por Camila Eiroa

Dani Libardi, uma das diretoras de 3%, primeira série brasileira original da Netflix, fala sobre como ser mulher no audiovisual e indica cinco obras que a inspiram a criar

“Ninguém imagina que, por trás de uma série distópica como 3%, está uma mulher gorda e feminista que nasceu em Piracicaba, no interior de São Paulo. Mas estou aqui, ocupando esse espaço.” A declaração é de Dani Libardi, 31 anos, uma das diretoras da primeira série brasileira da Netflix, que estreou em novembro, com alcance em 190 países. Os atores Bianca Comparato e João Miguel são os protagonistas da história.

Dani divide a direção de 3% com César Charlone (diretor-geral), Diana Giannecchini e Jogatá Crema. Ela vê como um avanço o fato de que metade do time de diretores é composta por mulheres. “É acima da média das produções audiovisuais e essa representatividade se estende para os personagens. Também ficamos felizes de trazer atrizes negras em papéis de destaque e não estereotipados”, conta.

3% é uma distopia, “um mundo que deu errado”, explica Dani. O roteiro foi criado por Pedro Aguilera em 2009 e surgiu originalmente como uma websérie no YouTube. A população vive num mundo pós-apocalíptico, onde falta água, comida e energia. Só existe uma chance de mudar de vida, quando os jovens de 20 anos passam por uma prova de seleção, na qual são testados seus limites físicos e psicológicos. Apenas 3% dos candidatos ganham o direito de ir para o Mar Alto, um lugar de abundância. “O que mais nos interessa é discutir sociedade e, principalmente, a meritocracia”, diz.

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Dani vê tanto na ficção científica, quanto na distopia, um recurso linguístico que ajuda a colocar um ponto de vista particular sobre a realidade. Para a Tpm, a diretora indica cinco obras que fazem parte de seu repertório e a influenciam em seu trabalho.

Lost (2004-2010)
“Foi a primeira série que assisti não na TV, mas baixando e assistindo no meu tempo. Portanto, foi a primeira vez que eu maratonei! Lost foi um marco justamente por expandir o universo da série em outra plataforma, a internet. Assisti no início da faculdade e tomei gosto pela narrativa seriada, que dá mais tempo de tela para aprofundar e desenvolver os personagens. A decupagem do último plano do terceiro capítulo de 3% é uma homenagem minha ao último episódio da 1ª temporada de Lost.”

Mad Max: Estrada da Fúria (2015)
“É uma distopia com protagonistas femininas que estreou logo antes de começarmos a produzir a primeira temporada de 3%. Então, claro que me influenciou. Lembro de ter saído do cinema absorta, envolvida naquele universo. É muito gratificante finalmente ver uma heroína mulher e testemunhar a sororidade entre personagens femininas num filme de ação.”

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The Fall (2013-2016)
“Tem personagens complexas e não-maniqueístas, como em 3%. Desperta interesse tanto pela detetive fodona, quanto pelo serial killer misógino. A série fala de feminismo de forma explícita e didática até, sem parar a narrativa pra isso. Na verdade, feminismo neste caso está no cerne da dramaturgia. É um tipo de série que ainda pretendo fazer.”

Sense8 (2015)
“Uma série original da Netflix, criada e dirigida pelas diretoras de Matrix (uma distopia importantíssima, diga-se de passagem), Lilly e Lana Wachowski. Não é exatamente uma referência do 3%, mas me inspira como diretora. A direção é impecável, uma obra artística mesmo. Impossível não citar a cena do sexo em grupo! Fico contente em ver uma produção que não precisa escolher se é arte ou se é entretenimento.”

Cidade de Deus (2002)
“Quando assisti Cidade de Deus no cinema, jamais poderia imaginar que um dia eu dividiria a direção com o César Charlone, diretor de fotografia do longa e indicado ao Oscar! O filme mudou paradigmas do cinema brasileiro e, de alguma forma, influenciou todos os cineastas brasileiros que vieram depois. Foi um privilégio ver de perto a forma de trabalhar do César. Pude aprender muito e entender com o que eu me identificava daquele processo.”

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Créditos

Imagem principal: Doda Ferrari

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