por Aline Cruz

Como as mulheres estão desconstruindo a dominação masculina na música erudita

Mozart, Debussy, Beethoven, Tchaikovsky, Villa-Lobos. Quem gosta de música clássica passa a maior parte do tempo ao som de compositores do sexo masculino. E não é preguiça de procurar: a história tratou de esquecer muitas mulheres compositoras. Maria Anna Mozart (1751-1829) foi a primeira da família a estudar música, e chegou a ser considerada mais talentosa que seu irmão como instrumentista. Wolfgang Amadeus Mozart, porém, teve o apoio do pai, que o acompanhava em turnês pela Europa, enquanto Maria Anna ficava em casa, incentivada a procurar um marido e costurar. Há evidências de que ela escrevia músicas – o irmão famoso elogia algumas em suas cartas para ela –, mas o pai nunca as mencionava e nenhuma sobreviveu.

Mesmo mulheres que têm algum reconhecimento em outras áreas da música clássica são esquecidas quando se trata de trabalhos autorais. Apesar de ter sido aclamada como pianista e professora, e ter sido instrumental na divulgação das obras de seu marido, Robert Schumann, Clara Schumann (1819-1896) não recebeu atenção como compositora até há pouco tempo. Fanny Mendelssohn (1805-1847) escreveu mais de 460 músicas. Uma delas, Ostersonate, redescoberta em 1970, foi atribuída a seu irmão, Felix Mendelssohn, um erro que só foi desfeito em 2010.

A situação dessas compositoras do século 19 é apenas uma parte histórica de um cenário que segue muito atual. Basta dar uma olhada em quantas diretoras artísticas de óperas e regentes de grandes orquestras encontramos no Brasil e no mundo. Há indícios concretos de que isso se dá por conta de um machismo estrutural. Uma mudança simples, nos anos 70 e 80, aumentou entre 30% e 50% as contratações de mulheres nas orquestras americanas: "audições cegas", um tipo de seleção em que os candidatos ficavam atrás de uma tela que impossibilitava o juri de vê-los. Antes, grupos como a Filarmônica de Nova York e a Orquestra Sinfônica de Boston tinham menos de 5% de integrantes mulheres. Há ainda declarações polêmicas de maestros pelo mundo, como a do russo Vasily Petrenko, que, em 2013, afirmou que mulheres regentes seriam uma “distração erótica” para os músicos da orquestra e que “quando mulheres tem famílias, torna-se difícil que elas se dediquem como é demandado na indústria”. 

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Foi num cenário complicado assim que a maestrina brasileira Ligia Amadio, atual diretora artística e musical da Orquestra Filarmônica de Montevidéu (ela é a primeira mulher a comandar a orquestra uruguaia), começou sua carreira. Ligia se envolveu seriamente com música durante a faculdade de engenharia de produção, na USP, quando participava do coral da universidade. Em 1986, foi estudar regência na Unicamp. "O início de toda carreira de regente é muito difícil. Não há quase oportunidades, e, por causa disso, não se adquire a imprescindível experiência. Há pouquíssimos postos de trabalho no mundo”, ela explica. Além disso, Ligia diz, "há muita desconfiança em relação às mulheres em geral" na música erudita. "A desconfiança evidentemente fecha portas, e as mulheres regentes e compositoras têm menos oportunidades de mostrar sua capacidade. E é claro que a falta de experiência, no caso das regentes, vai determinar sua impossibilidade de realizar uma carreira.”

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Para trocar experiências e dificuldades da profissão, a maestrina reuniu-se com outras três regentes brasileiras – Cláudia Feres, Érica Hidrikson e Vania Pajares – em um bate-papo que culminou na organização, em outubro do ano passado, do Simpósio Internacional Mulheres Regentes, que reuniu, em São Paulo, profissionais do Brasil e de outros países para questionar a falta de mulheres regentes e falar sobre a importância de ações afirmativas para mulheres nesta profissão. "Estamos compilando as conversações realizadas nas mesas para futura publicação, e estamos organizando o segundo simpósio, que será em Montevidéu”, conta Ligia.

A regente Priscila Santana, atual maestrina do Programa de Inclusão Através da Música e das Artes (Prima), na Paraíba, vive uma situação ainda mais usual dentro da música erudita: além de ser mulher, ela combate a ideia de que esse espaço é para as elites. Priscila estudou oboé no Neojiba, sigla para Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia, projeto de integração social criado, em 2007, pelo maestro e pianista Ricardo Castro, inspirado em um modelo de educação musical de acesso gratuito criado na Venezuela, em 1975, por José Antonio Abreu. “Como marcador social, eu sou jovem, mulher e negra. Três pontos 'incomuns' dentro do perfil de diretores, maestrinas e maestros. E isso, claro, repercute em algumas ações cotidianas”, diz Priscila. "Como instrumentista, saí de alguns grupos por me sentir assediada sexualmente. O meu trabalho musical era desconsiderando a partir do momento que eu dizia não. Em uma esfera maior, recebo comentários do tipo 'ela é séria e trabalha muito para uma mulher' ou a pior,  'ela é uma negra bem ousada’. Sou ousada por quê? Porque este espaço não é para mim?”

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É preciso que a história lembre, ainda que daqui em diante, das regentes, compositoras e outras musicistas que constroem a música erudita. No Brasil, são nomes como Ligia Amadio, Priscila Santana, Marina Asolp, Nathalie Stuzmann, Marisa Rezende, Vânia Dantas Leite... Parece, ao menos, que muitas meninas já terão em quem se espelhar nos próximos anos.

Créditos

Imagem principal: Ilustração/Heitor Loureiro

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