por Karla Monteiro
Tpm #97

O ator é mais que uma bela combinação de músculos, pele bronzeada e rosto de galã

A boca carnuda de Cauã Reymond dá beijos estalados. No caso, nas bochechas. Ele não é do tipo que encosta o rosto. Não fosse a imagem de galã que temos dele, se nunca o tivesse visto antes, logo o rotularia: garotão da zona sul carioca. Trata-se de um tipo característico no Rio de Janeiro. Eles são lindos, têm corpos sarados, bronzeados, transpiram saúde e se vestem de maneira padronizada: calça jeans de marca boa, camiseta de malha descolada e, invariavelmente, sandálias Havaianas. E a impressão que passam é a de que nunca tiveram problemas, questões existenciais, tormentos. Para eles a vida seria sempre um fim de tarde na praia de Ipanema.

À primeira vista Cauã é isso. Ou melhor, tudo isso. Ele diz que passou a vida batalhando para conquistar essa fina estampa. “Uma vez perguntei para uma namorada o que eu aparentava. Ela disse: ‘Menino rico desleixado’. Fiquei felizão. Quis isso a vida toda”, fala Cauã, olhando nos olhos, atracado a um sanduíche de mussarela de búfala e tomate fresco. “Depois vi que essa imagem não era tão legal. Saquei que minhas raízes eram interessantes. Calma aí, ralei tanto, poxa!”

O papo foi numa dessas casas de sucos do Rio. Ele conhecia o gerente desde a adolescência, embora estivéssemos numa filial do tradicional Balada Sucos, em um shopping da Barra da Tijuca, redondeza que escolheu para morar com a sua Grazie. “Mudo a aliança de dedo quando vou surfar”, diz, enfiando o dedo do meio na boca para puxar o anel e passar para o dedo do compromisso. “Não somos casados. Moramos juntos. É uma relação diferente de todas as que já tive. A gente não trabalha junto, não faz capa de revista. Fazemos questão de preservar a nossa história”, explica, sobre o romance com a miss simpatia Grazie Massafera. Os dois se conheceram no estacionamento do Projac. “Olhei para ela, me apaixonei e fui. Sou assim: foquei, é ali que vou. Bom que foi recíproco.”

Antes de dar a palavra a Cauã para que ele revele suas “raízes interessantes”, vamos ao currículo do rapaz de 29 anos, nascido em 20 de maio de 1980, sob o signo de Touro. A mãe é astróloga. “Sou taurino. Gosto de coisas que duram”, comenta. Começou em Malhação, fez 5 novelas, 2 peças de teatro e 11 filmes, entre eles o cult Se Nada mais Der Certo, de José Eduardo Belmonte. O ano de 2010 vai ser um “ano Cauã”. Ele estará na próxima novela das oito, Passione, de Silvio de Abreu. E nos cinemas em quatro estreias: Não Se Pode Viver sem Amor, de Jorge Duran; Reis e Ratos, de Mauro Lima; Estamos Juntos, de Toni Venturi; e Meu País, de André Ritum. O ator coleciona nove prêmios. Alguns importantes, como os de melhor ator nos festivais de cinema brasileiro de Miami, Toronto e Los Angeles. E outros nem tanto: personalidade masculina do ano, pela Contigo, e prêmio melhores do ano, do Domingão do Faustão. Entre uma bocada e outra no sanduíche, Cauã contou que já comeu muita paçoca nesta vida.

Você, claro, é carioca?
Sou, da Gávea lá de cima, na entrada da Rocinha. A família do lado da minha mãe é muito pequena. Só minha mãe e minha avó. Não tenho avô, porque minha mãe é adotada. Minha família paterna é maior. Morei na Gávea até os 9 anos. Depois, fui morar com o meu pai em Balneário Camboriú, no Sul. Fiquei um ano. Voltei para o Rio, fiquei mais um ano e nos mudamos para Friburgo. Minha mãe estava com dificuldade de manter o apartamento na Gávea. Morei dois anos em Friburgo. E, aos 14, fui morar com o meu pai em Santa Catarina de novo.

Quase um nômade... Tipo isso. Morei com o meu pai dos 14 aos 18, foi quando vim para o Rio trabalhar. Meus pais são separados desde que eu tinha 2. Minha mãe era vendedora de loja, batalhadora, trabalhou na Company por anos. Tinha uma fábrica de paçoca. Já comi muita paçoca na vida. Até hoje não aguento ver. Meu pai é psicólogo. Minha mãe é astróloga também.

Família classe média? Média baixa. Nunca fiquei mais de dois anos numa escola. Fiquei um ano na Escola Parque [onde estudam filhos de artistas e intelectuais]. Aí ficou caro, me botaram numa escola de surdo e mudo. Minha primeira paixão foi uma mudinha. Eu tinha uns 5, 6 anos.

Irmãos? Tenho três. Um por parte de mãe, que nasceu quando eu tinha 8 anos; uma irmã por parte de pai, de 12. E tenho uma mãe, que é uma mãe de escolha, ex-mulher do meu pai, que tem um filho adotivo, meu irmão também.

Você tinha alguma aptidão artística na infância, adolescência? Nenhuma. Acho que fui um garoto bem sem orientação até os 14 anos, quando fui morar com meu pai no Sul e comecei a treinar jiu-jítsu. Dos 12 aos 14, quando morei em Friburgo, foi uma época difícil, adolescência. Aí minha mãe quis que eu fosse morar com meu pai, para ter uma presença masculina.

E aí vem o jiu-jítsu? O jiu-jítsu é uma história. Foi a primeira vez que fui bom em algo. No meu primeiro campeonato fui vice-campeão. No segundo, campeão brasileiro. Fui bi no brasileiro e tricampeão sul-brasileiro. Fui campeão carioca. Tive bons patrocínios, como a Company. Na época em que a minha mãe trabalhava era difícil ter uma roupa da Company. Era tipo uma Osklen.

Jiu-jítsu não é muito violento, coisa de pitboy? Tive a sorte de ter um professor baixo, faixa marrom de judô. Era um cara que, nem que quisesse, podia ser violento. Ele pregava um lado da ética do judô. Atleta de judô não se mete em confusão. Não posso falar que eu era um santo. A última vez que briguei foi num ônibus escolar. Aquelas brigas de filme, Velocidade Máxima, sabe? Pisa na cabeça, dá um soco, o cara puxa uma faca... Quando enveredei por um caminho ruim, meu pai me chamou... Ele era faixa preta de jiu-jítsu.

Foi um adolescente rebelde? Nunca fui de procurar briga. Mas, como na adolescência acontecem brigas, eu estava pronto para brigar. Meu pai me falou: “Cara, você até hoje não tomou um pau, é campeão... Mas não é legal. Um dia vão te bater muito”. Nunca mais briguei.

O esporte te deu um norte na vida? Sem dúvida. Quando estava com 17 anos, a Company chamou alguns atletas para fazer a campanha da marca e fui um dos escolhidos. Durante as fotos, o produtor de moda falou que eu tinha que ser modelo, que tinha que conhecer o [agente carioca] Serginho Mattos. Fui com o meu avô conhecer o Serginho, nervoso. Não entendia aquele universo.

Um universo... meio gay? É. Não estava acostumado. Mas o Serginho me proporcionou coisas muito boas. Meu primeiro trabalho foi uma campanha da Zoomp, com o Mario Testino. O segundo foi com Bruce Weber, fazendo a campanha da Abercrombie & Fitch, em Nova York.

Sabia que era bonito? Não tinha a menor ideia. A coisa das mulheres começou a acontecer com 14 anos. Perdi a virgindade com 14. Mas me lembro que era namorador. Nunca fui um cara de ficar solto. Era muito regrado por causa do jiu-jítsu.

Esporte dá disciplina, né? Eu tinha muuuuuita disciplina. Não transava três semanas antes de um campeonato. Tinha foco, era muito certinho.

Jura? Tem a ver? Tem teorias. Até hoje não sei te dizer. Na época eu era jovem, me diziam que era bom ficar sem transar, falavam que os Gracie faziam isso. De vez em quando cruzo com o Rickson Gracie pegando onda. Ele ainda é meu ídolo. Um dia vou perguntar: “Você ficava sem transar, Rickson?”.

Você seguia a dieta Gracie (baseada na combinação de alimentos, desenvolvida pelo patriarca, Carlos Gracie)? Seguia. Eu era muito junkie moleque: hambúrguer de calabresa, batata frita, queijo cheddar. Tem uma coisa de combinação de alimentos, que não sigo mais radicalmente, mas aprendi.

Voltando à história de virar modelo... Logo depois que passei no vestibular de psicologia, surgiu uma oportunidade de ir para Milão. Resolvi largar tudo e viajar. Foi difícil. Não tinha dinheiro, mas fiquei seis meses. Voltei, fiquei seis meses no Brasil e fui para Paris, também seis meses. Em Milão fiz muito desfile para a minha altura, tenho um 1,82 metro. Com 19 anos, fui para Nova York.

Você curtiu o mundo da moda? Não, mas me ajudou a ficar mais esperto, situado. Na Europa, eu não podia treinar jiu-jítsu. Treinei judô. Em Paris, tenho uma história maravilhosa. Ganhei a minha faixa marrom de judô na primeira aula. Cheguei humilde. Começamos a treinar. Quando acabou, o professor me deu uma faixa marrom. Foi o dia mais feliz fora do Brasil.

Em algum momento se deixou encantar pelo glamour? Nunca fui do glamour. Me lembro, em Paris, do dia que abri o desfile do Jean Paul Gaultier. Estava provando roupa com outro modelo e o Jean estava almoçando. Nos convidou para comer. Eu, modelo morto de fome, falei: “Claro”. Aquilo foi o auge do glamour na minha carreira de modelo. Depois do desfile, estava lá no metrô, duro, voltando para casa.

E Nova York? Eu já estava fechando um ciclo da moda: Milão, Paris, Nova York. Os modelos que estavam no auge eram aqueles english guys, magrinhos, cabelinho para o lado, anglo-saxão pra caramba. Com 20 anos, terminei um namoro, parei de trabalhar como modelo e decidi voltar para o Brasil. Meu pai me perguntou: “Você já pensou em ser ator?”.

Aí que te deu o click? Fui conversar com a minha agente e ela me falou de uma professora chamada Susan Batson, coach de atores como Nicole Kidman e Tom Cruise. Fiz uma aula, a mulher pirou em mim. Falou: “Você nasceu para fazer isso”. E me deu uma bolsa. Falei: “Mas não tenho dinheiro para comer”. Ela me deu trabalho. Eu nem sabia o que era atuar.

Sorte? Tudo aconteceu. Um dia fui treinar de favor numa academia de jiu-jítsu. O cara gostou de mim, me chamou para trabalhar. Eu lavava o banheiro, pintava a escola. Vivi dois anos com US$ 20 por dia. O esporte já não era mais o foco. Mas fui campeão americano em 2000, ganhei dos alunos dos Gracie.

“Não fiquei mexido com o glamour da moda. Mas fiquei mexido com o glamour da TV. A análise foi o que me fez enxergar o risco disso”

Quando voltou ao Brasil? Voltei por causa do 11 de Setembro. Assisti o segundo avião batendo na torre. Estava no downtown de Nova York. O cara com quem morava era árabe. A gente dormia com facas debaixo do travesseiro, com medo que alguém invadisse a casa. Foi a época dos red necks. As pessoas agrediam os árabes. Voltei para o Brasil para o Natal, mas com a intenção de retornar aos Estados Unidos. Estava lá havia dois anos.

Foi aí que parou de lutar? Foi. Cheguei no Brasil, peguei a faixa preta em 2002, treinei mais um mês e parei. Achei que tinha cumprido minha missão. Não luto desde 2002.

Foi nessa época que entrou em Malhação? Foi. Meu empresário atual é a mesma pessoa que procurei na época, o Antônio Amâncio, professor de teatro que estava iniciando o caminho de agente. Ele falou que tinha chances de entrar na Malhação e eu não sabia nada sobre o programa... Mas sabia que pagava. Fiquei um ano e oito meses lá. Aí vi que, quando você está na Malhação, é difícil de sair da Malhação.

Por quê? Não fiquei mexido com o glamour da moda. Mas fiquei mexido com o glamour da TV. As meninas caem em cima. Você, com 22 anos, testosterona na cabeça... A análise foi o que me fez enxergar o risco disso. Depois de uns seis meses me situei. E vi que ia ter que ralar para sair da Malhação.

Você sempre fez terapia? Fiz terapia reichiana [desenvolvida por Wilhelm Reich, que alia psicologia a bioenergia][linha tradicional da psicanálise, criada pelo francês Jacques Lacan] dos 14 aos 20 e tal. Em Paris, falava com a minha terapeuta por telefone. Aos 24, comecei a fazer análise lacaniana . A análise é muito boa para mim, até como ator. Tem ator que passa a vida toda pegando um pouco do que tem para entregar para os personagens. Passa a vida para chegar nessa verdade, nessa transparência. Tem atores que têm o talento, o dom. São os gênios, o Daniel Day Lewis, o Sean Penn. No Brasil, temos o Selton Mello, o Wagner Moura.

Onde entra a terapia? A terapia me fez entender os meus limites, onde terminava a minha personalidade, onde tinha que começar uma pesquisa por algo que eu não conhecia. Fiz personagens que tive que explorar, parar de fazer coisas que eu faço, para entrar naquela energia. Estou aprendendo.

Você se casou muito jovem com a Alinne Moraes, não é? Moramos juntos dos 22 aos 25 anos. Deu muito certo. Toda relação é boa, terminamos numa boa. Está ótimo.

Quais são os marcos da sua carreira? Se Nada mais Der Certo me abriu portas. Os diretores estão me chamando por isso. Televisão bota todo mundo num plano. Foi na A Favorita que meu personagem aconteceu.

Para a vida, cinema ou TV? Tenho uma coisa estabelecida, a forma como vejo a carreira. Televisão abrange um público grande. E não dá para fazer os personagens que o cinema e o teatro te proporcionam. Mas aprendo muito. Quando vou buscar um projeto fora, busco um que me permita falar com um público diferente, que me dê liberdade cênica, até porque volto melhor para a televisão.

Quem são seus amigos? Amigos da televisão tenho o Pedro Neschling e o Dudu Azevedo. Tirando eles, são colegas.

Você pratica muito esporte? Não luto mais. Cansei de brigar e fui surfar. Essa é uma análise que faço: como comecei a crescer como ser humano lutando, associava a luta com ser amado. Tipo: “Quando ganho campeonato, todo mundo me ama, meu pai me ama, pego as menininhas”. Em 2002, resolvi ser prego de novo. Não pegava onda bem e atuava muito mal. Larguei uma coisa que eu era bom, ótimo, e fui ser prego.

Como se relaciona com a fama? Com educação. A coisa que mais me incomoda é aparecer surfando todo dia em site. Não é só isso que faço. Às vezes, vou surfar com amigos desconhecidos, pego carona no carro deles, mas os paparazzi te acham. E ainda fotografam a sua pior onda...

Você deixa de fazer coisas por causa dos paparazzi? Não fico mais na praia, curtindo. As fotos que saem por aí são sempre chegando ou saindo. Não corro mais na areia. Quando corro, é de camisa. À noite eu não saio. A última vez que fui a um show tinha uns três caras querendo arrumar confusão comigo.

Qual a sua estratégia para ter privacidade? Eu trabalho. Trabalho muito. Tem três anos que não tiro férias. Depois dessa novela [Passione, de Silvio de Abreu], e eu prometo isso pra mim mesmo, vou sumir!

Qual foi sua última viagem? Para Los Angeles, para o festival brasileiro de cinema.

Quem é a pessoa que mais admira atualmente? Isso muda constantemente. Hoje tenho admirado bastante o Barack Obama.

O que mais gosta em você? A determinação.

E o que mais detesta? Detesto não sei se é a palavra, mas muitas vezes me pego tendo que frear a minha própria determinação.

O que você considera sua grande realização? Meu trabalho, que vem crescendo. Mas acho que ainda maior que o trabalho é o crescimento pessoal.

Como se imagina aos 60 anos? Andando. Tenho um problema no quadril. Vou tratar bem dele para chegar aos 60... andando.

Como você gostaria de morrer? Em paz.

Qual é sua ideia de felicidade máxima? Não existe felicidade máxima. Acho que ninguém sente isso. Você já sentiu felicidade máxima?

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