Revista Trip

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O sonho da árvore própria

Colunista planeja há anos construir uma casa entre galhos para fugir dos chatos e descansar os olhos no horizonte
29.07.2008 |
POR J.R.DURAN*

Tenho ainda alguns sonhos. Não muitos. Na verdade, só não são muitos porque me permito apenas sonhar sonhos que possa realizar. E assim vou tentando alcançá-los, um atrás do outro, como o gato que persegue o canário e que, ao contrário do desenho animado, consegue dar um sorriso de satisfação quando a presa, o sonho, é alcançada. Não tenho tempo a perder com o que não pode dar certo, diz a letra da música ou algo parecido. Eu também não.

Bem. Um desses sonhos é o de construir uma casa. Mas não uma casa qualquer. Estou falando de uma casa de madeira que fique em uma árvore. Uma casa em uma árvore, fala sério. Acho que não existe coisa mais natural, no sentido de natureza, do que isso: morar em uma casa estacionada entre os galhos de uma árvore.

HOMEM PRIMATA
A idéia não me sai da cabeça desde o dia em que li um livro que descobri na biblioteca do meu pai, em Barcelona. Chamavase Il barone rampante (O barão nas árvores) e foi escrito por Italo Calvino. Conta a história do barão Cosimo, que sobe em uma árvore por causa de uma briga boba com seus familiares e decide que nunca mais vai descer dela. E, mesmo que o estilo de Calvino seja do gênero fantástico e surrealista (ou talvez por isso), a atitude tomada pelo barão Cosimo passou a formar parte, desde aquele dia, do meu imaginário.

Durante anos e anos tenho juntado material e informação. Os tipos de árvore, as que têm as copas altas, as que têm as copas baixas, os tipos de galho e a maneira como eles se esparramam, os troncos que balançam com o vento e os que suportam tempestades sem perder o equilíbrio. Que tipo de madeira serve para que o sistema de sustentação tenha uma firmeza e ao mesmo tempo uma flexibilidade que possam acompanhar os humores da natureza sem gemer nem se desmanchar. Tudo isso sem a necessidade de enterrar um prego de aço ou um parafuso nas veias da natureza.

Uma casa em uma árvore seria, para mim, a soma de todos os verões que não tive. Dos verões que perdi porque tive de trabalhar, porque não tinha com quem dividir os dias de calor ou porque minha atenção estava voltada para coisas que me pareciam mais importantes do que olhar a vida de perto.

A minha casa na árvore não vai ser muito grande. No máximo, deverá ter um quarto para dormir (com um chuveiro e um banheiro, tudo estudado para que o escoamento desapareça da vista, claro), uma sala em que possa caber uma cozinha (sim, dá para acender um fogo em uma árvore sem que ela necessariamente tenha que se consumir em chamas) e os livros que comprei até hoje e ainda não li. Um terraço para poder ficar lá sentado com os olhos descansando em um horizonte que, pela localização da casa, ficará em um plano bem diferente do horizonte dos simples mortais.

A vantagem da casa na árvore é que você pode, de vez em quando, levantar a escada que dá acesso a ela, fechar o alçapão, ficar quieto e fugir dos chatos eventuais que apareçam na base do tronco. E, diferentemente do barão Cosimo, descerei de vez em quando, porei os pés na terra e, quando tiver suficiente agitação e quiser descansar, poderei dizer “desculpem, tenho de ir para minha casa, na árvore”. Mais primata impossível.

A vantagem de morar assim é que você poderá ter certeza de que essa árvore, a da sua casa, ninguém poderá cortar.

*J. R. Duran, 55, fotógrafo e escritor, vive com a cabeça nas nuvens. Seu e-mail é studio@jrduran.com.br