por Lia Bock

Cindy Gallop convida os brasileiros a pensar e falar sobre sexo para soterrar valores deturpados que espreitam por aí

Há poucos dias Cindy Gallop pegou o avião de São Paulo rumo à Nova York, onde mora. Deixou por aqui a semente de uma discussão que nestes últimos dias se fez ainda mais relevante. A criadora do Make Love Not Porn (como ela mesma define: pro-sex, pro-porn, pro-knowing the diference) garante que colocar o sexo no centro da conversa pode mudar a trajetória que tem nos levado a uma cultura de estupro e violência. Não é a primeira vez que alguém diz que para acabar com um problema é preciso escancará-lo. Mas quando o tema é sexo, assim, na forma geral e irrestrita, é mais comum a gente dar uma risadinha de lado e falar baixo do que levá-lo para a mesa do almoço de domingo. Afinal, o que a vovó vai pensar? E as crianças, então? E assim, acabamos falando dele apenas quando algo grave acontece.

É com isso que Cindy bate de frente com veemência. Pra ela, renegar o tema no dia-a-dia é o que abre espaço para que visões deturpadas, machistas e violentas sobre o assunto ganhem espaço. Porque se você não vai falar sobre sexo, milhares de sites, propagandas e músicas vão e daí, queridos, vêm toda a sorte de valores, inclusive aqueles que de forma sorrateira naturalizam visões absurdas.

Há quase 10 anos Cindy criou o Make Love Not Porn para expressar seu estranhamento: os homens estavam cada vez mais repetindo na cama posturas desrespeitosas, simplistas e autoritárias. Isso porque, o vazio deixado por uma sociedade conservadora e silenciosa que prefere não falar sobre o assunto, deixa espaço para que visões fetichizadas e violentas se tornem as escolas. Nelas a mulher não tem voz. E assim, uma geração inteira (se não muito mais) vai sendo moldada por valores distorcidos. E Cindy perguntou na lata para os jornalistas que a entrevistaram e para nós, os inscritos do curso que veio dar: “Quais são os seus valores sexuais?”. Pouca gente já tinha pensado nestes termos sobre o assunto.

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O que ela defende, e faz sentido, é que é preciso resgatar o sexo dos porões da sociedade, tirá-lo da caixinha das coisas proibidas, aquela em que moças de bem não comentam ou contam suas preferências. É preciso colocar as ideias (ensinamentos, jeitos, sentimentos) na mesa para que se construa uma base sólida sobre o tema. Sim, porque falar sobre sexo é falar sobre amor, consciência, justiça e igualdade, certo? E pra que esta visão prospere é preciso disseminá-la, trazê-la para o cotidiano. Para as escolas, para casa, para a roda de amigos e para o trabalho. É preciso compor e fazer rima com ela e é preciso tê-la em filmes (de hollywood ao pornô). É preciso ocupar os espaços com um sexo que seja justo. Porque se não, estaremos deixando o caminho livre para que prospere uma outra visão, que transforma algo prazeroso e natural em, por exemplo, uma arma para punir e destruir mulheres. 

As palavras de Cindy me tocaram de maneira muito especial. Porque falam de liberdade, responsabilidade e transparência e colocam o sexo num contexto social. Trazendo para nossas mãos a responsabilidade de espalhar valores positivos e íntegros.

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Não é uma tarefa simples. Mas como sociedade podemos muito mais do que o que fazemos hoje. Cindy me convenceu que este passo em direção a abertura, a clareza e a sinceridade pode começar a nos mover em direção a algo que coloque o sexo onde ele merece: no meio de nossas vidas, junto com todo o resto que achamos importante. Um sexo real, igualitário e seguro. E aí, bora enumerar seus valores sexuais?

*Em breve por aqui a entrevista completa que Cindy Gallop deu à Tpm

Vai lá: makelovenotporn.com

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