Revista Trip

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30.04.2002 |
Eduardo Fernandes faz um dos sites pessoais (www.eduf.com.br) mais divertidos do planeta. Não contente, foi ao Ibirapuera ficar pelado com outros mil e tantos cidadãos. No domingo, encontrei o seguinte relato em minha caixa de e-mails: 'O brasileiro é um pelado nato. Qualquer coisa é pretexto para a carga genética herdada dos índios vir à tona. Somos de uma nudez acrobática e carnavalesca. Pelo menos é o que se conclui da passagem de Spencer Tunick pelo Brasil. O fotógrafo americano viaja pelo mundo clicando pessoas nuas em espaços públicos. Polêmico, chegou a ser preso em Nova York. Mas, em São Paulo, foi recebido como um Rei Momo. Sua performance no Parque Ibirapuera atraiu cerca de 1100 pessoas, além de uma fauna de Nany Peoples, Otávio Mesquitas, Ratinhos, Rodolfo e ETs. Nunca a flacidez do brasileiro foi tão noticiada. Premonições 5h30 e o trânsito já bombava perto do Ibirapuera. Atravesso a rua e vejo dois sujeitos sem camisa, num clima de final de Copa. Pensei: 'Mas já é para ficar pelado? Não tem que entrar antes no Parque?'. Primeiro sinal de roubada à vista: um sujeito me empurra e me força a pegar um papel. Imaginei que seria algum convite de vernissage ou texto de poeta-camelô. Nada disso. Era um panfleto: 'Rincão Naturista: fique nu em harmonia com a natureza'. Guardei. Vai que pego gosto pela coisa. Globalização No parque, centenas de hunos atropelavam impiedosamente dois monitores. Praticamente um arrastão. Porém, o único objeto de valor cobiçado ali era uma caneta esferográfica. Teríamos de preencher um papel e ceder os direitos de imagem das nossas estrias, celulites e fimoses. Elas poderiam viajar o mundo, aparecer no 'New York Times', virar quadro no MoMA. Mundo estranho: um islandês pode ver as frieiras de um sujeito que mora no Morro da Pinga. Que tipo de significado espectral elas poderiam adquirir depois que deixassem meu pé e fossem para o Louvre? Como sou obtuso: tenho frieiras de Max Ernst e nunca notei. Sem fotos Éramos uma paisagem de gordinhos bancários, secretárias desempregadas, professores de ensino médio, sorveteiros, estudantes, fãs de Raul Seixas e meninas tatuadas com desenhos de vacas e peixes. Cada um tentando provar algo a si mesmo. 'Quero ver até onde eu posso ir. Tirar a roupa aqui é um passo enorme para mim', disse uma senhora de 60 anos. Saquei minha câmera e comecei a registrar a aglomeração. Súbito, uma monitora voa no meu pescoço: 'Não viemos aqui para tirar fotos uns dos outros, viemos fazer arte.' Cerca de 20 pessoas me cercaram: todos gritavam para que eu guardasse a câmera. A imprensa fora expulsa há pouco, quando um repórter da Rede TV!, nu e calvo, começou a entrevistar a galera. Genitálias felizes 7h10. Ninguém mais agüentava ficar vestido quando Tunico (a essa altura Tunick já havia sido rebatizado) apareceu. Tinha cara de quem nasceu para ser caixa de banco. Se passar na frente de uma agência, terá de ser amarrado ou não resistirá à atração genética do balcão. Era um sujeito simpático e, em poucas palavras, nos explicou que teríamos de ficar sérios, com os braços e pernas imóveis, 'sem poses malucas e sem yoga'. Tudo seria milimetricamente disciplinado. Fiquei puto. Queriam controlar a vivacidade da nossa nudez. Ninguém ali estava preocupado em expressar o desespero ou a depressão da vida contemporânea. Nossas genitálias eram de uma felicidade jamais vista. Em liberdade, fariam piruetas e acrobacias, como micos amestrados. Enfim nus Finalmente, a catarse: Tunico pegou o megafone e mandou todo mundo tirar a roupa. Gritos de aprovação. Camisetas e cuecas voaram e, pouco depois, ficamos completamente pelados. Milhares de flashs explodiram nas nossas caras. Era a imprensa, num momento J.R. Duran. Em segundos, descobri toda a verdade: ficar nu em público é a coisa mais cheia de pudor que existe. Recomendo aos padres e às igrejas. Não houve olhares constrangedores, ninguém sequer se encostou em mim. Há menos respeito até no metrô.'

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