por Felipe Maia
Tpm #143

Livro conta a história das gêmeas mais famosas de Amsterdã

As bochechas coradas, as pernas rotundas, as vozes ternas, os cabelos brancos. Há quem veja nessa descrição uma avó perfeita. Há quem veja um corpo excitante. Há quem veja tudo isso em dobro. “Nós sempre fomos mais que putas”, diz Louise Fokkens. Ela e sua irmã, Martine, são as prostitutas mais antigas de Amsterdã. E são gêmeas.

Louise nasceu pouco antes de Martine. Louise sempre foi a primeira em tudo. É ela quem fala à Tpm. Com 20 anos, Louise também deu início aos trabalhos da dupla. Forçada pelo marido a se prostitur, logo se livrou dos jugos dele para cair na vida com as próprias pernas. Martine veio a seguir. “A maioria das garotas faz isso porque não tem muitas opções”, diz Louise.

Desde então, as duas bateram ponto por mais de 50 anos no "Red Light District", a zona urbana mais famosa do mundo. Em 2013, Martine retirou-se de campo - pouco depois de sua irmã, obviamente. O documentário “Meet the Fokkens” mostra o cotidiano das senhoras pouco antes da aposentadoria. O longa também apresentou Louise e Martine a esquinas do mundo todo.

Como era de se imaginar, muita história sobrou para ser contada após o filme. Várias podem ser encontradas no livro As senhoritas de Amsterdã (L&PM, R$ 39). Embora a tradução ofereça alguns entraves à fluidez que o texto pede, a obra funciona como retrato das ruelas cheirando a sexo, trocados e turistas do folclórico “Red Light District”.

São passagens prosaicas, como as rápidas idas e vindas do apressadinho Nelis; relatos de personagens como o Hannes que virou a Hannie; e trechos espinhosos, como o impacto trazido pela globalização e as prostitutas do leste europeu. “O jeito de antigamente, a vida típica de uma prostitua holandesa, como as coisas costumava ser, enfim, isso já era”, afirma Louise.

Nos últimos anos, ela e sua irmã dedicam-se a pintar. “Gostamos de dizer que somos artistas agora”, conta. Adoram desenhar paisagens, flores e plantas nos seus quadros. Sexo não é um tema explorado nas telas, mas ainda faz parte da vida delas. “Ainda gostamos de sexo tanto quanto quando éramos jovens. Talvez até mais!”

Tpm: Quando vocês perceberam que não eram prostitutas comuns, que eram celebridades?
Louise:
Antes do filme e do livro nós sempre fomos mais que putas. Uma pessoa é muito mais que sua profissão. Eu também sou uma mãe, e antes disso éramos conhecidas porque somos gêmeas. Sempre soubemos que éramos e sempre fomos conhecidas por nossa luta pelas mulheres na prostituição. O nome “putas velhas” ficou famoso em todo o mundo por causa do filme.

Apesar dos vários problemas que existem no mundo da prostituição, vocês gostavam desse tempo? Vocês sentem falta dele? Quando começamos a trabalhar era tudo bem estranho. Mas quando nos acostumamos a ele, lidamos bem com a situação. Gostávamos daquilo em alguns momentos, gostávamos das pessoas ao nosso redor. E conseguimos nos prover uma vida boa. A gente não sente falta do trabalho nas vitrines ou nos quartos. Sentimos falta das pessoas ao nosso redor, mas como vamos pra Amsterdam algumas vezes por semana, ainda mantemos contato com elas. Também mantemos contato com alguns clientes frequentes. Eles envelheceram como a gente. Ainda é legal jogar esse jogo às vezes. A gente gosta da ação, do desempenho.

 

“Ainda gostamos de sexo tanto quanto quando éramos jovens. Talvez até mais!”

 

Vocês começaram a trabalhar como prostitutas porque vocês não tinham dinheiro para pagar suas contas e tomar conta dos seus filhos. Você acredita que hoje em dia esse é o principal fator que leva mulheres a se prostituir? Em todo o mundo tem muitas mulheres que entram nesse mundo porque elas veem que não há outra maneira de fazer dinheiro para elas e para seus filhos. Em Amsterdam tem muitas situações diferentes. Algumas garotas precisam de dinheiro, algumas entram no negócio através de amigos, um namorado ruim ou apenas porque querem mudar de vida. No fim das contas, a maioria das garotas faz isso porque não tem muitas opções.

Depois de 50 anos de prostituição, qual foi o melhor momento vivido por cada uma de vocês? E o pior? O melhor momento foi quando tínhamos nossos próprios bordeis. Trabalhávamos para nós mesmas e algumas garotas também trabalhavam para nós. A gente economizou uma grana para isso, a gente trabalhou muito. A gente comprou a frente do prédio, incluindo o alvará, e restaurou a fachada para ficar bem bonita. Deu pra fazer um bom dinheiro. Os trâmites de regulação com o governo foram bem difíceis e demoraram bastante. Aí a gente fez uma grande festa quando abrimos as portas! O pior momento: quando as autoridades nos disseram que tínhamos de fechar nosso negócio porque a licença ia acabar. Depois disso, em 1988, fundamos uma organização para defender os direitos da nossa profissão. Tentamos fazer algo legal a partir daí.

Vocês já tiveram clientes brasileiros? Como foi? Sim, é claro! Tinha um bar brasileiro no Red Light District aonde a gente ia às vezes pra dançar. Tinha vários brasileiros lá e de vez em quando a gente dava uma volta com eles. Depois a gente voltava pra dançar até mais feliz! Os brasileiros são muito legais, as mulheres brasileiras também.

Como foi a criação dos seus filhos? Foi muito triste quando uma das minhas filhas ouviu o que a gente fazia de uma mulher do bairro onde a gente morava. Até eles fazerem dez anos eles não sabiam de nada. Por um tempo a gente deixou eles em uma espécie de internato pra evitar problemas com o nosso conselho tutelar. Foi dessa maneira que eles cresceram.

Vocês já se sentiram ameaçadas por algum tipo de violência enquanto trabalhavam? Já fomos ameaçadas, mas nunca nos sentimos ameaçadas. A gente não se assustava fácil e tem muita gente que fala mais do que faz. Em casa a gente tinha um machado e no trabalho a gente tinha chicotes e sapatos salto-alto para se defender. Esse não é um bom ramo se você é uma pessoa que se sente ameaçada com facilidade. 

Temos muito problemas relacionados ao machismo no Brasil. Vocês já sofreram algum tipo de preconceito sexista em Amsterdam? Acreditamos que isso é um problema internacional. Nós mesmas nunca fomos abusadas durante o trabalho. Nós mesmas decidíamos quem entrava e quem saía do bordel. E os clientes tinham de pagar antes pra festa começar.

 

"Hoje em dia há muitas taxas e regulamentação, somos mais exploradas pelo governo que pelos cafetões. Legalização e regulamentação pode ser algo bom, mas no fim sempre haverá incompreensão e exploração"

 

 

Quais são as maiores mudanças que vocês veem entre a prostituição praticada hoje em dia e a prostituição na época em que vocês começaram? O "Red Light District" mudou muito nesses últimos 50 anos. O jeito de antigamente, a vida típica de uma prostitua holandesa, como as coisas costumava ser, enfim, isso já era. Era legal antes, as pessoas eram mais próximas e o dinheiro era bom. Agora a maioria das garotas vem de outros países, existe menos irmandade entre elas e tudo é muito mais impessoal. As pessoas eram mais ligadas umas as outras, elas realmente viviam juntas. As prostitutas compravam coisas nos pequenos comércios, gastavam dinheiro. Elas iam aos bares da vizinhança, faziam parte da vida do bairro. Agora as garotas mandam dinheiro para seus países e não vivem de verdade o lugar. Elas só podem ficar dentro dos bordéis, também, porque é proibido trabalhar nas ruas. O Red Light District era a região mais rica da cidade e hoje está tudo um pouco mais pobre.

Vocês acham que a prostituição deveria ser regulamentada e legalizada em todo o mundo? Por quê? Isso é uma questão complicada. Independente de quais sejam as regras, elas sempre trazem muitos problemas. Hoje em dia há muitas taxas e regulamentação, somos mais exploradas pelo governo que pelos cafetões. Legalização e regulamentação pode ser algo bom, mas no fim sempre haverá incompreensão e exploração. Criminosos e governo sempre tornam as coisas difíceis para as garotas.

O que vocês fazem atualmente? Temos um pequeno espaço no "Red Light District" onde expomos nossos trabalhos. Pinturas em telas, na maior parte. É um lugar temporário que a gente alugou por um preço baixo. Enfim, gostamos de dizer que somos artistas agora. Também fizemos mais um filme e colocamos algumas ideias em mais um livro, o terceiro, com lançamento no próximo semestre.

Como é a família de vocês atualmente? Eu tenho quatro filhas. Martine tem três. Tenho nove netos e Martine, três. Já temos alguns bisnetos. Se for incluir quatro irmãos e irmãos, os primos e os sobrinhos, tem bastante gente. Dois de nossos bisnetos são gêmeos também.

Depois de tudo o que vocês viveram, o que vocês pensam sobre sexo? E sobre excitação? Ainda gostamos de sexo tanto quanto quando éramos jovens. Talvez até mais! Nossos corpos e sentidos estão funcionando muito bem e quando encontramos a pessoa certa, ficamos excitadas como nunca. A idade não tem nada a ver com excitação.

Vai lá: As senhoritas de Amsterdã, ed. L&PM, R$ 39,90

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