por Natacha Cortêz

Ouvimos quatro especialistas pra te contar dos pormenores do procedimento que está mudando o tempo e a relação das mulheres com a maternidade

Recentemente escrevi para a Trip sobre gente que escolheu ter filhos depois dos 50 anos. E, por mais que a reportagem traga homens e mulheres vivendo a experiência, existe um abismo entre eles na questão de conseguir realizá-la – especialmente quando a adoção não é uma opção. Acabei ouvindo especialistas em reprodução assistida e tratamentos de fertilidade. É inevitável não chegar neles quando falamos de mulheres que fogem da curva e tentam engravidar a partir dos 35 anos (no Brasil, de acordo com o registro de nascimentos de 2015 do IBGE, mais da metade das mães tinham até 29 anos, enquanto nem 3% tinham 40 ou mais).

A infeliz notícia é, o que sobra às mulheres nessa idade, na grande maioria dos casos, é contar com a ajuda tecnológica e cara da ciência. E mais: é "inteligente", segundo o ginecologista e obstetra Renato Tomioka, que planejemos o quanto antes, "aos 30, 32, 35 no máximo", porque nessas idades uma mulher ainda tem óvulos jovens. Se ela não faz isso, mais tarde pode viver um filme de terror, uma vez que engravidar naturalmente em "faixa etárias avançadas é caso pra literatura ou Guinness Book", completa Tomioka. Aí é que começamos a falar de congelamento de óvulos – um assunto que, descobri, sem querer querendo, é sim do meu interesse. Acabo de fazer 30 e pelo menos por agora a maternidade não é algo que me toca. Toda vez que penso nela, vem junto um "num futuro, quem sabe". Acontece que os meus ovários não acompanham minha cabeça e a biologia é cruel pra mulheres que desejam engravidar depois dos 35.

O congelamento de óvulos, ou vitrificação, é simples assim: se quero adiar a maternidade e engravidar em uma idade pouco atípica – mesmo que a medicina considere isso uma má ideia porque envolve riscos e um trabalho de guerra até uma inseminação vingar – devo tomar um coquetel de hormônios pra fertilidade, vulgo estimular meus ovários, e congelar o máximo de óvulos jovens e saudáveis que eu puder. Então, lá pelos 40 e tantos, ou ainda pela idade que eu preferir, volto pra clínica de reprodução, desembolso mais um dinheiro considerável, e faço a fertilização, ou melhor, a tentativa de gravidez. Nessas condições, tenho as mesmas chances de gerar uma criança que eu tinha na idade em que congelei meus óvulos. É como parar o tempo e congelar o processo de envelhecimento dos óvulos.

Bem, o que você encontra aqui é uma espécie de "Tudo que você precisa saber sobre congelamento de óvulos". Um FAQ pra quem procura informação realista.

É triste saber que congelar óvulos é um privilégio para poucas neste país? Triste é pouco. Esse é o tipo de coisa que enquanto você não sabe e não pensa nela, não dói. Por um lado, ler esse FAQ é uma escolha de admitir que mais esse drama feminino faça parte das suas preocupações. Por outro, é bom que a gente saiba das opções que temos e das que não temos. Se a gente quer guardar dinheiro pra isso ou se vai chorar no meio-fio.

Por último, um dos médicos ouvidos para este texto mandou um recado bom de refletir: "O congelamento significa tanto pra autonomia e liberdade femininas como as pílulas de contracepção. Homens podem adiar a paternidade por quanto tempo acharem necessário, quando as mulheres poderão fazer isso com a maternidade sem gastar rios de dinheiro? Essa também é uma questão de desigualdade que deveríamos tentar contornar."

*As perguntas abaixo foram respondidas com a ajuda de quatro fontes especializadas em medicina reprodutiva. Os ginecologistas Renato Tomioka, Carlos Alberto Petta e Cláudia Gomes Padilla e a bióloga Milena Aidar.

Por que mesmo devo congelar meus óvulos? Existem algumas razões que levam uma mulher a congelar óvulos. Basicamente, em todas elas existe a intenção de adiar uma gestação.

Por quais motivos? Ou você não pode viver uma gravidez agora por motivos de saúde – e então existem muitas limitações que seu próprio organismo pode ter ao processo. Um tratamento de quimioterapia é uma delas. Ou apenas não quer viver uma gravidez agora porque prioriza outras coisas. Essas a gente não precisa citar quais, né? São com você.

Existe idade ideal para congelar óvulos? Na verdade, existe idade-limite. Especialistas aconselham o congelamento enquanto os óvulos ainda são, digamos, jovens. Ou seja: até os 40 anos. O que acontece é que, diferente dos espermatozoides, os óvulos envelhecem progressivamente com a nossa idade e ainda são em número limitado. Ao passo que homens nascem com uma fábrica permanentemente ativa de espermatozoides saudáveis e vão assim até o fim da vida, mulheres nascem com um número finito de óvulos (1 a 2 milhões) que só vai diminuindo a partir dos 35 anos. Isso acontece porque o óvulo envelhece muito mais rápido que o útero. Por isso algumas mulheres congelam seus óvulos. O útero permanece jovem e os óvulos não, diz. Ou seja, segundo a medicina, a partir dos 35 anos, se você é mulher e tem vontade de engravidar, a situação começa a ficar complicada.

Quem pode congelar? Qualquer mulher que tenha óvulos saudáveis e não tenha restrições à estimulação hormonal que é feita antes do congelamento.

Como assim estimulação hormonal? Via de regra, todo mês uma mulher libera um óvulo. Mas para o congelamento, é importante acumular possibilidades. Ou seja, congelar o máximo de óvulos possível. Com a estimulação, injeções de hormônio diárias, que geralmente duram cerca de dez dias e são sempre feitas antes da retirada dos óvulos, mais de um óvulo pode ser liberado. Cinco, dez, 20 até. Depende muito de cada caso.

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Quanto vou gastar com o congelamento? É importante aqui considerar três momentos em que você vai gastar. Primeiro na estimulação e no congelamento, depois, durante o tempo em que os óvulos ficarão congelados e, por último, na fertilização deles. Ou melhor: quando eles são inseminados em você. Para cada um desses momentos, os preços variam. Os valores citados aqui são uma média para clínicas e laboratórios na cidade de São Paulo. São também valores que consideram sempre uma tentativa: uma de estimulação, uma de fertilização. Assim, para a estimulação e vitrificação, a partir de R$ 8 mil. Para a fertilização, a partir de R$ 14 mil. Para cada ano em que os óvulos ficarem congelados, a partir de R$ 1.000. Lembrando que os valores podem variar de acordo com cada mulher, cada clínica, cada quantidade de tentativa e tempo de manutenção do congelamento.

Planos de saúde cobrem o procedimento? No Brasil, não.

E o SUS? Também não.

Como funciona o procedimento? Quais são as etapas e quanto tempo ele dura? Todo o procedimento começa dez dias antes da efetiva captura dos óvulos. Inicialmente, a paciente é submetida ao uso de medicamentos responsáveis por estimular o crescimento folicular ovariano e a maturação dos óvulos. Essa etapa dura, em média, dez dias e não muda a rotina de vida da paciente. Assim que alcançado um número adequado e o tamanho ideal de folículos, é programada a coleta dos óvulos. A segunda etapa acontece em uma clínica especializada em reprodução humana por meio de um procedimento cirúrgico que exige o uso de anestesia e dura cerca de 2 horas. A punção ovariana é feita pelo canal vaginal e guiada por um ultrassom, que auxilia na localização dos folículos ovarianos. Os óvulos são capturados um a um. Em seguida, são encaminhados ao laboratório, que avaliará o grau de maturidade e viabilidade de congelamento. Por conta da anestesia, o procedimento costuma ser indolor. Entretanto, no pós-operatório imediato, a paciente pode sentir cólicas, que são geralmente discretas.

Existe prazo de validade para os óvulos congelados? Por quanto tempo eles podem ser mantidos congelados? Não existe. O que os especialistas dizem é que, graças à moderna técnica disponível hoje, a de vitrificação, óvulos podem ficar congelados por tempo indeterminado. Assim que passou pelo procedimento, o óvulo não envelhece mais e suas características são mantidas.

E congelar e descongelar são procedimentos que afetam a saúde dos óvulos? Não.

E sobre as possibilidades de sucesso do procedimento. Quais são? O congelamento não necessariamente garante a gravidez num futuro. Isso porque o óvulo ainda precisa ser descongelado, fertilizado e implantado no útero. Uma mulher que tenha congelado cerca de 20 óvulos até os 35 anos tem aproximadamente 70% de chances de conseguir engravidar. A probabilidade diminui quando o procedimento é feito mais tarde.

Doação compartilhada, do que se trata? Uma nova resolução publicada pelo Conselho Regional de Medicina publicada em abril de 2013 trouxe uma série de mudanças nas normas que regem as técnicas de reprodução assistida. Uma delas estabelece a doação compartilhada, que funciona da seguinte forma: uma mulher que tem boa reserva ovariana doa parte dos óvulos para uma outra que não consegue engravidar com os próprios. Os custos da fertilização são divididos entre elas e a doação deve ser anônima. É a clínica que se encarrega de fazer a ponte entre elas. A doadora deve ter no máximo 35 anos e a receptora, 50.

Se não utilizar o óvulo e não quiser mantê-lo mais, o que posso fazer? Nesse caso é possível descartar o óvulo, já que ele é apenas um gameta, como aquele descartado pela mulher todo mês. Se ela quiser, pode doar para pesquisa, mas terá de preencher um termo dizendo que abre mão daquele óvulo.

Existem riscos no processo? A mulher passa por uma estimulação hormonal, na qual recebe uma carga alta de hormônios para produzir mais óvulos em um mesmo ciclo. Esse processo pode gerar complicações: pode haver reação ao uso de hormônios ou ainda a produção exagerada de óvulos, chamada de síndrome do hiperestímulo ovariano. Com isso, pode ocorrer um distúrbio metabólico pelo acúmulo de líquido no abdome, um dos sintomas é a dor abdominal. No entanto, todas essas complicações podem ser contornadas pelo médico que acompanha a mulher. Se o início do procedimento transcorrer sem problemas, é realizada a captura dos óvulos, via vaginal, com anestesia. Um ultrassom guia a agulha, que é introduzida na vagina até os ovários, onde os óvulos são aspirados. Os riscos nessas punções são: a agulha atingir um vaso importante da pelve ou o sangramento ovariano não cessar. Nesses casos, a mulher é submetida a uma laparoscopia diagnóstica para contenção do sangramento.

Há diferenças na gravidez de um óvulo fresco e de um óvulo congelado? Não há diferença na gravidez em si. Depois de descongelado, o óvulo fertilizado se torna igual ao óvulo fresco.

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Não vou usar meus óvulos congelados. Posso doá-los para alguém da minha família? Não, isso não pode ser feito. A doadora não pode escolher para quem doar, porque essa doação deve ser sigilosa. Quem doa não sabe quem será a receptora e vice-versa.

Qual é a diferença entre o congelamento de óvulos e de embriões? O congelamento de óvulos nada mais é do que o processo feito exclusivamente com o gameta feminino. Já o congelamento embrionário é resultado da fertilização in vitro prévia do óvulo pelo espermatozoide. Considerando que o embrião é produto da fecundação do gameta feminino pelo gameta masculino, quando o casal realiza o processo junto, normalmente, a decisão por descongelar o embrião costuma ser conjunta. 

Créditos

Foto principal: Thaiz Leão (Mãe Solo)

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