por Maria Ribeiro
Tpm #159

Preciso te dizer o quanto você mudou a minha vida. A minha e a de um monte de gente. Eu tinha 16 anos quando vi Confissões de adolescente

Mari,

No dia em que escrevo esta carta, você dorme. Na verdade você tá dormindo há duas semanas. Catorze dias hoje. Não é um dormindo bom, porque você tá no hospital. Mas você tá no hospital pra ficar boa. Porque ficar boa é a única opção correta. No final do sono, vai ter um x na letra bê. Bê de boa, e também de Clara, Laura, Gabriel e Isabel.

Não sei se você sabe o que aconteceu. Acho que não. Mas ontem eu falei com a Pri e ela disse que você abriu o olho e chorou. Eu fiquei tão feliz que chorei também. E expliquei pro Bento, meu pequeno de 5 anos, que às vezes a gente chora de felicidade. Ele achou estranho e disse que queria almoçar, acho que pra mudar de assunto. É mais ou menos quando a tristeza e a alegria meio que dão as mãos, eu continuei, vendo se melhorava. Tipo quando a gente atravessa a rua? Não, filho, na rua tem o medo também. Tipo no Divertidamente? Quando elas ficam amigas? É, filho, tipo isso.

Divertidamente é um filme de criança, só que não. Você viu? Eu me emocionei tanto quanto na última fita dos Dardenne. Aquela com a Marion Cotillard, em que ela tá deprimida e perdendo o emprego, sabe? Eu sei que ninguém com menos de 30 anos fala fita, ou sabe o que é. Até porque não existe mais negativo. Se bem que eu uso muito Polaroid. E tô aqui te escrevendo uma carta, ainda que seja no iPad. A Polaroid é a fita dos Dardenne. E bê de boa é a única opção, Mari. Tá ouvindo? Você repete palavra quando escreve?

Eu resolvi resgatar o termo fita só pra não repetir a palavra filme. Pra ficar mais elegante, entendeu? Porque uma vez eu li que o João Ubaldo disse pra Fernanda Torres que não se deve repetir palavra. Mas eu acho que o que não se deve mesmo é ficar doente com 42 anos. E por isso você vai ficar boa. Porque sim.

Quando você acordar, Mari, eu vou te dizer o quanto você mudou a minha vida. A minha e a de um monte de gente. Eu tinha 16 anos quando eu vi Confissões de adolescente. Foi num domingo, acho que 8 de março. Eu lembro que era seu aniversário. Quer dizer, eu acho, não tenho certeza. Eu já fazia teatro, mas meus professores, na época, tinham uma pegada mais cerebral. Muita marca, quarta parede, Nelson Rodrigues, Shakespeare, Kafka.

Você não. Você pegou o seu diário e foi dizer pra quem quisesse ouvir tudo o que você sentia. E o seu mundo interno era gigante. Você cantava de vestido florido, dizia que era santa e puta, falava palavrão e tirava onda de namorada platônica do Vinicius de Moraes. Você falava de primeira trepada, primeiro baseado, e da relação apaixonada e freudiana com o seu pai. Você olhava no olho da gente, e se expunha com uma generosidade e uma delicadeza que buscava desde sempre. Que eu intuía existir, mas ainda não tinha visto. Você era uma outra eu, só que muito mais corajosa.

E agora você está dormindo. Entre aquele dia no teatro e o sono de agora, nossas histórias se juntaram de um jeito muito forte, mas a real é que a gente nunca ficou amiga pra valer. Eu te substituí na sua peça, roubei um pouco seu pai, mas ainda não te disse que eu só sou o que sou hoje – alguém que não tem vergonha de sentir – por sua causa.

Acorda, Mari.

 

Maria Ribeiro é atriz e diretora dos documentários Domingos, sobre o diretor de teatro e de cinema Domingos Oliveira e Esse é só o começo do fim da nossa vida,  sobre a última turnê dos Los  Hermanos. Também é uma das apresentadoras do Saia justa, no canal GNT. Seu e-mail: ribeirom@globo.com

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