por Lia Hama

Novo filme de Petra Costa (diretora de Elena, de 2012) aborda as dúvidas e angústias de uma mulher à espera do nascimento do filho

Aos 32 anos, a cineasta Petra Costa (do premiado Elena, de 2012) vive o dilema entre engravidar ou não engravidar. "Essa é uma questão sobre a qual penso todos os dias. Diariamente penso que sim e diariamente penso que não, é uma decisão que ainda não tomei", afirmou à Tpm a diretora mineira radicada em São Paulo.

As dúvidas e angústias de uma mulher durante os nove meses de gravidez é tema do novo filme de Petra, Olmo e a gaivota, que estreia no dia 5 de novembro nos cinemas. O longa acompanha as transformações no corpo e na mente da atriz italiana Olivia Corsini durante a gestação de seu filho com o ator francês Serge Nicolai, ambos da companhia Théâtre du Soleil. Diferentemente da imagem de felicidade e plenitude normalmente associadas a esse momento, vemos uma intempestiva Olivia que estranha um ser crescendo dentro de si, vive momentos de tédio profundo dentro de casa e se sente frustrada por não poder participar da turnê da peça A gaivota, de Tchekhov, que ensaiava antes de se descobrir grávida.

Filmado em Paris, o longa trafega na fronteira entre ficção e realidade, com um casal real – Olivia e Serge – interpretando seus dramas cotidianos. "Espero que em breve no Brasil toda mulher tenha soberania total sobre o próprio corpo, seja para rejeitar uma gravidez, fazendo um aborto legal como acontece na França, nos EUA ou em Cuba, seja para mergulhar nela, como vemos no filme, e ter todos os direitos para fazer isso da melhor forma possível", declarou a diretora ao receber o prêmio de Melhor Documentário no Festival do Rio em outubro.

Tpm encontrou Petra em São Paulo, onde ela apresentou seu filme na Mostra Internacional de Cinema. A seguir, trechos da conversa em que a cineasta fala sobre gravidez, aborto, o trabalho na produtora de Lars von Trier, na Dinamarca, e as filmagens de seu próximo trabalho, The ladies brigade, sobre a Primavera Árabe no Egito.

Como surgiu a ideia de Olmo e a gaivota? Do convite de um festival de documentários na Dinamarca, o CPH:Dox, que todos os anos chama 10 diretores europeus para codirigirem filmes com 10 diretores não-europeus. Eu e a Lea Glob (co-diretora dinamarquesa) tínhamos uma semana para pensar num longa. Sugeri falar sobre um dia na vida de uma mulher, em que nada de extraordinário acontece, porém ela é invadida pelo extraordinário em pensamentos, memórias e desejos. Lea gostou e a gente convidou a Olivia Corsini, atriz do Théâtre du Soleil que eu tinha acabado de conhecer. Olivia topou e falou: “Só que estou grávida”. Então o que era um dia na vida de uma mulher se transformou em nove meses.

"Um dos poucos filmes que falam das pressões sociais que a mulher vive na gravidez é O bebê de Rosemary, que é um filme de terror"

Falar sobre gravidez é um tabu? O corpo é um lugar de política. Existe um discurso milenar, que se concretiza com a criação do mito da Nossa Senhora, uma mulher que engravida virgem. Então é uma gravidez sem sexo, sem desejo e sem medo. A partir disso, a gravidez virou sinônimo de santificação da mulher, mas uma santificação falsa porque não vem com o apoio devido. Trata-se de um dos territórios onde mais se vê a opressão da mulher e não existe quase nada no cinema ou na literatura sobre o assunto. Um dos poucos filmes que falam sobre as pressões sociais que a mulher vive na gravidez é O bebê de Rosemary, que é um filme de terror. Os homens abandonam seus filhos constantemente, já a mulher que abandona o filho é apedrejada pela sociedade. Como não existem filmes que falam sobre essas questões? Então esta virou uma causa urgente pra mim.

Falta que tipo de apoio à mulher? Pra começar, é preciso que a questão do planejamento familiar esteja muito mais presente, como acontece nos Estados Unidos. A mulher tem que ter informação e acesso fácil aos meios necessários para prevenir a gravidez – pílulas anticoncepcionais e camisinhas. Uma vez que a mulher decide ter o filho, ela deve receber todo o apoio necessário. O ideal é ter uma lei como a da Noruega, onde a mulher tem um ano de licença-maternidade e, no ano seguinte, o homem ganha um ano de licença-paternidade. É fundamental colocar a responsabilidade desse filho nos ombros dos homens também. Agora, se a gravidez não for desejada, a escolha de seguir em frente ou não é da mulher.

Você é a favor da descriminalização do aborto? Totalmente. Nunca tive que abortar, mas acho que o aborto deveria ser descriminalizado no Brasil como é nos Estados Unidos, na França e em Cuba. Deveríamos fazer como o Uruguai, que descriminalizou e o número de abortos diminuiu. A medida veio junto com um projeto de conscientização, de planejamento familiar, que fez diminuir a quantidade de abortos no país. Claro que eu desejo nunca ter que fazer um aborto, sei por pessoas que já fizeram que é horrível, mas é a mulher quem deve decidir.

Você tem vontade de ter filhos? Penso que sim, porque é incrível dar vida a um ser humano e poder educar e compartilhar uma visão de mundo com essa pessoa que é fruto de um relacionamento de amor. Penso tanto em engravidar como em adotar uma criança. Por outro lado, a vida de artista é muito instável, em trânsito, então são coisas que complicam. Ainda não tomei uma decisão.

"Deveríamos fazer como o Uruguai, que descriminalizou e o número de abortos diminuiu"

Olmo e a gaivota tem uma equipe bem internacional: o produtor-executivo, Tim Robbins, é americano, a atriz é italiana, o ator é francês, a outra diretora é dinamarquesa. Como foram as filmagens? Em que língua vocês falavam? Em geral, em inglês e em francês. Mas, com a minha assistente, eu falava em português. Às vezes falava em italiano com a Olivia. A minha co-diretora falava em dinamarquês. O diretor de fotografia, em árabe. Era uma verdadeira torre de Babel!

Como Tim Robbins entrou nessa história? Ele viu Elena no Festival de Berlim e me escreveu, dizendo que tinha gostado muito. Aí perguntou como poderia ajudar e propôs que entrasse como produtor-executivo no lançamento nos EUA. Ele tem uma relação de anos com o Théâtre du Soleil. George Bigot, ator da companhia francesa, foi a Los Angeles e deu aula num teatro fundado por Tim, The actor's gang. E o Tim já conhecia o Serge e a Olivia. Então, desde o começo, já estava envolvido como produtor-executivo. Além dele, tem a Zentropa, que entrou como a produtora dinamarquesa, e a Som e Fúria, produtora portuguesa que faz os filmes do Manoel de Oliveira.

Como foi a experiência de montar o filme na produtora do diretor Lars von Trier, em Copenhague? A Zentropa tem uma cidade cinematográfica numa antiga base militar, onde o Lars von Trier faz todos os filmes dele e o Thomas Vinterberg também. É um lugar surreal. Foi fundado com um espírito coletivista, meio marxista e nudista, que é como o Lars von Trier se auto-define. Tem uma piscina, onde só se pode nadar nu, e um refeitório imenso, onde todo mundo come de graça. Você entra e vê todos os prêmios que eles já receberam. A gente montou Olmo na mesma época em que eles estavam montando o Ninfomaníaca. Foi uma experiência bem forte.

"A produtora do Lars von Trier tem uma piscina, onde só se pode nadar nu, e um refeitório imenso, onde todo mundo come de graça"

Em que projetos você está trabalhando agora? Estou fazendo um filme chamado The ladies brigade, que se passa no Cairo, com Muhammed Hamdy, diretor de fotografia de Olmo e a gaivota. É sobre a crise existencial das pessoas envolvidas na revolução do Egito que derrubou o ditador Hosni Mubarak e agora vivem um retrocesso com o governo do presidente Abdul Al-Sisi. É um filme bem rico e complexo sobre a situação do país. Porque eles dedicaram três anos a essa revolução. Abandonaram carreiras e foram às ruas com a esperança de que viria uma democracia real. Primeiro é eleita a Irmandade Muçulmana, que tenta tirar várias conquistas de um estado laico. Então fazem de tudo para derrubar a Irmandade Muçulmana, mas aí os militares tomam o poder e chegam com uma repressão ainda mais ferrenha. Muitos amigos do diretor do filme foram pra prisão só por participarem de manifestações. Essa é a situação atual: se você se manifestar contra o governo, vai preso.

Os ativistas se arrependeram de participar da Primavera Árabe? Há um certo arrependimento, mas, ao mesmo tempo, uma esperança porque houve uma conscientização política depois de tantas décadas do regime de Mubarak, quando não se discutia política. Hoje todo mundo discute política. É um conflito entre uma geração que vive num tempo e outra que vive em outro. A Busca Vida, nossa produtora no Brasil, está produzindo, o Muhammed está dirigindo e eu estou co-escrevendo o roteiro.

Em que outros projetos você está trabalhando? Estou produzindo um filme sobre anorexia, dirigido pela Moara Passoni, chamado Um vidro sob a minha pele. Também estou escrevendo uma ficção chamada Estranha fruta, que é o Brasil visto do ponto de vista de uma menina de 6 anos de idade, e fazendo um documentário sobre a questão fundiária no Brasil.

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