por Natacha Cortêz
Tpm #140

Por que minissaia e barriga de fora depois dos 50 anos incomodam tanto?

Se incomodada fica você ao ver sua avó usando determinada peça, é hora de rever seus conceitos: será que ainda existe limite etário para que uma mulher possa usar minissaia, decote, transparência e batom vermelho sem ser criticada?

Faz um ano que um biquíni duas peças – sendo a de cima um tomara que caia – fez da atriz Betty Faria um dos assuntos mais comentados em sites de celebridades do país.“Aos 71 anos, Betty Faria usa biquíni em praia carioca”, dizia a notícia “bombástica”que gerou comentários indignados de anônimos Brasil afora.“Velha baranga”, “sem autocrítica” e “escolha lamentável” foram os mais leves. “Houve um tempo em que senhoras tinham mais dignidade e, para ir à praia, usavam maiô”, dizia outro. Na ocasião, por meio da imprensa e de sua conta no Twitter, a atriz defendeu o direito de se vestir como bem entendesse, fosse onde fosse. Em uma de suas declarações, questionou: “Queriam que eu usasse burca pra ir à praia?”. Até hoje Betty dá entrevistas sobre as fotos, tiradas nas areias do Leblon, no Rio de Janeiro. Mas ela não é a única a causar alvoroço por exibir o corpo em público tendo uma idade considerada “inadequada”. Neste verão, mesmo com o corpo de 1,70 metro e 56 quilos definido em anos de treino, a empresária Cristiana Arcangeli, 52 anos estimados (ela não confirma a idade), não passou despercebida ao publicar em uma rede social fotos usando minissaia... em pleno litoral da Bahia.

“Há uma pressão social para que os mais velhos ‘se mantenham em seus lugares’, ‘se enxerguem’, ‘tenham autocrítica’”, observa Teresa Creusa de Góes Monteiro Negreiros, doutora em psicologia clínica e organizadora do livro A nova velhice – Uma visão multidisciplinar (ed. Revinter). Se for mulher, então, ela enfatiza, “a patrulha é mais opressora”. No Brasil, o corpo feminino cuidado, sem marcas indesejáveis (rugas, celulites, manchas) e excessos (gordura, flacidez), “é o único que, mesmo sem roupa, está decentemente vestido”, observa a antropóloga Mirian Goldenberg. Especializada em falar de envelhecimento – são três livros e uma série de artigos sobre o tema –, Mirian comprou a briga de desmistificar e rejeitar os estereótipos do envelhecer, discutindo novas possibilidades e significados para essa fase da vida. Aos 57, ela é personagem de suas próprias pesquisas: faz o que quer, veste o que tem vontade e hoje considera que é ainda mais ela mesma. “Apesar de a sociedade brasileira ditar o contrário, não deve existir idade para ser mulher”, argumenta.“Saia micro pra quem passou dos 45, mesmo tendo pernão... nada a ver, né? Fica bizarro”, escreveu uma seguidora. A pergunta que não cala: por que, em 2014, ainda pode ser tão chocante ver mulheres vestindo as roupas que escolheram vestir? Existe mesmo um limite de idade para uma mulher usar biquíni, minissaia, decote, transparência e batom vermelho? Quem decide o que é “apropriado”?

“Apesar de a sociedade brasileira ditar o contrário, não deve existir idade para ser mulher”, Mirian Goldenberg, antropóloga

A atriz Susana Vieira, 71, é outra que vira meme nas redes sociais a cada semana – seja por causa do namorado mais novo, do ensaio da escola de samba onde rebolou até o chão ou da saia que mostrou “além do que devia”. Susana sendo Susana incomoda. Mirian Goldenberg diz que incomoda porque Susana não se aposentou de si mesma e recusa as regras que a obrigam a se comportar como “velha”. “Ela exibe o corpo, expressa desejo, vive sua feminilidade, sem procurar a aprovação do outro”, analisa a antropóloga.

Sexualidade também é tabu quando envelhecemos. “Expressá-la é considerado inadequado, especialmente para uma mulher”, observa Mirian. “Somos condenadas a nos anularmos enquanto mulheres à medida que nosso corpo envelhece.” Por isso, assistir à Susana expressar seus desejos, aos 71, escandaliza.

Patrulha
A funcionária pública Betinha da Rocha, 51 anos, que o diga: mesmo sem ser famosa, ela conta que muita gente que não tem nada a ver com sua vida opina a respeito. Goiana, namora Eder, 24 anos mais novo. Suas unhas são pontiagudas e cor de tomate, o short é curto e a blusa, de alcinha, que deixa à mostra uma de suas 12 tatuagens. “Me olham de cima a baixo, comentam até mesmo na minha frente. Quando não é pelo meu namorado, é pela roupa que estou usando”, conta.

Para Vivian Whiteman, jornalista e con­sultora em moda e imagem, mulheres como Betty, Cristiana, Susana e Betinha são aposentadas da moda e da mídia conforme envelhecem.“Mesmo as publicações feitas para mulheres de 40 a 60 anos trazem as de 20 e poucos se passando por 40”, comenta. A moda e a mídia não representam essas mulheres e ainda constroem formas de exclusão. Vivian diz que os grupos considerados “fora da curva”, os que não estão dentro dos padrões estéticos aceitos, sempre precisam de um momento específico para serem mostrados e, ainda, de “um discurso acessório para fazer sentido”. Recentemente, a marca norte-americana American Apparel, que declara não usar retoques em suas imagens, usou a modelo Jacky O’Shaughnessy, 62 anos, como garota-propaganda. Virou motivo de discussão. “Como a Jacky não representa sujeitos frequentes na mídia, quando aparece causa um efeito. E é essa mesmo a intenção da marca”, explica a jornalista.

A forma como algo é mostrado (ou omitido) na mídia é um bom indicador para compreender como a sociedade reconhece seus diferentes membros e grupos. Maria Luiza Martins de Mendonça, doutora em comunicação pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Goiás, diz que as políticas de invisibilidade adotadas pela mídia em relação ao envelhecimento repelem comportamentos jovens para os que estão envelhecendo. “Ao mesmo tempo, elas naturalizam discriminações e exclusões, simbólicas ou não.  

"O barulho nunca é só por causa da roupa. A roupa é sempre um indício de uma coisa maior que ela” Vivian Whiteman, jornalista 

Cris Zanetti, sócia de uma escola de consultoria de estilo focada em autoestima, ainda acredita que a moda credita ao envelhecimento um desempoderamento. “Se você seguir o que dizem as regras, a mulher que envelhece não pode usar batom vermelho, cabelo comprido, decote e cores felizes. Ou até pode, mas então é vista como exótica, artista.” Para ela, o que deveria ser ferramenta de liberdade, reprime. “Os manuais de estilo que dizem ‘aprenda a se vestir na terceira idade’ recomendam discrição e proíbem ‘vulgaridades’.”

Aos 58 anos, a empresária paulistana Neusa Soares não sente que deve adaptar suas roupas e comportamentos conforme a idade. “Não acho que devo usar roupa sóbria, de senhora. Nem fazer ‘programas de senhora’”, conta. Cris Zanetti afirma que seguir expectativas internas, como faz Neusa, é o primeiro passo para assumir o guarda-roupa ideal para cada um. Mirian Goldenberg concorda: a postura da empresária, de negar estereótipos, é um bom caminho para desconstruir as noções de “bizarro” e “inapropriado” que o envelhecer carrega. “Quanto mais mulheres se libertam, mais mulheres se identificam.”

Porém, Vivian Whiteman atenta: a roupa diz coisas, mas não as determina. “O barulho nunca é só por causa da roupa, ou só pelo biquíni. A roupa é sempre um indício de uma coisa maior que ela.” Cabe às próprias mulheres não aceitar padrões, não apontar dedos, não julgar – é o que sugere Cris Zanetti: “A tolerância que temos conosco é a mesma que temos com o resto do mundo. Quando cobramos perfeição de nós mesmos, sentimos permissão de cobrar o outro. Quando aceito algo em mim, aceito no outro”.

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