por Juliana Sayuri

Encontro feminista internacional reúne oito mil mulheres em Florianópolis

Imagine uma universidade livre, inclusiva e feminista. Um campus colorido e arborizado, tomado por tendas solidárias, ícones como Angela Davis e Frida Kahlo e uma multidão vestindo camisetas roxas vibrantes combinadas com turbantes, tatuagens, véus, urucum ou batom pink. Por uma semana, esse universo utópico ocupou a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis.

Entre 30 de julho e 4 de agosto, mais de 8 mil mulheres participaram das atividades do 11o Seminário Internacional Fazendo Gênero, que integrou o 13o Congresso Mundo de Mulheres (Women’s World Congress). Esta foi a primeira edição do encontro internacional na América do Sul.

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Estruturado em conferências com convidadas internacionais como Maria Odete Semedo (Guiné-Bissau) e Clare Hemmings (Inglaterra), fóruns e performances artísticas, com 16 exposições fotográficas, 17 minicursos, 95 oficinas, 100 lançamentos de livros e 160 simpósios temáticos, o encontro privilegiou o diálogo entre acadêmicas e ativistas – tanto que, na solenidade de abertura oficial do evento, foram as intelectuais presentes no palco que puxaram o bordão “Se cuida, se cuida, se cuida, seu machista! A América Latina vai ser toda feminista!”, que ecoou no auditório.

Segundo as organizadoras, o protagonismo dos movimentos sociais no encontro reflete um momento de autocrítica da academia: a busca por uma universidade “universal”, aberta a todos e todas. “O diálogo é fundamental e fundador deste campo de estudos”, lembra a historiadora Cristina Scheibe Wolff, 49, coordenadora-geral do evento. “As demandas sociais do movimento feminista impulsionaram estudos universitários que, por sua vez, firmaram teorias e importantes conceitos como gênero, que foram incorporados pelos movimentos. Os dois universos estão intimamente relacionados”, diz.  

Presente no campus, o diálogo também reverberou nas ruas: na quarta-feira (2/8), enquanto deputados discutiam a denúncia contra o presidente Michel Temer (PMDB) em Brasília, intelectuais e militantes saíram do campus e ocuparam o centro histórico de Florianópolis. 

Feminismo festivo

Em clima de festa, a Marcha Internacional “Mundo de Mulheres por Direitos” foi marcada pela diversidade. “São diferentes perspectivas, pautas, épocas, estilos, condições, fazendo jus à proposta internacional e interseccional do feminismo contemporâneo”, disse uma manifestante, antes de se embrenhar na multidão — segundo a PM foram 5 mil participantes, para as organizadoras, 10 mil, fico na estimativa média de 7,5 mil.

 “Sou feminista, sim”, sorriu Petúnia Miaci, 10, filha de uma ativista do coletivo Alecrim Horta, enquanto batucava um latão lilás como tambor improvisado no início da manifestação pacífica. “Porque meninos e meninas devem ter direitos iguais”, justificou a garota de trancinhas.

A poucos passos dali, ao lado do carro de som, uma pequena e velha van branca, Tania Meyer, 59, apoiou sua bengala. “Este é um momento histórico, para gerações e gerações. Precisamos nos posicionar sobre o que acontece na política. Precisamos buscar um equilíbrio entre os livros e as ruas, entre a teoria e o mundo real”, afirmou a professora do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC).

Ao som dos tambores do bloco feminino Cores de Aidê, dançaram camisetas coloridas 8M e MM, bandeiras do PSTU versão arco-íris e da CUT lilás, além de uns inusitados balões da Peppa Pig. No leque de reivindicações, questões como a violência, o feminicídio e a cultura do estupro, a criminalização do direito ao aborto, os direitos LGBTTIQ e a defesa do empoderamento econômico.

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No front, feministas negras, quilombolas e indígenas — uma forma de dar visibilidade a questões como o racismo, a violência policial contra a juventude negra e a importância de ações afirmativas e da demarcação de territórios indígenas. Ao lado delas, campesinas, imigrantes, jovens, não tão jovens, estudantes e doutoras. “Como branca e hétero, preciso reconhecer meus privilégios e ouvir a outra para compreender quais são seus desafios e suas demandas, e marchar ao lado delas”, pontuou a historiadora Fernanda Arno, 26.

Ask me about my feminist agenda”, dizia a camiseta de Karen Figueiredo, 29. “Estudo o impacto da tecnologia na vida das mulheres, mas estou acompanhando outras áreas, como a literatura e a antropologia. Minha agenda, afinal, é maior: inclui a luta contra o machismo, a homofobia, a violência de gênero”, ponderou a professora da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), que integra o programa Meninas Digitais. Em outras palavras, há muitos feminismos dentro do movimento feminista atual, amalgamados pela palavra-chave “gênero”.

Das ruas para o campus

Nem tudo são flores no campus, obviamente.

Ativistas e acadêmicas destacam a importância do diálogo, mas nem sempre todas estão na mesma página. “É preciso avançar. Falta ainda atenção a mulheres da Ásia, que inclui a Índia e o Oriente Médio”, critica a cineasta amazonense Juily Manghirmalani, 27, que participa do coletivo Lótus. “Existe um apego acadêmico a autores americanos e europeus, então é preciso incorporar novas referências, novas vozes”, considera.

“É uma relação às vezes conflituosa entre a universidade e a militância, principalmente pelas temporalidades diferentes. O tempo de uma investigação científica é um, o tempo de uma demanda política é outro”, lembra a antropóloga paulista Laís Miwa Higa, 30, também integrante do Lótus. “Mas a gente precisa pensar na nossa articulação como ativistas e acadêmicas a um só tempo, na nossa constituição como cidadãs. Afinal, uma pessoa é uma só”, afirma.

De um lado, o conhecimento teórico pode oferecer ferramentas e análises para a militância. De outro, a experiência e o ativismo político podem aproximar os teóricos das urgências do “mundo real”. “Não há incompatibilidade entre ativismo e academia. O que não pode faltar, nos dois campos, é uma perspectiva crítica, que permita autocrítica para as proposições”, pondera Cristina Scheibe Wolff.

Segundo Wolff, o 11o Fazendo Gênero e o 13o Mundo de Mulheres foram iniciativas universitárias, mas construídas com apoio dos movimentos sociais: nas mesas protagonizadas por acadêmicas, uma ativista cumpriu o papel de debatedora — e vice-versa. 

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Na mesa dedicada a novos coletivos feministas, por exemplo, o debate coube à socióloga cubana Sonia Alvarez, da Universidade de Massachusetts, a partir das experiências expostas por María Pia López (Ní Una Menos, Buenos Aires), Cristiane Mare (Pretas em Desterro, Florianópolis) e Sandra Muñoz (Marcha das Vadias, Salvador).  

Cristiane Mare destacou o que é ser negra num estado branco como Santa Catarina, e o papel de iniciativas como a AfroDivas, que busca o reconhecimento da beleza do corpo das mulheres negras como um ato político. “Enquanto existirem senhores de escravos, a luta continua”, afirmou a ativista, num discurso marcado por um vocabulário teórico, com termos como “interseccionalidade” e “patriarcado”.

“A gente se fode para chegar na universidade. Vocês não têm ideia, viada”, suspirou Sandra Muñoz, 44, ao tomar a palavra. Num tom despojado e de improviso, destacando ativismos inovadores impulsionados por hashtags como #eunãomereçoserestuprada e #meuprimeiroassédio, a pedagoga mineira relatou a saga da marcha das vadias na Bahia e a idealização da marcha das putas latino-americanas no México.

“A gente do movimento social se fode, porque a universidade ainda é um lugar privilegiado, de gente branca, que às vezes não precisa acordar cedo, deixar filho na creche, pegar ônibus, cruzar a cidade da periferia para o centro, trabalhar de dia pra talvez ter tempo de estudar à noite — isso se tiver curso noturno. Ainda é muito fechado”, disse-me depois.

Foi um longo caminho para Sandra Muñoz e muitas militantes que rodaram quilômetros para marcar presença em Florianópolis.

Foi um longo caminho para o Mundo de Mulheres, cuja primeira edição, de 1979, foi realizada a duras penas em Israel: sem internet, com cartas postadas três vezes (muitas não respondidas) e chamadas internacionais de três horas de espera na linha, conforme relatou a socióloga americana Judith Lorber.

Foi um longo caminho para o Fazendo Gênero, finalizado com a socióloga Eleonora Menicucci — “ainda ministra, porque foi golpe!”, nas suas palavras. Ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres entre 2012 e 2015, no governo da presidente Dilma Rousseff (PT), Eleonora endossou as palavras que mais foram bradadas, cantaroladas e rabiscadas ao longo da semana, nas ruas e no campus: “Fora, Temer”. Nesses tempos temerosos, porém, ao que tudo indica, ainda há um longo caminho pela frente. Para o congresso Mundo de Mulheres, a próxima parada é 2020, em Moçambique.

Créditos

Imagem principal: Rodrigo Sicuro

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