escolher uma doadora com várias características desejáveis, mesmo essa escolhida poderá ter alguma outra característica incômoda – e o que começou como uma escolha pelo “melhor” passa a ter um gostinho de escolha pelo “menos imperfeito”.  Pelo visto as nossas imperfeições são mais toleráveis do que aquelas das possíveis doadoras...  E depois, eu vou contar para meu filho tudo o que sei sobre sua mãe-biológica?  E se ele achar ela mais bacana do que eu?

Uma coisa é deixarmos a loteria genética correr solta, sorteando aleatoriamente quais os genes que vamos passar para os nossos filhos. Outra completamente diferente é escolhermos ativamente esses “genes”, o que os clientes tentam fazer ao escolher seus doadores baseados em todas aquelas informações. Estamos fazendo as “escolhas” corretas?  E ao saber tanto sobre a doadora, ela se torna mais real na cabeça dos clientes, o que muitas vezes incomoda.  Ora, então não leiam as informações disponíveis.  E a gente resiste?

Pois é, nem sempre “conhecimento é poder” – em particular no que diz respeito à escolha de pais biológicos para nossos filhos. A criação de bancos de gametas nos transformou em produtos, mercantilizou o ser humano, vendendo a herança de olhos azuis, cabelos lisos, diplomas de Harvard, temperamento assim ou assado. Cuidado, minha gente: o poder da genética é grande, mas ao mesmo muito limitado. Temperamento, inteligência, e o mais importante - felicidade – não caem do céu, são construídos!

Lygia da Veiga Pereira trocou Ipanema pela Universidade de São Paulo. É professora Titular de Genética Humana, chefe do Laboratório Nacional de Células Tronco Embrionárias da USP e referência nacional em pesquisas com células tronco. Escreve às quintas na Tpm.

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