por Milly Lacombe
Tpm #128

Ou sobre o dia em Milly Lacombe ficou voluntariamente pelada na frente de 20 estranhos

Temos uma pauta ótima para você”, disse a voz no telefone numa manhã de terça-feira. Olhando para o boleto do IPVA que tinha acabado de chegar pelo correio disse “topo!” antes de saber do que se tratava. E foi nesse ponto que comecei a sacar que as coisas estavam ficando estranhas. “Vamos almoçar e te explico”, disse a voz. Almoçar? A pauta estava adquirindo 50 tons de kill me softly.

Num bistrô em Pinheiros, soube que estava sendo convidada a ser modelo-vivo por um dia. Teria, portanto, que passar uma hora peladinha dentro de uma sala esperando que alunos de um curso de desenho retratassem minhas curvas. Pior do que ser pobre e ter que dizer sim para qualquer trabalho é passar por covarde. Então fui dizendo “claro, claro. Topo, topo. Tô dentro, tô dentro. Que ótimo, que ótimo”. Andando de volta para casa depois de receber a sentença, pensava o que penso quando financio uma compra em 12 vezes: “por que não? Sempre posso morrer antes”.

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Durante 15 dias tentei me acalmar como pude: pensei nas moças do Femen, muito à vontade sem roupa, pensei nas atrizes que já tinham aparecido peladas em filmes, liguei para uma ex que é bastante pró-nudez, que, depois de passar os cinco primeiro minutos rindo, conseguiu me acalmar, e matutei a respeito de Eva, a do Adão. E então me dei conta de que a culpa era dela, que comeu a droga da maçã e ainda fez amizade com uma serpente dedo-duro. Por causa dessa estupidez, bum!, cubram-se as partes. Não fosse o despudor da moça seríamos todos como Cora e Mila, minhas cadelas, que vivem peladas e nem tchum. Ou seja: não haveria a necessidade de uma pauta cruel e sem noção e capaz de provocar hiperventilação e arritmia cardíaca como essa. Fossemos todos os bichos de que fato somos, sem nos achar melhores, mais belos, mais capazes, mais poderosos e mais sagazes do que qualquer outro do reino, eu não teria que passar pelo que estava passando.

Como não morri, o dia chegou. Logo pela manhã, ao lembrar que dali a algumas horas teria que ficar pelada na frente de 20 pobres-coitados, decidi que, em mais uma tentativa de me convencer de que ficar nua é uma coisa muito natural, passaria o dia sem roupa. E, peladinha, arrumei a cama, fiz o café, coloquei a mesa, lavei a louça e, em meu home-office, trabalhei. Às sete da noite, fui para o banho, chequei por pêlos que insistem em nascer em lugares onde pêlos não deveriam jamais nascer, fiz a toilete, cobri minha nudez, peguei bloquinho e caneta, virei três copinhos de pinga e saí para o matadouro.

"Decidi que, em mais uma tentativa de me convencer de que ficar nua é uma coisa muito natural, passaria o dia sem roupa. E, peladinha, arrumei a cama, fiz o café, coloquei a mesa, lavei a louça e, em meu home-office, trabalhei."

Dalton, o professor proprietário do Curso do Dalton, na Vila Madalena, me recebeu. Peguntou se eu estava nervosa, e eu disse que estava mais nervosa antes de virar os copinhos de pinga. Ele riu, perguntou se poderíamos começar. Adepta do “vamos acabar logo com isso”, disse que sim. Ele me mostrou o banheiro, pediu que eu fosse até lá e que voltasse, nua, à sala, onde as pobres almas que teriam que testemunhar minha nudez já estavam com a caneta em riste. No banheiro, me despi e vesti o robe que havia levado. Andando lentamente, cheguei à sala, onde executei uma expertise de meus tempos de garçonete: olhar e não ver. Olhando sem ver, não cruzei os olhos com nenhum dos alunos, homens e mulheres de idades variadas, pessoas que estavam prestes a ficar traumatizados por muitos meses. Dalton me deu a mão e pediu que eu subisse num tablado central, ao redor do qual estavam os alunos. Subi, fiquei ali de pé ouvindo ele explicar a primeira pose (seriam seis no total), durante a qual, num período que vai de cinco a 10 minutos, o modelo não deve se mexer. Terminada a explicação, ele disse da forma mais doce possível: “Agora só falta você tirar o robe”. E então, não sei movida por qual força, puxei a corda com a mão direita e me deixei morrer. O robe passou por meu corpo em câmera lenta antes de se estatelar no tablado. Era isso: ali estava eu, nuazinha, na frente de um monte de gente.

"Ele disse da forma mais doce possível: 'Agora só falta você tirar o robe'. E então, não sei movida por qual força, puxei a corda com a mão direita e me deixei morrer."

Segredo primitivo

O segredo, e isso bateu enquanto o robe me abandonava, é resgatar a memória primitiva e voltar a ser o bicho que nunca deixamos de ser. O segredo é se despir de ego e vaidade, entender que somos de fato muito iguais e estamos unidos pelos mesmos desejos e dores. Ficar pelada na frente de estranhos é um grande exercício de humildade e, por que não?, de espiritualidade. É o que somos, é o que temos: uma carcaça que será, cedo ou tarde, abandonada e ao pó voltará. Rugas, marcas e curvas contam nossa história. Roupas nos separam em ricos e pobres e, nesse mundo cão, isso é lido como “fortes e fracos”, bons e nem-tão-bons”, “felizes e infelizes”. Nada pode estar mais distante da verdade. Roupas mentem; a nudez revela e, assim, liberta.

Foi uma experiência maravilhosa, como Dalton havia alertado que seria. E, embora eu pretenda continuar me despindo apenas para minha mulher, nunca vou esquecer do dia em que fiquei pelada na frente de 20 estranhos.

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