por Natacha Cortêz
Tpm #168

Ela não casou, não fechou o decote, não baixou a voz. Fafá de Belém traz no corpo, na história e no discurso a liberdade como assinatura

Era 1970 quando, aos 14 anos, Maria de Fátima, calorenta como toda menina crescida no Pará, pisava em “terras de concreto” pela primeira vez. Fafá – apelido que nasceu com ela – havia se mudado temporariamente com a família pra cidade de São Paulo pra que a mãe, dona Eneida, passasse por um tratamento médico. Chegou na metrópole bufando vida. Pesava 90 quilos e trajava orgulhosa vestidos de chita com decotes até o estômago, costurados pela mãe, que pregava: “O que é bonito é pra se mostrar”. Fafá não se sentia nada menos que fabulosa. Era dessas garotas que se metia em conversas de adulto e “festava” com eles. Em Belém, cresceu frequentando bordéis aonde ia dançar com a família. Não havia pudor em seus atos. O pai, seu Fefê, já tinha lhe apresentado um mundo de liberdades. Mas, de início, São Paulo não a entendeu. “Achavam que eu estava me oferecendo, olhavam pra mim como quem via um óvni. Queriam me reduzir, me oprimir, me calar, me cobrir de roupas; quando não me violentar”, lembra.

Existência política
Em meados daquela década, Fafá de Belém – agora com sobrenome de artista – chegava ao Rio de Janeiro como cantora, estourava com seu primeiro sucesso, “Filho da Bahia” (1977), canção da novela Gabriela. Vestia transparências, usava penas e flores no cabelo, falava alto e ria mais alto ainda. Esbanjava corpo, voz e abraços. Na Guanabara, também não foi entendida. “Existiam as musas e existia eu, a menina barulhenta que cantava brega e falava o que vinha à cabeça. Eu não estava na categoria de diva da música popular brasileira, estava ali, no sublugar, no subgênero. Eu e meus peitos que escapavam do decote.”

O fato de Fafá não ser entendida fez com que as pessoas criassem estigmas pra nomear o que não engoliam. A cantora perdeu as contas das vezes que foi assediada, criticada e malvista apenas por ser ela mesma. Ser Fafá incomodava aos 20 anos. Ser Fafá aos 60 “incomoda muito mais”, garante. Ser uma mulher livre e que esbanja desejo nessa idade é um ato político. E ela sabe bem disso. “Hoje, represento essa sexagenária que leva a juventude na alma.”

Estamos em sua casa paulistana: uma cobertura dúplex no bairro dos Jardins, onde vive há 32 anos. Nosso encontro começa às 16 horas. Fafá nos recebe com ares de ressaca, cara lavada e um incenso de lótus nas mãos, recém-acordada da noite de comemoração de seu aniversário (no dia 9 de agosto). Pede à Simone, sua secretária há mais de 15 anos, por um aquecedor e duas jarras de água. Joga uma manta no colo e se acomoda no sofá de onde só vai se levantar 5 horas e 41 intensas gargalhadas depois. Logo no começo da conversa, ela avisa: “Sou hiperativa, não paro de falar. Hoje, sou toda sua. Fazer esta Tpm é muito importante pra mim. Sei que através dela vou chegar nas mulheres certas”.

Em julho, pouco antes de completar 60, Fafá subiu ao palco da Casa Tpm para um surpreendente set de rock. Abriu com “Hocus pocus” (imortalizada na versão do Iron Maiden) e cantou Cássia Eller, Plebe Rude, Roberto Carlos e Pitty, além de clássicos do seu próprio repertório com arranjos mais pesados. Muito embora a coisa toda parecesse uma novidade das mais divertidas, estava ali a Fafá de sempre: a que se recusou a pedir desculpas por cantar o que quer, ou por ter um corpo voluptuoso e gostar de mostrá-lo, por rejeitar o casamento, por sair com quantos homens quis, por criar a filha sozinha, por se envolver em política, usar drogas e até por falar pelos cotovelos. Fafá é rock’n’ roll.

Tpm. Como você chega aos 60 anos? Quem é a Fafá agora?
Fafá de Belém. Sessenta é um número e nada mais. Meu comprometimento é com a minha felicidade. A Fafá aos 60 é a Fafá de sempre. Sinto que ainda carrego aquela menina de Belém dentro de mim. Não encaretei com a idade.

Envelhecer te incomoda? Nunca tive tempo, nem paciência, pra ter crise com idade. Nem aos 30, nem aos 50, quanto mais agora. Quer saber por quê? Ninguém vai dizer o que devo ou não fazer por causa da idade. Não permito. Esses dias uma amiga falou: “Não deixe que te chamem de avó”. Por favor! Eu sou avó graças a Deus! A juventude está dentro de mim. Preciso falar pras mulheres que têm 60 anos que é bacana chegar até aqui. Quero ser essa porta-voz. Meu público é a mulher. É com ela que sofro, é com ela que canto. Quando canto “Abandonada por você...”, são milhares de mulheres – e gays! – cantando junto. Eu não sou uma estrela, não sou uma diva, sou a mulher comum. Rumo aos 70! A vida é o que a gente faz dela.

Mas você sente um julgamento social por causa da idade? Mentiria se dissesse que não. Mas, veja, a questão é: não quero sentir. A vida é muito grande, há muito a fazer! Claro que sei do engessamento e da invisibilidade atribuídos à mulher quando ela envelhece, mas tento pensar na contramão. Ganhar anos pode te fazer bem ou mal, depende de como está sua cabeça. Não paro a vida pra ficar obsessiva porque minha bunda caiu. As coisas me tocam, sim, e a verdade é que já me tocaram mais. Fiz todo tipo de dieta que você pode imaginar, procedimentos estéticos mil, mas não piro.

Como é sua relação com cirurgia plástica hoje? Você já declarou que fez algumas “do pescoço pra baixo”. E agora, faria outras? Faria. Se eu quiser fazer mais, faço! Só continuo não gostando da ideia de mexer na cara.

A mídia costuma noticiar quando você engorda e quando emagrece. Como vê esse tipo de cobertura? Sair de Belém e vir pro Sudeste é difícil pra uma menina. Por mais forte que você seja, vão tentar te moldar. E nasci num mundo de águas e liberdade. Fui criando camadas de proteção quando cheguei aqui. A gordura foi uma, a risada outra. As pessoas me diziam: “Você tem um rosto lindo, mas precisa emagrecer”. Com calma, eu respondia: “Me sinto inteira linda”. Acontece que, depois de ser reprimida 500 vezes, o negócio começa a te pegar. Teve uma época em que cheguei a 56 quilos, de tanta dieta maluca que fiz. O que disseram quando sequei? Que eu estava com 
Aids. Desmenti e me inventaram um câncer no estômago. Quer saber por que sou gordinha?! Gosto de vinho! E o vinho que não me tirem!

Seus peitos ficaram tão famosos quanto sua música, ou quanto sua gargalhada. Alguma vez isso te irritou? De jeito nenhum. Sempre amei meus peitos e não sou de me ofender com essas coisas.

Já pensou em diminuí-los? Chegou a mexer neles? Nunca diminuiria. Mas depois da gravidez ficaram flácidos e fiz um remonte. Mais tarde coloquei uma prótese lateral pra segurar o volume, não quero que fiquem pequenos.

Você teve uma filha e, agora, duas netas. São três gerações de mulheres. Vê diferença no mundo feminino entre essas gerações? Ah, sim! O mundo está melhor pra todo mundo, especialmente pra nós. Mas é bom lembrar que muita mulher precisou lutar pras coisas melhorarem. Não foi nada do dia pra noite, nem de graça. E há questões importantes nas quais não avançamos. Aborto, por exemplo, ainda é crime no Brasil.

Você é a favor da descriminalização? Com certeza. Nenhuma mulher vai sair de casa e “oba, vou ali fazer um aborto”. Nenhuma mulher faz um aborto rindo.

Você já abortou? Duas vezes por decisão minha e uma de forma natural. Na primeira eu tinha 18 anos, minha carreira estava começando e eu não podia ter aquele filho. Fui com uma amiga a uma clínica e abortei. Logo que Mariana nasceu [Fafá tinha 24], fiquei grávida novamente. Decidi abortar outra vez, o momento não era o melhor de novo, e meu médico disse que havia riscos. Aos 48, perdi um bebê por causa de um estresse forte.

No programa Roda viva exibido ano passado, você disse que criou Mariana sozinha. Como foi isso? Me separei do Raul [Mascarenhas] quando ela tinha 2 anos. Não vou ser hipócrita, qualquer separação é barraco. Ele morava no Rio, depois foi morar em Paris. Eu e Mariana estávamos em São Paulo. Às vezes ele vinha pra cá e nem fazia contato. Quem me ajudou a criar minha filha foi a poderosa Ercilia, que trabalhava comigo, isso até os 20 anos da Mariana. Com o tempo, ela e o pai acabaram criando a relação deles.

Então Mariana cresceu cercada por mulheres. Sim. Minha casa sempre foi muito feminina. Eu, Mariana e as meninas que trabalham comigo. Em uma época, tínhamos um motorista – não dirijo, não tenho concentração nem pontaria pra guiar. Enfim, daí eu viajava e quando voltava quem estava dando as ordens na casa era o motorista. Peraí, o que tá acontecendo aqui!? Não quero isso pra mim! Resolvi vender o carro. E hoje só uso táxi, aqueles executivos.

Uber não? O Uber não é bom. Eles não sabem andar na cidade, não são motoristas.

Você já falou algumas vezes que nunca desejou casar. Por que não? Nunca vi casamento como meta de vida, de felicidade ou realização. Desde que me entendo por gente, quero liberdade e dinheiro pra viver o mundo, sem que eu precise pedir nada a ninguém, muito menos permissão. O casamento me engessaria. Mas tive muitos relacionamentos sérios.

Mas hoje existem arranjos mais modernos. Tem gente abrindo relacionamento, morando em casas separadas. Morar separado é a melhor possibilidade. Mas ainda melhor é morar em cidades separadas. Um dos grandes romances da minha vida morava em Brasília. E durou até que a gente fez uma viagem de 45 dias juntos. Ficamos cinco anos e terminamos nessa viagem pro Leste Europeu. Implodimos.

Você é monogâmica? Quando tô apaixonada, bicho, sou total! Mas, né, tudo na vida passa.

Conta algo que “passou”. Esses tempos atrás tava com um cara. O sexo era maravilhoso, a gente se dava bem. Daí um belo dia, deitados na cama, ele fez conchinha em mim. Meu Deus do céu! Aquilo começou a me agoniar. Quando fico de saco cheio, preciso poder sair. Deve ser por isso que não gosto de navio. Quer me ver puta? Pergunta onde eu tô indo quando levanto da cama às 3 da manhã pra tomar um ar. “Tô indo ali na esquina dar pro guarda noturno e já volto!” Nossa! Pra mim acaba ali.

Ainda no Roda viva, você citou a Madonna e disse que já pensou em se inspirar na gravadora fundada por ela, a Maverick Records. Ela inspirou você em outras coisas? Ela é leonina como eu! Me inspirou em muita coisa! Ela e Barbra Streisand são uma inspiração. Provaram que é possível você gerir sua própria carreira. A minha dificuldade de encontrar empresários é que eles sempre quiseram me formatar tipo fulana ou sicrana.

Ainda hoje é assim? Ainda. Tenho 40 mil ideias por minuto, mas não sou muito prática. Precisei encontrar pessoas que entendessem e respeitassem minha loucura.

Você cantou Pitty na Casa Tpm. É uma cantora que, assim como você, se posiciona. A Pitty é absolutamente maravilhosa. Uma mulher baiana, que veio de um mundo de axé e chegou cantando 
rock e mandando muito bem. Achei incrível o fato de ela parar tudo mesmo pra ter uma gravidez tranquila. A Pitty estava com um contrato de shows fechado com a Nivea. E teve uma atitude muito corajosa quando decidiu interromper. Somos artistas autônomos, precisamos fazer show.

Como artista, a crise do país também afeta você? Claro! Afeta todos os processos. Hoje, as pessoas pensam: compro feijão ou ingresso de show? E os grandes patrocínios são para os shows estrangeiros. Pra eles não tem crise.

Como surgiu a ideia de montar o show de rock que apresentou na Casa Tpm? Eu tinha acabado de lançar Do tamanho certo para o meu sorriso (2015) quando vi Alcione cantando francês. Liguei na hora pro André Midani propondo: quero fazer um show cantando rock. Sou rock’n’roll! E todas as músicas que cantei na Casa são músicas que canto na minha casa. Amo cantar Pitty: “Que você me adora/ que me acha foda”. É do caralho!

Dos novos nomes, quem mais você ouve? Estou encantada com essas meninas, Simone e Simaria, as irmãs que cantam sertanejo. Tem ainda a Marília Mendonça: “Iêêê, infiel / Eu quero ver você morar num motel / Estou te expulsando do meu coração. Assuma as consequências dessa traição”. Adoro ver mulher cantando letras e gêneros que até ontem eram considerados “de homem”. Depois, tem o Otto. Sou louca por ele! É das coisas mais fabulosas e fortes que existem. Tenho até medo dele. É um diabo louro. Também gosto de 
Johnny Hooker, um menino pernambucano que faz um brega moderno maravilhoso. “Volta” é dele e tá no meu novo DVD. Mas ali também tem “Usei você”, música que a Ângela Maria gravou em 1960 e é absolutamente feminista. “Usei você/ usei seu corpo, seu sorriso e sua companhia”, uma mulher cantando isso, ainda mais naquela época, é muito poderoso. Fico arrepiada. Essa letra é a minha cara.

“Por amor só não matei. Mas morri muitas vezes. Meu melhor amigo nessas horas era o Johnny. Porque dor de amor a gente cura é com whisky”
Fafá de Belém

Pra cantar sobre amor e dor de amor tem que viver a coisa? Sim.

Então você já sofreu muito. Muito! Por amor só não matei. Mas morri muitas vezes. Tive uma paixão que me rendeu um ano e meio de sofrimento. A vida não existia, nada tinha sentido. Se esta coluna falasse [aponta para a coluna de gesso ao lado do sofá], contaria do quanto chorei encostada nela ouvindo Luis Miguel. Meu melhor amigo nessas horas era o 
Johnny, Johnny Walker. Porque dor de amor a gente cura mesmo é com whisky. Em todas as minhas paixões, logo no começo, eu gelava inteira. Era como se a minha vida começasse toda ali.

Maconha não ajuda a amansar essas dores? Não gosto muito, me bota lenta demais.

Você usa alguma outra droga? Veja, é hipócrita quem no meio artístico diz que não usou drogas nos anos 70 e 80. Logo após a morte da Elis [em 1982]– e todo mundo naquela altura cheirava – olhei no espelho e me vi virada. Tinha chegado um papel pra mim, dei descarga nele e passei dez dias trancada no quarto, me jogando na parede. Abstinência pura, das piores. Mas o “exemplo” de Elis pesava demais. A verdade é que uma hora a gente tem que pendurar as chuteiras. Hoje, gosto de um bom vinho e estou apaixonada por gim, que dá uma onda boa.

Você disse uma vez que alguns ex-namorados fizeram você vender milhares de cópias, outros nem tanto. Teve um que me ajudou a vender mais de 2 milhões de discos. E mais: eu mandava recado através das músicas. Porque mulher, quando canta, manda recado.

Conta o nome desse? Pra quê? Sempre fui discreta sobre a minha vida afetiva e sexual. Se você der um Google só vai ver o Raul, pai da minha filha. Meus romances sempre foram privados. E as condições eram: boca calada e não pega no meu pé. Depois que me separei de Raul, Mariana só foi conhecer um namorado meu aos 11. E olha que eu namoro, heim! Teve inclusive um namorado que era mais novo que ela. Quando ela questionava, eu dizia: “Tá ótimo, Mariana. É o que preciso agora”.

E agora, está com alguém? Não. Mas estou atrás de uma paixão dessas que destroem a gente. Adoro a mágica da vida. Comer pessoas faz parte disso.

Recentemente fizemos uma matéria contando histórias de mulheres que depois de anos se relacionando apenas com homens passaram a se relacionar com mulheres. Contigo já aconteceu? Nunca surgiu uma mulher na minha vida com quem eu quisesse seguir em frente. E olhe que vivi os anos 70! Talvez tenha sido pela pele, pela temperatura, não sei. Gosto do cheiro do homem. Tipo o Domingos Montagner, o Alexandre Nero... quando eles chegam o quarteirão fica com cheiro de homem.

Você cozinha? Vi um fogão industrial e um a lenha aqui. Cozinho. Esta é uma casa de cozinheiros. Toda a família e amigos cozinham. Nas festas, não terceirizo nada. E também não fotografo nada, nem os convidados podem fotografar. O bar abre muito cedo, sabe como é… Adoro dar festa em casa. Tenho uma casa grande e moro sozinha, mas continuo aqui por causa das festas. Por mim, faria festa todo domingo.

Na Casa Tpm você contou uma história terrível de garotas do Norte que são levadas pelos próprios pais para a prostituição muito novas. Queria que você contasse essa história aqui. Cara, são meninas de 11 e 12 anos – porque aos 14 estão “velhas” – que são trocadas por comida pela própria família. Elas são deixadas com balseiros que ficam na curva do rio Marajó para serem usadas sexualmente de todas as formas, depois são recolhidas e voltam com mantimentos pras famílias.

Como você ficou sabendo dessa história? Frequento essa região. Tenho amigos lá e contei essa história pra tentar mesmo explodir essa bolha. Alguém precisa fazer alguma coisa, porque as pessoas da região não estão conseguindo. Tem um padre que bate de frente com isso, mas ele é ameaçado. É uma coisa delicada porque tem o consentimento das famílias.

Ano passado rolou uma campanha na internet em que mulheres revelaram como foi a primeira vez em que sofreram assédio. Quando foi que você sofreu seu #primeiroassédio? Não lembro, juro. Devo ter apagado da cabeça. Mas lembro de um primeiro episódio no qual me senti mesmo ameaçada. Eu era uma menina de 17, 18 anos, tinha acabado de chegar ao Rio de Janeiro e fui receber um prêmio na Globo. Na hora de ir embora, pedi uma carona pra um cara que trabalhava na emissora. No carro, ele botou a mão na minha coxa e perguntou se eu de fato queria ir pra casa. Eu comecei um escândalo e ele respondeu dizendo que “vestida daquele jeito e pedindo carona pra um semiestranho eu só poderia estar me oferecendo”. Passei por situações assim incontáveis vezes na vida. As pessoas entendiam minha liberdade como uma permissão. E sou muito livre desde que me entendo por gente. Livre no estar e livre no pensar. E por isso a vida inteira os olhares foram voltados pra mim. “Como aquela menina pode ser assim? Como esta mulher pode ser assim?”

Assim como? Louca, corajosa, falante, hiperativa, barulhenta, enorme, politicamente incorreta. Eu sou a transgressão.

Quem mostrou pra você que a liberdade era irresistível? Cresci cercada por quatro homens: três irmãos e meu pai. Meu pai sempre me apoiou em tudo, ele era um homem à frente de seu tempo. Me ensinou a ser justa e rigorosa, mas livre acima de tudo. Ele era advogado por profissão, mas tinha a alma livre e lia muito. Lia [o poeta austríaco] Stefan Zweig em uma época em que ninguém falava de Stefan Zweig. Ao mesmo tempo, não tinha preconceitos. Em casa entrava todo mundo, todas as classes, todas as cores, todas as tribos. Hoje, ele diria que o gênero não importa, nem orientação sexual. Ele se daria muito bem nos tempos de agora.

Quando ele morreu? Em 94, aos 75 anos, era muito jovem. Câncer fulminante, na cabeça do pâncreas. É um câncer mudo, que não dá sinais. Quando você descobre já é metástase. Passei dois anos fora do ar por causa da morte dele. Engordei 15 quilos e depois foi uma busca infinita em me encontrar. Enquanto isso, a família toda passava por vários processos de explosão.

E sua mãe? Era fabulosa, mas era uma mulher do tempo dela. Se realizava quando eu pedia pra ela aumentar um pouquinho o decote dos meus vestidos. Dizia: “O que é bonito é pra se mostrar”.

Li também que sua casa era um lugar muito político. Era sim. Político e musical. As duas coisas aconteciam juntas. Mamãe era baratista – o ex-governador Joaquim de Magalhães Cardoso Barata (1888-1959) foi um grande líder político do Pará – e papai antibaratista. Por isso, a discussão sempre fez parte. Já a música, entrava por todas as portas através dos amigos. E nós todos terminávamos a noite em bordéis. Os bordéis formaram a base da minha cultura musical. Belém era, e ainda é, uma cidade onde tudo se misturava. 
O Norte é García Márquez puro! Esse 
realismo fantástico dos livros dele representa o dia a dia do Norte do Brasil. A ditadura do comportamento é algo que se manifesta na bolha do Sudeste, onde se enjaulam os corpos e as atitudes das mulheres. Isso não é algo dominante no Norte. Você vai a Parintins, por exemplo, e as mulheres estão de biquíni não importa se o manequim é 38 ou 58, se elas têm 30 ou 60 anos. Existe uma liberdade lá que não existe aqui. E as mulheres são sensuais porque nasceram assim! Não tem isso de fazer a gostosa, é simplesmente ser!

“O norte é García Márquez puro! A ditadura do comportamento é algo da bolha do sudeste, onde se enjaulam os corpos e as atitudes das mulheres”
Fafá de Belém

E você veio desse lugar. Sim! Vim desse lugar onde as mulheres se gostam. As mulheres do Norte têm uma sensualidade nata e são empoderadas disso. Olhe, na minha infância, não tinha roupa pra mim. O que ficava bom no meu peito não ficava bom na cintura. O que ficava bom na minha cintura não servia no meu peito. Minha mãe fazia todas as minhas roupas por isso. Eu desenhava, ela costurava, sempre baixando os decotes. Acabou que eu vestia uma moda que ninguém vestia. Eu adorava misturar chita com seda. Eu andava nua por causa da transparência das sedas e nem percebia, aliás, ninguém abria o bico por isso. Não existia pudor.

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Você já se perguntou por quê? A gente cresce com um calor muito forte. E tá ali o igarapé, estão ali a lua e aquela umidade da noite, então a iniciação sexual e os primeiros beijos vêm de um movimento interno, não externo. Sabe? A gente só ouve nosso corpo. É uma coisa natural, não é ensinado ou empurrado.

Como você vê o momento político do país? A crise serve para o crescimento. Somos um país com uma democracia jovem. E esses jovens que estão agora se manifestando, os secundaristas, por exemplo, tomarão o Brasil. E um Brasil que é maior que Rio e São Paulo. Esses jovens me representam. Especialmente os que não levantaram bandeiras [partidárias] e bateram de frente com o status quo e com os partidos. Porque os manipulados não me representam.

Na sua opinião, houve golpe? Se houve todo um embasamento jurídico, não houve golpe... Mas, olhe, eu gosto da Dilma.

Como presidente ou como mulher? Como mulher. Ela incomodou muito ao ser eleita: Dilma não tinha passagem pela política pra ir direto à presidência. Faltou vivência. E ela teve uma falha muito grande, a não articulação com o Congresso.
Mas acho que a culpa do estado geral do país não é toda dela.

A seu ver, qual o caminho para que o país supere a crise? Reforma política. O que falta no Congresso são representantes que tenham este país nos olhos. É preciso mudar o sistema político brasileiro, que permite que uma pessoa sem profundidade política nenhuma, mas que é muito popular, tenha centenas de milhares de votos e arraste uma bancada inteira consigo pra formar o Congresso. E quem manda no Brasil? O Congresso. Temos um modelo presidencialista parlamentarista.

“Conheço Aecinho desde os 20 anos”, você disse uma vez. Gostaria que Aécio Neves fosse presidente? Deixa eu te falar um pouco antes disso... Nas Diretas éramos todos um palanque só: Lula, Aécio, Arraes, Pedro Simon, Brizola. Sou da época que todos estavam na minha casa comendo maniçoba. Mas, voltando: Dudu [Eduardo Campos, candidato do PSB à presidência, que faleceu em um acidente de avião em 2014, durante a campanha] era o meu candidato nas últimas eleições. Ele era o fiel da balança entre Dilma e Aécio. Como articulador político, ele era um cara que olhava para todos os lados. Hoje, bem, ainda sou fernandista. Fernando Henrique foi o melhor presidente que este país teve.

“Meu nome não está em nenhuma lista de grandes cantoras brasileiras. Sabe por quê? Porque virei brega. Pros críticos, brega é subgênero”
Fafá de Belém

Depois de quase dez anos você lança um disco de estúdio, Do tamanho certo para o meu sorriso (2015), e ele apresenta um resgate ao brega. Isso. Olhe, quando provocada, eu reajo. Demoro mas reajo. Em 1984, quando gravei minha primeira faixa popular, “Memórias”, fui crucificada. Fui chamada de brega no pior sentido. Uma das críticas esperava que eu fizesse a trajetória de Gal ou Bethânia. Mas tenho minha própria trajetória: irregular, irrequieta.

O que é ser chamada de brega da pior forma possível? Eles queriam que eu fosse uma diva. E nunca fui. Se você pega os livros do Zuza Homem de Mello, eu não faço parte das grandes cantoras. Meu nome não está em nenhuma lista de grandes cantoras brasileiras. E sabe por quê? Porque virei brega. E pros críticos, pra imprensa, brega é subgênero. Ou era. As pessoas gostariam que eu vivesse de passado, que fizesse um disco de duetos. Tudo bem, posso até um dia vir a fazer, mas não é o que quero agora. Entendo que a minha trajetória é caminhando pra frente. O passado é maravilhoso, e é uma referência importante, mas não quero viver dele agora. Não quero viver de ter sido a musa das Diretas. Quero fazer mais, estou a fim e consigo. 

Créditos

Foto principal: Christian Gaul

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