por Isabella Lanave

De dentro do maior colégio estadual do Paraná, alunas secundaristas falam sobre as divisões das tarefas e os aprendizados durante os 28 dias no colégio ocupado

Quando a estudante Ana Júlia Ribeiro diz em seu discurso na Assembleia Legislativa do Estado do Paraná que "em uma semana de ocupação o movimento estudantil trouxe um conhecimento muito maior sobre política e cidadania do que todo o tempo que estivemos enfileirados em aulas padrões", ela não está sozinha.

Enquanto muita gente acha ruim ver estudantes se mobilizando, eles mesmos veem suas vidas transformadas depois de se apegarem a ideais e puxarem pra si a responsabilidade pela qualidade da própria educação.

Cidadania, capacidade de organização, machismo, reforma escolar, discriminação. Há muitos questionamentos e novas certezas. Tpm conversou com sete estudantes, todas meninas, da maior e mais tradicional escola pública paranaense, o Colégio Estadual do Paraná (CEP) sobre o que estão aprendendo nestes dias sem aula formal. Ainda não é possível saber qual será o efeito das ocupações nas propostas políticas, mas já é possível mensurar o efeito desse movimento na vida dos jovens que, sob o bordão "ocupar e resistir", têm dado sentido às suas vidas. Muitos, tendo pela primeira vez claro como e pra onde querem ir.

No CEP, cartazes com as regras da ocupação estão espalhados pelas paredes e a primeira delas é falar. Discutir, aparar as arestas e debater a própria ocupação. Depois, vemos detalhes da organização, que acontece através de comissões. Dizer que não há bagunça ou baderna é um elogio contido, quase que diminuindo o que se passa ali. O que se vê é um exercício real de cidadania que nos traz à mente as estrofes de The Wall, do Pink Floyd. Afinal, quem quer ser apenas mais um tijolo na parede?

O Paraná é o Estado com maior mobilização na luta secundarista, tem até o momento 423 escolas e 14 universidades ocupadas segundo a Ocupa Paraná, ontem, eram 830 colégios. Os estudantes se posicionam contra a MP 746, medida provisória que pretende fazer uma reforma no ensino médio, e também contra a proposta de emenda constitucional (PEC 241) de congelar os gastos do Governo Federal pelos próximos 20 anos. Eles já foram chamados de "invasores" num pedido de reintegração de posse da Justiça Estadual e recusaram a proposta do Estado de desocupar 24 escolas. Assim como aconteceu em São Paulo em 2015, as meninas estão à frente do movimento e aceitaram receber a reportagem sob o acordo de não serem identificadas.

J. G., 16 anos, 2º ano
J.G., de 16 anos e estudante do 2º ano, conta que, assim que ocuparam o colégio, as divisões de tarefas já foram muito justas. "Não tinha isso de só piá vai trancar o colégio porque pode ser perigoso. Foi todo mundo junto. Fizemos nossa assembleia e fomos divididos por comissões: segurança, limpeza, comunicação. Todas equilibradas com relação à quantidade de meninos e meninas. Criamos uma relação bem legal porque pudemos ser nós mesmos. Em sala de aula não é sempre que conseguimos nos expressar dessa maneira." Tem sido marcante para elas essa questão da divisão de tarefas por gênero: "Estamos tentando desconstruir essa coisa de gênero, desde as roupas até os banheiros divididos por sexo. Ouvimos das pessoas que somos vândalos e estamos fazendo orgia dentro das escolas. Que todo mundo só quer ficar dormindo junto pra ficar se pegando. Gente! Não tem nada disso. Cada um aqui dentro tem sua consciência e sabe que aqui não é o lugar para essas coisas. Todo mundo respeita." Quando pergunto sobre o que J.G. pretende fazer após terminar o ensino médio, ela imediatamente responde: "Vou fazer faculdade de Ocupar e Resistir!"

J. I., 17 anos, 3º ano
A ocupação também serviu para os alunos pensarem mais no colégio que estudam. "As pessoas de fora que vêm para reuniões e assembleias olham para a estrutura do nosso colégio e reparam como ele é maravilhoso e enorme! Começamos a perceber o quanto a gente não reconhece o lugar onde estamos todos os dias. Muitas vezes, um papel de bala no chão é ok. Mas um papel de bala seu, mais um papel do outro, acaba sujando. Isso ficou tão claro. A gente não estava valorizando esse espaço". Sobre igualdade de gênero, J.I. faz a seguinte reflexão: "Às vezes pode dar a impressão de que as meninas estão começando a se achar superiores, mas não é isso. Acontece que agora temos coragem de lutar pela igualdade. Se a gente é igual, tem que tratar igual. Vamos lutar pelos mesmos direitos. Eu participo da comissão de segurança, por exemplo, e todo mundo tá aceitando e respeitando. Afinal, não tem nada demais nisso."

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J. V., 17 anos, 3º ano
"As discussões sobre feminismo diminuíram um pouco esse ano aqui no colégio. Ano passado, tinha coletivo feminista e organização paralela as aulas. Agora, só temos algumas discussões nas aulas de sociologia, mas tudo depende dos professores”. Ela conta que a nas ocupações essa questão tem espaço central. "A galera tem reparado em como as mulheres estão tomando a frente dos movimentos, muitas meninas estão dando a cara a tapa e tendo coragem pra falar ‘Vamos fazer? Vamo!’ não ficam mais paradas. Qual a palavra que define a ocupação? Amor. Depois que você ocupa, começa a conviver com a galera e querer salvar o mundo!"

K.S., 16 anos, 2º ano
"Me surpreendi muito com algumas pessoas que vieram para a ocupação, gente que eu pensava não ser politizada, gente que parecia não estar nem ai para nada. Quando decidimos implementar o banheiro unissex, por exemplo, ninguém foi contra. Foi muito surpreendente. Eu não sei como vai ser minha vida quando acabar a ocupação. Esse dias fui para minha casa com a J.G. e ficamos olhando uma pra cara da outra quase chorando nos sentindo totalmente inúteis. A gente agora sentiu o peso que é limpar e cozinhar. Cozinhamos pra 40 pessoas, imagina as tias que cozinham pra 5 mil?". E nesses dias, não teve aula, mas teve aprendizado? "Todo santo dia tinha aula, com professores do colégio e estudantes da UFPR que se ofereceram para ensinar. Não era só aula de humanas como muitos falam. A gente teve aula de química, física, matemática, biologia, preparatório pro Enem. E que saber, as pessoas que não concordavam com a ocupa e reclamavam da falta de aula formal, não apareceram nessas aulas."

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P. B., 15 anos, 2º ano
"Essa relação que criamos com os espaços do colégio foi de muito afeto. Porque em muitos a gente não podia nem entrar e agora, com a ocupa, tomamos conta e isso vai refletir nas nossas ações para a boa conservação da escola. Não sei vocês, mas eu estou tendo muito mais atitude para falar o que penso, expressar minhas opiniões, meu caráter e o que sinto e mostrar o meu ponto de vista." E a família, concorda? "Lá na minha casa só tem mulher. Minha vó, minha tia e minha mãe. Minha vó é muito conservadora, mas minha mãe e minha tia concordam com as ocupações."

K. A., 15 anos, 1º ano
K.A., uma menina trans, quis participar da conversa "você também é igual a gente, participa" disseram as estudantes quando a convidei para a entrevista. "Não tive nenhum tipo de preconceito aqui na ocupa, o grupo aqui é mente aberta. Mas de fora, bastante. As pessoas não são acostumadas com o tipo que eu sou. Elas são acostumadas a ver um gay... e eu chego de vestido e salto." A palavra pra definir a ocupação "além de luta e resistência é aprendizado. Porque eu aprendi muito mais aqui do que na sala de aula. Pudemos, por exemplo, sentir na pele o quanto as tias sofrem para limpar todo o colégio." E quando voltarem as aulas? "Vai ser triste pensar que não vou poder mais vir de vestido para a escola."

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D.C., 17 anos, 3º ano
"Fiquei conhecida como a mãezona da ocupa, porque eu sempre faço a comida pra todo mundo. A minha família é muito conservadora, vim pra cá contra a vontade deles. No começo pensaram que era só um dia, fiquei duas semanas direto e quando voltei pra casa, não aguentei ficar. Acordei, tomei banho e voltei pra cá. Bato de frente todo dia com minha mãe quando ela me liga." Os banheiros, que se tornaram unissex, vão ter que voltar ao feminino e masculino quando as aulas voltaram, mas as estudantes querem ser resistentes. "Nem que a gente tenha que imprimir a plaquinha e colar, e quando eles tirarem a gente cola de novo, todos os dias, até entenderam que não precisamos dessa diferença."

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