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Isso é Paraty

O surfista Edgar Bischof foi desbravar tubos cascudos num pico virgem que lembra Teahupoo
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03.02.2009 | Texto por André Caramuru Aubert Fotos Tony Fleury

Wigolly dropa a cascuda

Wigolly dropa a cascuda

Tubos perfeitos
A partir desse momento, a hiperatividade de Edgar encontrou uma nova razão de existir: ele passou horas consultando mapas náuticos e analisando ilhas, parcéis e lajes. Em seguida, entrava no Google Earth, tentava entender como as diferentes direções de ondulação poderiam interagir com os acidentes geográfi cos que localizava. Depois de algumas semanas vasculhando os mapas, Edgar encontrou pelo menos cinco picos com potencial. A prioridade número um, claro, era aquela ilha que ele havia visto de longe. E foi para lá que ele foi, assim que o primeiro swell razoável bateu nas praias de Ubatuba, dois meses depois. Como não era uma ondulação muito potente, Edgar foi só para conferir e ter certeza de que tudo não passava de delírio. Depois de 50 min de barco, desde a praia de Tarituba (que a TV Globo deixou famosa como cenário de mais de uma novela), ele contornou a ponta da ilha e se aproximou do pico. Não houve decepção: a onda estava quebrando. Naquele dia ela não estava grande, mas desenhava um perfeito e oco tubo para a direita. Depois desse dia, Edgar voltou lá mais três vezes, avaliando as condições em diferentes direções de swell e experimentando a onda. Algumas vezes foi sozinho, outras levou amigos, como o bicampeão brasileiro Renato Galvão, o campeão mundial sub-16 Wigolly Dantas e os profi ssionais Costinha e Saulo Jr., além do francês Patrick Beven, que veio para Ubatuba com Edgar depois do WQS de Noronha (mas que não surfou, com medo de se machucar e perder as etapas australianas da divisão de acesso do mundial, que aconteceriam na seqüência). E a melhor condição naquele pico, Edgar concluiu, era quando a ondulação batia de sudeste, grande, sem vento, com intervalo acima de 12 s.

Beijo nas pedras
Depois daquela expedição, Edgar decidiu esperar pelas condições ideais para fotografar o pico. Quando entrou um swell mais pesado de sudeste, ele pegou Wigolly Dantas e o fotógrafo Tony Fleury e se mandou para o novo pico, batizado por ele como Ponta das Araras (porque fica na ilha de Araraquara. Vai entender...). As fotos desta matéria mostram, até certo ponto, o que eles encontraram. Até certo ponto, sim, porque elas não conseguem traduzir com exatidão o grau de difi culdade daquela onda. Porque ela é bem perigosa. Curta, muito rápida, muito rasa, muito oca. Com o agravante de ter, poucos metros diante dela, uma costeira esperando pelo surfista que não completar o drop. Ela não permite a menor hesitação. Dropar atrasado ou errar o posicionamento no tubo é beijar as pedras repletas de ouriços, ostras e mexilhões do fundo e da costeira. Perguntei ao Edgar se ele achava que eu poderia dropar a Ponta das Araras. Ele não respondeu, apenas sorriu. Edgar é educado. Eles ficaram três horas por lá. Na primeira hora, Edgar e Wigolly só rodearam, olharam, tomaram coragem. Depois, surfaram. Mas não muito. “De cada quatro ondas em que você rema, você vai em uma e puxa o bico em três. Ela assusta. Quando se forma ela seca o fundo, e as pedras e os ouriços mostram a cara, loucos para se relacionar com você. E, se você não entrar na terceira braçada, não entra mais. A quarta é tarde demais. Ela lembra The Box, na Austrália. A australiana também é rasa, mas não tem a costeira na frente.” Wigolly, que também já surfou ondas cascas-grossas pelo mundo todo, emendou: “Essa onda é mais adrenalina que Teahupoo [que significa ‘praia dos crânios quebrados’], no Taiti. Não é pelo tamanho, pois ela é menor, mas pela formação, velocidade, pouca profundidade e pelas pedras da costeira diante de você”. Entre a remada, o drop e a porta de saída do tubo, não são mais do que 10 s de onda: “Mas a sensação é incrível, é de extrema adrenalina, de superação”. E foi assim que o hiperativo Edgar Bischof encontrou onda boa na baía de Paraty. Mas ele não parou, não ficou satisfeito, não consegue. Já começou a procurar ondas desconhecidas em outros cantos, no Brasil, na costa africana e no Índico, varando noites no Google Earth. Inventou de investigar o litoral da Somália, disputado por piratas e milícias islâmicas, um dos lugares mais perigosos do planeta. Se ele for mesmo, e conseguir fi car vivo pelo menos até tirar as fotos, você verá o resultado aqui na Trip.

 

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