por Fernando Luna
Tpm #167

A quinta edição da Casa Tpm reuniu há uns dias mais de 3 mil mulheres ditosas, daquelas que dizem sim para o melhor dos tempos

Este é o melhor dos tempos, é o pior dos tempos. A idade da sabedoria, a idade da insensatez; é a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero – e essas contradições vitorianas são especialmente violentas se você é uma mulher brasileira em 2016.

O melhor dos tempos: mulheres nunca tiveram uma presença tão forte nos cursos de graduação e pós-graduação. Escalam organogramas nas empresas com velocidade e frequência cada vez maiores, e seus salários acompanham essa jornada para o alto e avante.

No trabalho, na rua e em casa, o combate ao assédio sexual tem mobilizado não somente grupos feministas, como boa parte da sociedade. A idade da sabedoria. Muitas conquistaram autonomia para fazer o que quiserem com seus corpos, com quem quiserem e quando quiserem. E a maternidade aos poucos deixa de ser um destino biológico para se tornar uma opção, que pode ou não ser exercida – contando, ainda, com uma legislação que protege os direitos trabalhistas da mulher grávida.

Os homens, hosana nas alturas!, se envolvem de maneira inédita nos cuidados e na educação dos filhos. Cada vez mais meninas são criadas com as mesmas oportunidades dos meninos, esbarrando em cada vez menos clubinhos misóginos em que menina não entra. A estação da Luz.

Mas também é o pior dos tempos porque, com tanta coisa avançando a passos largos e ligeiros, os arrastos ficam ainda mais intoleráveis, ainda mais absurdos: mulheres seguem com um contracheque muito mais acanhado que o dos homens. Em média, recebem apenas 66% do salário deles para uma vaga de nível superior. Elas ocupam ridículos 6% das cadeiras de presidente de empresa e mesquinhos 17% dos cargos de direção.

Mesmo com todas as reações indignadas e mobilizações contra a violência de gênero, a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. A cada 5, outra é agredida. É a estação das Trevas: muita gente insiste que a vítima é culpada. Que as mulheres deveriam, acredite, se comportar melhor. A legislação aprovada por um Congresso Nacional masculino e machista, com apenas 9% de mulheres na Câmara dos Deputados e 13% no Senado, obviamente considera a interrupção da gravidez um crime. Assim, uma mulher morre a cada dois dias por complicações decorrentes de aborto clandestino. A curetagem de emergência é o procedimento mais comum no Sistema Único de Saúde.

Se a gravidez for desejada, boa sorte. A licença-paternidade passou de cinco para 20 dias, melhor que nada, mas quem tem filho sabe que os primeiros seis meses são selvagens – e seria ótimo ter o pai por perto nessa fase. Mesmo que apenas 36% deles ajudem a cuidar da casa e do bebê. É menina? Parabéns e boa sorte de novo. A idade da insensatez. Senta de perna fechada, veste uma roupinha rosa, deixa de ser histérica, esquece a bola, concentra na boneca e guarda estas palavrinhas mágicas: bela, recatada e do lar.

A quinta edição da Casa Tpm reuniu há uns dias mais de 3 mil mulheres ditosas, daquelas que dizem sim para o melhor dos tempos – e pelejam para corrigir o que precisa de reparo urgente. Dá uma olhada lá na página 32.

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