por Gabriela Cavalheiro

Talvez não seja bem assim. A seguir, o relato de uma brasileira em um biquíni brasileiríssimo nas praias de mulheres cobertas da Turquia

Na primeira vez em que ouvi o termo burkini, o estranhamento foi imediato. Burquíni é um neologismo que une as palavras biquíni e burqa, uma vestimenta que cobre o corpo feminino do topo da cabeça aos pés, comum em algumas comunidades muçulmanas. Assim, lemos burkini como “a burqa que também é biquíni”. Criado em 2004 na Austrália pela estilista Aheda Zanetti, muçulmana nascida no Líbano, a peça se popularizou entre mulheres de diferentes regiões, que o incorporaram quase que de imediato.

Brasileira nata, cresci exposta às praias do Rio. Ou seja, biquínis brasileiros eram uma norma pra mim. Já adulta, morei cinco anos em Londres e me acostumei aos biquínis europeus, maiores que os nossos, e também ao topless, supercomum na costa sul francesa onde passei meus últimos verões. Em agosto deste ano, estive no sul na Turquia e visitei as praias de Antalya e Kemer. Pra minha surpresa, por lá meu biquíni brasileiro não fez tanto alvoroço quanto imaginava. Pelo contrário, coabitou tranquilamente com burkinis e outros trajes mais cheios de pano. É que não existem restrições sobre o tamanho dos nossos biquínis, nem sobre o uso de burkinis no país. Isso acontece também em outras regiões de maioria muçulmana, como no Cazaquistão, onde as mulheres absorvem tendências ocidentais sem problema. Nas regiões litorâneas, isso é mais livre ainda, se podemos dizer assim. Talvez pelo excesso de turistas, ou por uma certa democracia que a gente custa a entender, as praias turcas não deixam ninguém de fora ou envergonhado.

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Para milhares de mulheres muçulmanas, o burkini é extremamente libertador. Significa desfrutar de espaços sociais até então reservados a outros, no masculino mesmo. Se pra gente um burkini parece pouco prático ou esteticamente claustrofóbico, pra muitas mulheres ele tem o mesmo efeito de um topless, como uma reação a repressão sobre o corpo feminino. Mas o estigma que existe sobre ele ainda é pesado, político, e não se sabe ate que ponto há uma escolha.

Créditos

Foto principal: Beaute Cache

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