por Milly Lacombe

Milly Lacombe vai à Paraíba e lembra o resto do país que os problemas do Brasil não estão só em Brasília. Há uma epidemia de microcefalia e é hora de entender a gravidade disso

Entrar na maternidade pública de Campina Grande, na Paraíba, é visitar uma distopia. Nos corredores quentes de paredes verdes e desgastadas existem grupos grandes de mulheres grávidas esperando sua vez de fazer a ultrassonografia. O aparelho que executa os exames, doado pela Samsung, tem um brilho e uma modernidade que contrastam com o visível abandono do prédio que abriga a maternidade. Dentro de uma sala escura e muito pequena as grávidas enxugam o suor da testa, que está ali em nome de uma mistura de medo e calor, deitam sobre a maca, levantam o vestido ou a blusa, e expõe suas barrigas para o bastão da doutora que em poucos minutos dará seu veredito. Ao contrário do que um exame como esse poderia revelar num mundo menos injusto, e que levaria as gestantes a um estado de emoção e excitação para saber o sexo da criança, na maternidade pública de Campina Grande esse momento é para determinar basicamente se aquele feto tem alguma má-formação cerebral ou não. O número de crianças que nasce com microcefalia e outras má-formações cerebrais já é chamado de epidemia por lá, e a tensão no corredor da maternidade pública de Campina Grande pode ser cortada a fórceps. 

Doses elevadas de angcaca e a má formação cerebral e que trabalha na maternidade pública de Campina Grande, teve que dizer a seis gestantes que o feto que elas carregavam tinha um problema grave. Em geral a dra. Adriana dá essa notícia de uma a duas vezes ao dia, o que já é uma enormidade. “Alguma coisa muito grave está acontecendo aqui e o Sul precisa vir ver”, diz a doutora com lágrimas nos olhos.

Em um corredor não muito longe dali, no mesmo andar, há um outro grupo de mulheres, aquelas que já deram à luz crianças com algum tipo de má formação cerebral. No dia em que estivemos por lá elas eram quase 20. Mas o clima ali já é outro: com suas estranhas crianças nos colos, e não mais na barriga, elas agora se agigantam em nobreza, a despeito da aparência de cada uma delas, distante do que imaginamos para um bebê saudável. Para essas mães seus bebês não são esquisitos, são lindos e abençoados. E elas os abraçam e beijam e os inundam de paixão. O cheiro também é outro ali, e nada diferente do cheiro de qualquer ambiente com crianças sem microcefalia: um cheiro de amor, de afeto, de lavanda e talco. O ser humano e sua incrível capacidade para amar e aceitar.

Mas a travessia entre o dia em que uma gestante fica sabendo que seu bebê vai nascer com má formação cerebral e o dia em que a criança vai para o seu colo – quando vai porque muitas morrem antes – é penosa, cruel, desumana.

Para a dra. Adriana o que fica a cada minuto menos aceitável é ela não poder dizer a uma gestante que carrega um feto com microcefalia o que vai acontecer a ele. Ao contrário da Síndrome de Down, condição que permite ao médico explicar aos pais o que eles podem esperar e o que podem fazer pelo bem-estar do bebê a fim de que ele ou ela cresça e se torne um adulto funcional, não há como prevenir os pais de um bebê com microcefalia, muito menos traçar planos e acalmá-los, porque nada se sabe sobre a condição. Não há pesquisas, não há estudos, não há interesse.

Não há porque trata-se de uma epidemia que atinge as comunidades, as classes mais baixas, as pessoas com menos poder político e econômico e que ficam a cada mais à margem da vontade legislativa.

Conversando com essas mulheres que trouxeram ao mundo uma criança com microcefalia fica bastante claro que não é possível seguir trabalhando e ao mesmo tempo cuidar de uma criança com má formação cerebral. Então elas precisam sair de seus empregos de faxineira, babás, arrumadeiras, cozinheiras, caixas de supermercado, balconistas – porque é essa a atividade profissional que elas exercem. 

Mesmo aqueles que mais prezam pela mão leve do Estado em nossas vidas terão que concordar que para essa mãe apenas uma ajuda do governo pode resolver a parada. Mas a ajuda não vem, e quando vem, nos poucos casos em que o governo, depois de analisar infinitas quantidades de documentos, aceita pagar a elas um salário-mínimo, ela não é suficiente porque é quase toda gasta em remédios.

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A distopia então se aprofunda. A mãe, agora desempregada, precisa cuidar da criança com dificuldades motoras sem sequer saber se, ou quanto tempo, ela sobreviverá. Se cada uma de nós que agora lê esse texto tiver um filho com essa condição cerebral teríamos que parar de trabalhar e, sem renda, precisaríamos de ajuda financeira para dar a essa criança algum tipo de dignidade, de chance, de vida – por menor que seja. Imaginemos então o que passam essas mães, que normalmente moram em lugares sem água encanada, sem esgoto, sem nenhuma estrutura minimamente decente, costumam ter mais filhos e um marido que não segura o tranco.

Ainda assim elas seguem abandonadas pelo Estado. E, ainda assim, o Estado as proíbe de abortar, caso esse seja o interesse de uma gestante que fica sabendo que trará ao mundo uma criança com microcefalia, que não sabe se ela sobreviverá, ou por quanto tempo, não sabe que tipo de vida a criança levará, não sabe o que esperar, mas sabe que terá que deixar seu emprego e dedicar a vida a cuidar do filho ou da filha, que muitas vezes apenas vegetará.

Um Estado que diz “você não pode abortar” deveria ser um Estado que oferece, então, condições para que aquela mulher cuide da criança com dignidade. Mas não é o que temos. O que temos é um Estado que abriga o moralismo religioso e o moralismo político em uma só teta. E as mesmas pessoas que usam esse moralismo para dizer que nada no mundo é mais importante do que a família e acham natural que governos subsidiem indústrias que ajudam a acabar com o mundo – como a petrolífera – são as primeiras a dizer que mulheres não podem abortar e que o Estado não deve ajudar ninguém porque basta um pouco de esforço e de trabalho honesto para que o dinheiro venha.

Esse mesmo Estado, que não ofereceu sistema de esgoto a essas mulheres, é o primeiro a culpar a mãe pelo feto com má formação cerebral: quem mandou deixar água parada em casa? Você não sabe que água parada vira foco do mosquito que transmite o Zika? Por que não colocou uma tela na janela? Por que não comprou repelente? Por que se deixou picar sabendo da gravidez? Coloquemos de lado o absurdo dos argumentos da tela e do repelente, ambos caros demais, e foquemos na crueldade do recado. A dra. Adriana diz que o recado é eficaz e que, no final, toda a mãe se sente culpada pela condição do bebê.

A rede pública de Campina Grande tem 680 mil habitantes e um único aparelho de ultrassonografia. É nele que a doutora Adriana faz seus diagnósticos. Nos últimos meses foram 33 envolvendo: genitália ambígua, pulmão mal formado, coluna aberta, falta de dedos, cérebro mal formado, visão prejudicada. Em 2014 o Brasil teve 147 casos de microcefalia, pouco tempo depois os casos suspeitos passaram de quatro mil e segundo a Fiocruz poderão ser 16 mil em 2016.

Mas vamos sair do teórico e entrar no prático porque esse é um caso de “na prática a teoria carrega alguma poesia”, e também um caso que mostra como elegância e sofisticação vêm mesmo de berço, um berço surrado que fica em um quarto dentro da comunidade.

Alessandra e Alexandre são os pais de Samuel, 7 meses. Samuel tem má formação cerebral e Alessandra, que trabalhava como faxineira, precisou largar o emprego para cuidar do filho. Alexandre, assistente de pedreiro, ganha 900 reais por mês e tem que sustentar sete pessoas. Mês passado gastaram 400 reais em remédios para Samuel, um menino risonho e sedutor que foi capaz de emocionar uma jornalista estrangeira que por lá passou e se sentiu compelida a dar 5 mil reais ao casal. Alessandra aceitou, mas não pegou nem um real para ela: doou o dinheiro para a construção de um instituto que a dra. Adriana sonha em erguer para tratar gratuitamente de crianças como Samuel e amparar famílias como a de Alessandra e Alexandre. 

Créditos

Imagem principal: TRËMA

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