
Quando preso, trabalhava em meu laptop no setor de educação do presídio, e tinha uma relação bastante agradável com professores e professoras. Como fui professor pôr cinco anos na Casa de Detenção de São Paulo, tenho muitas informações a trocar com eles.
Claro, a experiência deles como professores era bastante diferenciada da minha. Eles vinham da rua para ensinar na prisão. Eu estava preso e ensinava a companheiros de vicissitudes. Também há o fato de a vida de cada um é o que cada um deu de si em cada profundo ou vão momento de sua existência. Sem dúvida, guardamos um sol na cabeça; aquele que conquistamos.
As professoras me chamaram a atenção para um detalhe muito interessante. O que pensam as pessoas sobre o que se passa na prisão. Particularmente, numa sala de aula prisional.
Elas diziam que quando falavam que estavam dando aulas na cadeia, as pessoas ficam pasmas. Faziam mil perguntas, mas as básicas seriam: se elas haviam ficado loucas; se era prisão feminina; se elas não tinham medo; se os pais delas deixavam; se haviam aulas mesmo; curiosas, queriam saber como seriam as salas de aula; se os guardas ficavam juntos; se os presos assistiam aulas algemados; e questões assim.
Diziam-me que muitas pessoas pensavam que seria impossível dar aulas. Julgavam que éramos brutais, monstruosos, incapazes de aprendizado. Outras, menos radicais, imaginam que a sala de aula seria como uma jaula, com vidro blindado, em que os professores ministram aulas totalmente protegidos dos alunos. Outros, que já possuíam alguma informação, imaginavam policiais armados rodeando professores, separando-os dos alunos, ostensivamente.
Posteriormente, conversando com a Daniela, uma das psicólogas da prisão em que estava preso, sobre o assunto, ela disse-me que o mesmo se dava com ela. Quando afirmava que trabalhava naquele lugar, as pessoas se assustavam. As perguntas eram, basicamente, as citadas acima. Pensavam que ela tratasse de nós vestidos em camisa de força e nos ministrasse eletrochoque. Disse-me que quando mostrou um dos livros que escrevi, as pessoas não queriam acreditar que um preso fosse capaz de escrever um livro. Ainda mais pela Companhia das Letras. Um absurdo. Só mostrando é que acreditavam.
Uma das professoras, a Norma, que trabalhava com alfabetização, disse-me que as pessoas têm em mente apenas o que a mídia veicula. E, como só aparecemos quando há rebeliões nos presídios, é só aquilo que fica. São aquelas imagens dantescas, padronizadas, de companheiros encarapuçados, com enormes facas improvisadas no pescoço dos reféns.
Nada de bom aparecia sobre nós. Não nos mostravam trabalhando nas oficinas, estudando nas escolas, jogando bolas nos pátios, recebendo nossos familiares e visitantes. Não nos mostravam com nossos filhos, esposas, em atitudes amorosas e, carinhosas, e as emoções à flor da pele.
Não é porque estávamos presos(eu já não estou mais, mas sou a mesma pessoa; estar livre não modifica ninguém) que deixávamos de sermos humanos. Estamos, mas não éramos. Ninguém é somente o que o tipificam; somos seres de infinitas possibilidades, como todos os outros.
Não abdicávamos de nossa humanidade porque, em determinado momento questionável de nossas existência, agredimos ou ferimos. Muito pelo contrário; fomos profundamente humanos porque erramos. Errar faz parte da condição humana, pôr mais desacreditada esteja tal afirmativa. Alias, é através de erros e fracassos que nos construímos tal qual estamos sendo.
As professoras diziam que havia muita falta de informação. Juravam que seus alunos presos se comportam muitas vezes melhor que os das escolas públicas lá de fora. Obedeciam regras, possuíam auto controle, respeitavam muito seus professores e estavam seriamente envolvidos no aprendizado.
Algumas professoras que tiveram a experiência de ministrarem aulas nas escolas públicas ou pagas, nos preferiam muitas vezes. Na prisão os alunos não ameaçam os professores. Buscam a simpatia e a amizade deles pela imensa carência afetiva em que vivem mergulhados. Os alunos não batiam nos professores dentro ou fora das salas de aula. Os professores não são assassinados pôr alunos. Não há brigas, nem ao menos discussão, no setor de educação. Não há quadrilhas armadas invadindo salas de aulas para matar ou assaltar outros alunos ou professores.
As aulas aconteciam em um clima de harmonia em que um olha o outro para que tudo transcorresse suavemente. Sentiam-se responsáveis por manter a escola intocável, porque era o único veículo que a sociedade lhes oferecia para a reaproximação social. Era de seus interesses conquistar a boa vontade dos professores para com eles. Não éramos obrigados a estudar. Nossos pais não nos forçavam a nada. Procurávamos a escola porque queríamos aprender os códigos sociais para podermos participar pôr inteiro da vida em sociedade, quando soltos.
Para o preso, a escola é quase sagrada. Os professores são uma espécie de mensageiros da liberdade que, além de trazerem informações quentíssimas do mundo lá de fora, nos ensinam a como entende-las. São pessoas altamente valorizadas e respeitadas no presídio. Até o preso, quando investido da função de professor, recebe uma aura de respeito quase mística. É sempre o facilitador do conhecimento.
A título de informação, as salas de aula são idênticas às que existem em todas as escolas. Menores, com menos alunos e com duas horas de aulas diárias. Na prisão existem cursos compatíveis com o ensino fundamental. Para regulamentar o ensino junto ao Estado, é dado oportunidade para que os alunos possam prestar exames pelo Centro de Exames Supletivos.






