por Fernando Luna
Tpm #171

A retrospectiva de 2016 promete ser a mais longa de todos os tempos, mas para a trilha sonora do ano serão necessárias apenas duas canções

Se a retrospectiva de 2016 promete ser a mais longa de todos os tempos, a trilha sonora do ano precisa de apenas duas canções para dar conta de tudo o que aconteceu de janeiro a dezembro — e olha que aconteceu de tudo.

A primeira faixa é Lazarus, o epitáfio artístico do David Bowie. Lembra do clipe? Foi lançado dia 7 de janeiro.

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Bowie aparece deitado numa cama, talvez num hospital ou sanatório. Seus olhos estão vendados por ataduras. Ele canta coisas como “Estou em perigo, não tenho mais nada a perder”. Nos últimos acordes, caminha de costas para dentro de um antigo armário de madeira, e se fecha lá. Não podia ser mais explícito: três dias depois, o cantor morreria.

Esse tom soturno foi o prelúdio perfeito para Eduardo Cunha, impeachment, Michel Temer, PMDB, crise política, zika, desabamento da ciclovia, vídeo de estupro coletivo, crise econômica, refugiados, Pokémon GO, Brexit, Donald Trump, Garotinho, Sérgio Cabral, avião da Chapecoense, Renan Calheiros, delação da Odebrecht, mais crise política e mais crise econômica.

A redenção só chegaria no finalzinho do ano, com a segunda canção: A Hard Rain’s A-Gonna Fall, do Bob Dylan, na voz de Patti Smith.

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Ela foi representar o amigo na entrega do Nobel de Literatura, na Suécia, dia 10 de dezembro. Arte não fica mais potente do que isto: uma punk, acompanhada por uma orquestra sinfônica, canta aquela que foi apontada como a melhor música de protesto já escrita pelo maior compositor de música de protesto.

Todo mundo esperava um número incrível, claro. Foi bem mais que isso, foi sublime.

Os versos apocalípticos bateram mais forte neste ano difícil. Na canção, um pai pergunta ao filho por onde esteve e o que viu: “Entrei em sete florestas tristes, fiquei diante de uma dúzia de oceanos mortos”.

No meio da canção, Smith erra a letra. Tenta continuar, mas logo desiste. Pede desculpa, “estou tão nervosa”. É aplaudida, retoma a música por mais um minuto e tropeça de novo nas palavras. Dessa vez, dá uma rápida olhada para a maestrina e continua.

A partir daí, o corpo inteiro de Smith entra na música. Ela começa a mover as mãos, os braços, o corpo todo. Levanta um pouco a cabeça e a voz ganha intensidade: “Vi um galho negro que pingava sangue, vi armas e espadas afiadas nas mãos de crianças”.

A luta para chegar ao final da canção foi a representação perfeita da travessia difícil de 2016. “Ficarei de pé no oceano até começar a afundar, mas conhecerei minha canção antes de começar a cantar.” E a estranha cumplicidade da conversa de pai e filho injeta uma nota de solidariedade diante do caos.

Uma chuva forte vai cair? Deixa chover. Vamos em frente.

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