por Milly Lacombe

Que esse 8 de março seja o mais feminino dos dias: muita música, muita dança e muita luta

Quando eu era pequena, achava que queria ser homem. Passaram-se alguns anos até que eu entendesse que na verdade não queria ser homem, mas apenas ter a liberdade de beijar a boca de outra mulher e por ela morrer de amor. Quando eu era pequena, a ideia de que uma mulher pudesse beijar outra na boca era estapafúrdia e pecaminosa, e nos meus sonhos isso só aconteceria se eu fosse homem.

Mas o mundo mudou e hoje mulheres beijam mulheres na boca, e eu entendo que nascer mulher é um enorme privilégio. Mesmo nesse arranjo social que ainda nos oprime e reprime, mesmo tendo que encarar ser tratada como objeto sexual, mesmo sem equiparação salarial, mesmo explorada, mesmo censurada. Ou até por causa de tudo isso, já que é uma doce alegria ter a chance de batalhar por justiça e igualdade para as gerações que ainda virão.

Falta muito para que sejamos totalmente livres, mas já habitamos um planeta bastante diferente daquele que as primeiras trabalhadoras de chão de fábrica, as proletárias que há cem anos pensaram em um dia do ano que pudesse consolidar e divulgar a batalha por igualdade, conheceram.

Que esse dia tenha sido gerido em ventre socialista, em ambiente sindicalista, e como forma de protesto e de luta apenas faz com que ele seja mais poético. Claro que ao longo dos anos, desde que o 8 de março nasceu como o dia internacional da mulher, a máquina da propaganda tentou pintá-lo de cor-de-rosa, tentou mercantilizá-lo, tentou tirar a vibração de luta e o aspecto revolucionário e colocar em seu lugar muitas rosas vermelhas e um ar de recato. Como bem disseram os Zapatistas, desculpem o transtorno, mas isso aqui é uma revolução, e é hora de o barulho voltar, e de voltar mais forte.

Por alguns anos a estratégia de um 8 de março recatado foi aceita, mas não demoraria para que percebêssemos que outra vez o sistema estava tentando nos confinar a um lugar de doçura e ternura e de pernas e braços delicadamente cruzados – como o conservadorismo espera que uma mulher faça. Depois de alguns anos de passividade e cautela, o 8 de março volta à origem e veste as cores fortes de uma barulhenta batalha por conscientização política e social, como queriam aquelas que o conceberam.

Com a crise econômica de 2008, que afundou o planeta em uma desigualdade ainda mais abissal, algumas batalhas por direitos civis, como sempre acontece em momentos de crise, se fizeram outra vez urgentes e voltaram às raízes.

Segundo o anarquista Michael Bakunin (1814-1876), liberdade é um conceito indivisível. “Você não pode limitar liberdade a uma parte sem matá-la por inteiro”, escreveu há mais de cem anos. E se Bakunin está certo, não haverá liberdade enquanto houver no mundo uma mulher, ou um ser humano, oprimido.

Como nenhum direito civil jamais foi concedido de bom grado pela classe dominante, e como até hoje eles vieram com luta, não nos será permitido parar de lutar até que todos os seres humanos, a despeito de gênero, cor, sexualidade, crenças e classe social, tenham os mesmos direitos e sejam tratados com igualdade – e ter essa consciência faz do Dia Internacional da Mulher o dia internacional de todos os oprimidos.

Se democracia e liberdade são qualidades essenciais da natureza humana, como gosta de repetir o linguista e ativista Noam Chomsky, “uma sociedade controlada pela riqueza privada vai sempre refletir os valores dessa elite econômica, que diz que a única luta válida é aquela que nos leva a maximizar ganhos pessoais, mesmo que seja à custa de outros. Não se trata apenas de uma sociedade assim ser grotesca, se trata de uma sociedade com esses princípios estar condenada a se autodestruir”.

É exatamente por isso que o dia 8 de março, que nasceu em berço também anarquista, trata de estabelecer conscientização política para a necessidade de eliminar estruturas de hierarquia e dominação, como o patriarcado. “Qualquer forma de autoridade ou dominação precisa demonstrar que é legítima, não importa onde seja: dentro de uma família ou na economia global”, segue Chomsky.

Claro que fazer barulho e provocar um pouco de caos são pré-requisitos para que transformações ocorram: todos sabem que sociedades dentro das quais os oprimidos se aceitam como oprimidos são sempre estáveis, e a intenção aqui é desestabilizar para depois, então, organizar de forma mais justa porque a paixão pela destruição é também uma paixão criativa. Quando os oprimidos se descobrem pelo que são é que começam as grandes revoluções.

Para terminar, três frases contundentes, deixadas de presente para todos nós por mulheres que viveram muito à frente de seu tempo.

A primeira, da anarquista Rosa Luxemburgo (1871-1919): “Por um mundo no qual sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”.

A segunda, de Virginia Woolf (1882-1941): “Como mulher eu não possuo um país; como mulher meu país é o mundo todo”.

E a terceira, de Emma Goldman (1869-1940): “Se não posso dançar, essa não é minha revolução”.

Que esse 8 de março seja o mais feminino dos dias: muita música, muita dança e muita luta. 

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