Revista Trip

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Procuro

Eu procuro uma mulher que não seja louca por novela
29.10.2007 |
Eu procuro uma mulher que não seja louca por novela e que procure comigo as entranhas da realidade de cada momento. Uma companheira para sentir que o mundo é um bom lugar e que vale a pena lutar. Alguém em quem descansar meus olhos e sorrir suavemente. Parceira que me toque com os movimentos de sua existência. Aquela de quem não posso fugir nem um milímetro para dentro de meus olhos, sem que me perceba.
Procuro uma mulher que não seja boba em me querer, porque sabe quem sou e que não deixarei de ser por nada. A quem debitar todos meus créditos e vice-versa, com prazer. Aquela aliada que por existir me faça amar a vida a ponto de querer viver para sempre. Cuja marca transforme a história de meu tempo. Uma mulher que me queira então por inteligência, porque não sabe o que posso fazer de mim.

Uma companheira que não compreenda tudo: a vida, o motivo de tanto sofrimento, mas com quem possa dar boas risadas zombando disso tudo. Assim, de carne, mesmo que tenha osso no pescoço, e não se importe que meu sorriso não tenha 32 dentes. Alguém cheio de dúvidas como eu e que, mesmo por conta disso e do papel higiênico, jamais exagere sua importância. Faz-se absolutamente necessário que compreenda: após criar alguma coisa, melhoro sensivelmente para a vida. Que, ao sair, deixe uma luz acesa em meus olhos e aquela ternura que entorpece em cada um de meus membros.

A parceira firme como a calha do rio, ciente que as águas jamais serão as mesmas e sempre passarão. Aquela que me escapam as palavras na vã tentativa de conquistar a cada dia. A dona de minha poesia. E cujo sorriso me surpreende sempre a me perguntar em como aquela mulher pode gostar de mim. Alguém de quem eu sinta fome e que me comunique força, muita força para colher temporais que plantei. Uma pessoa que me comunique mobilidade e crescente competência para existir. Gente que me faça sentir encantado com todo esse tumulto que a paixão provoca.

Procuro aquela mulher que mesmo angustiada e mergulhada no desespero de viver, não me procure apenas para fugir. Que não veja em mim apenas o preenchimento do vazio que devora, o insuportável que se obriga a suportar. Alguém que se destaque desse meio sorriso cínico de resignação e deboche que vejo nas pessoas aqui fora. Essa companheira que é fogo e que tem pressa de arder, pois sabe que depois que nascemos, não há mais onde nos esconder.

Quase não acredito que encontre, mas creio que com o calor de minha alma, calarei e consentirei em esperar, mesmo que eternamente.

Composto por Luiz Mendes em 11/08/2007.

* Luiz Alberto Mendes, 54, autor de Memórias de um sobrevivente, ficou 30 anos guardado. Solto, tem muita história para contar. Seu e-mail é lmendes@trip.com.br