Revista Trip

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À Deriva em Búzios

Heitor Dhalia (O Cheiro do Ralo e Nina) está em plena produção de seu novo trabalho “Á Deriva”.
06.05.2008 |
POR KÁTIA LESSA

Heitor Dhalia (O Cheiro do Ralo e Nina) está em plena produção de seu novo trabalho Á Deriva. TRIP esteve em Búzios para acompanhar as filmagens, que contam com Vincent Cassel, Camille Belle e Débora Bloch e conversou com o diretor.

Como surgiu o projeto de Á Deriva?
Eu tinha acabado de filmar O Cheiro do Ralo e não sabia direito o que ia fazer. Então tive pensamentos soltos sem conexão. Algo sobre uma menina que descobria que o pai tinha uma amante e que via o pai transar com essa mulher. Queria que fosse uma história na praia.

Você teve algum tipo de experiência parecida na vida?
Não é um filme autobiográfico, mas é fortemente pessoal. Morei na praia por 20 anos e meus pais se separaram quando eu tinha a mesma idade da personagem, 14 anos. Parece uma história leve, mas é muito mais profundo do que parece. Fala de família, que é o grande tema universal e esse é um tópico delicado para todo mundo. As pessoas se emocionam no set. Tem criança envolvida, né...Pega na veia.

Sua família se manifestou?
Minha mãe me ligou e disse: “Li por aí que esse seu filme é autobiográfico. Me inclua fora dessa hein!” (risos) O pior foi que ela veio visitar o set aqui em Búzios bem no dia em que eu estava filmando a cena dos pais contando para os filhos sobre a separação. Ela chegou a chamar a Laura (atriz que faz o papel da filha) pra dizer que ela estava fazendo o papel de Heitor quando pequeno. Depois ela olhou uma cadeira de vime na cena e disse: não tinha uma dessas em casa? E eu mandei: que coincidência né mamãe!

O filme é um drama?
É. Tem uma certa inspiração de François Truffaut , que dizia que para tratar com crianças você não pode ser nem muito otimista, nem muito pessimista. Tem que ser seco, realista. “Bittersweet”.

Qual a principal diferença entre esse e seus outros filmes?
Não é a adaptação de nenhum livro, não tem nenhuma outra referência que não seja a minha cabeça. Os outros são mais cerebrais, e esse é totalmente coração. É mais sutil, fala de coisas escondidas. Quase voyerista. Me orgulho da escolha desse tema.

Nesses dez anos você acha que já domina as técnicas dramatúrgicas?
Esse projeto me fez sentir uma coisa especial, que foi abrir mão da técnica. Deixei de lado os efeitos e acessórios. É um filme cru.

Como vocês chegaram a esse elenco?
Estava com dificuldade de achar um bom ator na faixa dos 40. Então, como é uma co-produção da O2 com a Focus, achamos que alguém de fora poderia ser interessante. Um dia, durante o carnaval, eu tinha trabalhado muito e resolvi parar para ver TV. A emissora mostrou um desses camarotes da avenida e apareceu o Vincent Cassel com a Mônica Belucci. Ele deu a entrevista em Português. Aí me deu um click na hora: É ele.

E a Débora Bloch?
A Débora me veio a cabeça porque ela me lembra muito a mãe da minha primeira namorada. Essa coisa meio ruiva... Ela está incrível no filme. Acho que vai ser seu reencontro definitivo com o cinema.

E porque a Camille Belle para a amante?
Tem várias atrizes brasileiras que poderiam fazer, mas eu fiquei com medo de sair uma coisa sexy, vulgar, óbvia. E eu queria algo mais sugerido, icônico, alguém com qualidade de musa. Uma personagem com poucas falas. Aí a equipe de casting chegou com o nome dela e eu achei que o fato dela ter 21 anos seria mais ameaçador, tanto pra ela quanto pra o papel da mãe.

A Laura Neiva foi achada no orkut, não?
Foi. Ela é a maior preciosidade do filme. Acho lindo pensar que ela está dando seus últimos momentos de infância para o filme. Está amadurecendo diante das câmeras, convivendo com adultos...Acho que ela já é uma atriz de cinema. Já veio com luz.

A escolha de um elenco gringo tem relação com pretensões internacionais para o flme?
O foco é o mercado local, mas ele é uma co-produção americana, e o ideal é que ele se pague. É um filme mais de arte do que comercial. Tem uma pegada italiana...francesa...E fala de um tema universal, então quem sabe...

Você pretende dirigir produções totalmente internacionais?
Tenho. Gosto de viajar, trocar experiências. Sou brasileiro, mas não tenho essa coisas arraigada. Gosto de temas mais universais do que de retratar a realidade do povo etc...etc...

Você ainda não filmou a miséria, a favela...Sente vontade?
Não tenho nada contra. Acho que ainda vou fazer um dia, meu próximo filme é de guerra. Fala de favela também, mas é a favela do Haiti. Não tenho problemas com temas sociais.

Você acha que o Tropa de Elite mereceu o urso de Ouro?
Acho que é um filme bom, que conquistou o juri. Teve uma coragem para abordar o tema. Mas gosto muito do trabalho do Paul Thomas Anderson também.

Você liga para prêmio? Qual sonha em receber?
Se fosse pra escolher queria ganhar o Oscar, claro. Mas acho charmoso uma palma de ouro em Cannes. Olha que chic!

Já tem novos projetos depois de Á Deriva?
Estou no segundo tratamento do filme do Haiti e tem um road movie na argentina, uma história de relacionamento.