por Camila Eiroa

A ’artivista’ Criola - como se autodefine - usa as latas de tinta para dar poder às mulheres negras nas ruas de Belo Horizonte

O muro acima foi pintado por Tainá Lima e executado em parceria com sua amiga Lídia, em Belo Horizonte. Mais conhecida como Criola, a grafiteira de 25 anos explora cores e elementos bem brasileiros nos seus grafites. Além disso, faz da arte urbana a sua luta política para fortalecer as mulheres negras.

As pichações e expressões de rua chamaram a atenção da mineira ainda quando criança. Em 2008, aos 18 anos, ingressou em uma escola de arte e, um pouco mais tarde, em 2012, começou a fazer as suas próprias pinturas. Ela conta que o grafite era o tipo de arte mais próximo de sua realidade de vida: "Ele chega onde a arte convencional não se atreve a passar, onde o Estado só age para reprimir".

Criada na periferia, ela conta que já sofreu muito preconceito por ter cabelo crespo, principalmente na infância. Isso reflete completamente em seus desenhos, que exploram a imagem da mulher negra. "Acredito que o grafite, por ser marginal, é uma arma poderosa para impor essa representatividade. A figura da mulher negra é forte no meu trabalho porque é fruto do que eu vivo", diz. 

Acabar com o preconceito é a maior arma do grafite de Tainá. "Desde cedo fizeram-nos acreditar que o nosso cabelo é feio, é duro e difícil de cuidar. O que nós fizemos então? Escondemos ele pra sermos aceitas", reflete. A inspiração para seus desenhos vem das mulheres que cruzam o caminho da artista. Para ela, "cada mulher é um universo de sentimentos. Belas e fortes ao mesmo tempo".

"Se antes escravizavam os negros fisicamente hoje temos uma escravização mental, por meio da imposição de uma estética que não condiz com 99% das brasileiras."

Sobre suas inspirações, ela cita a flora brasileira e a diversidade cultural que existe no Brasil. Do índio, do negro, das rezas e lendas urbanas. Tudo isso serve de alimento para que Tainá faça seus desenhos, cheios de cores e referências fortes, que sem dúvida não passam despercebidos por quem atravessa a cidade cinza. 

Se isso ajuda a mudar o pensamento das pessoas? A grafiteira não tem dúvidas. Para ela, "o cenário está mudando. As mulheres negras estão se amando mais, estão mais conscientes da sua origem e do seu poder e papel enquanto protagonistas da sua própria história".

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