por Rebeca Puig

Vamos falar por nós mesmas: a diretora Patty Jenkins é a primeira mulher a ter força dentro do clube do bolinha que são as produções de filmes de super-heróis e lança sua Mulher-Maravilha

Os anos 40 foram anos muito peculiares para as mulheres nos Estados Unidos. Com boa parte dos homens do outro lado do atlântico lutando na Segunda Guerra Mundial, elas assumiram muitos dos postos de trabalho que foram deixados para trás, tornando-se peça fundamental na infraestrutura do país. No entanto, assim que esses homens retornaram da guerra, elas foram empurradas de volta para o papel de donas de casa. Foi nesse contexto que Diana Prince, Princesa e Embaixadora de Temiscira, aka Mulher-Maravilha, ganhou vida.

Criada pelo controverso psicólogo William Mouton Marston, sua estreia em 1941 tornou-se um marco na representação feminina nos quadrinhos já que, naquela época, ela era a única super-heroína protagonista de uma história. O mercado de HQs passava por uma crise de imagem, e a criação da personagem veio também para melhorar o modo como o público via quadrinhos. Mulher-Maravilha era a única super-heroína que não estava relegada ao papel de interesse romântico ou ajudante, foi criada para ser um ótimo exemplo de tolerância, paz e igualdade. Marston causou furor na comunidade acadêmica ao manter um casamento aberto, com suas duas famílias dividindo a mesma casa. As duas mulheres da vida de Marston, Elizabeth Holloway e Olive Byrne, estavam elas mesmas à frente de seu tempo; ambas ligadas a carreiras acadêmicas, serviram de inspiração para a criação da personagem - foi Elizabeth quem disse para Marston fazer dela uma mulher.

Fast forward para 2017, Mulher-Maravilha está finalmente fazendo a sua estreia como protagonista de um filme solo de super-heróis. Foram anos e mais anos, desde as primeiras adaptações de Superman na década de 80, de executivos dos estúdios de cinema dizendo que levar Diana Price aos cinemas era difícil, complicado e um desafio. A discussão sobre representação feminina na cultura pop e o aumento das vozes femininas não só como consumidoras, mas também como força criativa, parecem ter surtido efeito e nós finalmente vamos ver Diana arrasando nos cinemas. É interessante relacionar o momento no qual Diana foi criada e os dias de hoje, quando ela chega pela primeira vez às telonas.

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Apesar da discussão sobre representação feminina estar cada vez mais forte, o que se vê na sociedade como um todo é um avanço de um conservadorismo que deseja que mulheres assumam novamente papéis de gênero ultrapassados - como aconteceu nos Estados Unidos ao fim da Segunda Guerra Mundial. Não estamos mais na década de 40, não precisamos mais que homens falem por nós, criem por nós - não admitimos mais isso. A presença feminina existe na produção de quadrinhos desde o começo, mas era muito difícil para qualquer mulher, em qualquer ambiente artístico, ganhar reconhecimento e ser ouvida. Reconhecer a importância de Marston com a criação da personagem é muito importante, mas também é necessário entender que estamos 75 anos no futuro, e que agora nós vamos falar por nós mesmas. De muitas maneiras, a diretora Patty Jenkins é a primeira mulher a ter força dentro do clube do bolinha que são as produções de filmes de super-heróis - o mesmo pode ser dito sobre a atriz Gal Gadot e a sua Mulher-Maravilha.

Quando Gadot aparecer pela primeira vez para o grande público como protagonista do seu próprio filme, Mulher-Maravilha vai repetir o papel que assumiu lá na década de 40: será a primeira protagonista feminina de filmes de super-herói que não é nem parte de uma equipe, nem é definida pelo seu par romântico (como aconteceu com Elektra, no longa de 2005). Isso vai acontecer apesar de estarmos há sete anos acompanhando o universo Marvel se desenrolar nos cinemas. Mas ser a primeira também traz grandes responsabilidades: se Mulher-Maravilha for mal nas bilheterias, é possível que Patty e Gal sejam as únicas responsabilizadas - porque quando se cria algo com protagonismo feminino e com equipe feminina, a obra passa por um julgamento muito mais cruel do que se o protagonismo fosse masculino e a equipe masculina. A DC Comics/Warner vem de uma leva de filmes que dividiram público e foram escrachados pela crítica especializada. Mulher-Maravilha vem carregando mais essa responsabilidade, trazer um novo momento, uma virada para o universo cinematográfico da editora.

A importância da Mulher-Maravilha, tanto nos quadrinhos, na televisão, no cinema e na vida das milhares de mulheres que cresceram vendo, muitas vezes, apenas ela como representante feminina nesse universo, é imensa. E apesar da personagem ainda ser a representação de apenas parte de todas nós, já que nós não somos apenas mulheres brancas e magras, sua chegada aos cinemas é um momento icônico. Que tenha sido Patty a dirigir o filme só torna esse marco ainda mais importante. Fica agora a esperança de que não vamos precisar esperar mais sete anos para vermos uma nova personagem super-heroína como protagonista, a esperança de que vai se abrir o espaço para outras representações femininas, e também que diretoras tenham oportunidade de dirigir não só filmes com protagonismo feminino.

Afinal, somos muitas, somos diversas, somos maravilhosas.

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