Revista Trip

tamanho da letra
aumentar fonte
diminuir fonte

Lourenço Bustani

Ajudando empresas a desenvolver projetos que conciliem lucro e impacto social positivo
21.11.2012 | Texto: Lia Hama | Fotos: Lucas Landau

Filho do embaixador do Brasil na França, Lourenço Bustani fez carreira ajudando empresas brasileiras a desenvolver projetos que conciliem o lucro com um impacto social positivo

 

Enquanto milhões de brasileiros acompanhavam na TV o último capítulo de Avenida Brasil, Lourenço Bustani não estava nem aí para a novela. Quem matou Max não era algo que provocasse curiosidade no empresário. Naquela noite de sexta-feira ele estava na casa do músico Marcelo Yuka, na Tijuca, bairro da zona norte carioca, com a atenção focada em outro assunto. Na sala de estar, os dois conversavam sobre a criação de um espaço voltado para discutir soluções para problemas do país. O fundador e ex-baterista do grupo O Rappa, vice na chapa de Marcelo Freixo – que disputou as eleições no Rio de Janeiro este ano –, queria os conselhos do amigo para seu projeto em gestação, que batizou de Albergue das Ideias. “Imagino o Albergue como um lugar onde pessoas com diferentes formações possam se hospedar e passar uma temporada discutindo soluções para determinadas questões. Essas propostas depois vão ser lançadas para a sociedade”, explicou Yuka.

“Acho que o projeto deve buscar ter um impacto real na vida das pessoas. O que sair de lá precisa ter resultado prático. Do contrário, será só um espaço de divagação”, palpitou Lourenço. Yuka devolveu em forma de elogio: “É por isso que eu gosto desse cara! Meu universo é muito romântico, me falta esse pragmatismo”. Os dois se conheceram há um ano, quando Lourenço procurou o músico para um trabalho. Descobriram interesses em comum e mantiveram o contato. “Rolou uma conexão imediata”, conta o empresário que, após o encontro no mês passado, tornou-se parceiro e cocriador do Albergue das Ideias e convidou alunos da Escola São Paulo para desenvolverem um plano de negócios para o projeto.

Há seis anos Lourenço fundou, ao lado do publicitário Igor Botelho, a Mandalah, empresa que presta consultoria na criação de produtos, serviços e estratégias que buscam aliar o lucro das empresas ao propósito de melhorar a vida das pessoas, criando um círculo virtuoso em que todos ganhem. O portfólio de clientes inclui marcas como Nike, GM, Petrobras, Pepsi e Natura; instituições como Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Sebrae-MG; ONGs como Instituto Ayrton Senna; e projetos educacionais como Colégio Bandeirantes e Escola São Paulo.

Em maio entrou em 48º lugar no ranking deste ano das cem pessoas mais criativas no mundo dos negócios da revista americana Fast Company. A nomeação atraiu os holofotes e o levou a dar uma série de entrevistas a jornais, revistas e programas de TV. “Houve exagero na forma como fui apresentado por parte da mídia. Por outro lado, estar ali abriu portas para a Mandalah e triplicou a quantidade de pessoas que nos procuram para conversar”, explica o rapaz de 32 anos.

“Lourenço tem a capacidade de colocar as coisas em prática, mas com sensibilidade e inteligência emocional”– Marcelo Yuka

Nascido em Nova York, filho de diplomatas (o pai, José Maurício Bustani, é o embaixador do Brasil na França), Lourenço passou a infância pulando de um lugar para outro, o que lhe proporcionou uma visão multicultural e o domínio de quatro idiomas. Formado em ciência política e administração pela Universidade da Pensilvânia, em 2004 ele se mudou para o Brasil, onde fincou raízes. “Tive uma crise de identidade comum entre filhos de diplomatas. O Brasil era o lugar onde eu passava os meus melhores dias nas férias, mas eu não conhecia a realidade brasileira de fato. Achava incoerente me apresentar como brasileiro. Decidi então vir para cá e encontrei um terreno fértil para implementar coisas novas.”

Hoje a Mandalah possui 45 funcionários em seis cidades: São Paulo, Rio de Janeiro, Nova York, Cidade do México, Berlim e Tóquio. “Por ter morado em tantos lugares, minha rede de contatos é ampla, o que facilita desenvolver projetos em qualquer lugar. Basta postar uma mensagem no Facebook que recebo um monte de indicações. Isso é ótimo para o trabalho e para mim, que me alimento das perspectivas dos outros”, diz. A sede da empresa é uma casa no bairro paulistano da Vila Madalena, onde Lourenço despacha ao lado de seu fiel escudeiro Shivah, um golden retriever que é a mascote do lugar.

E o que diferencia a atuação da Mandalah da de outras empresas de consultoria? “Nossa proposta é trazer um olhar mais humanista para o mercado, que costuma enxergar as pessoas como meros consumidores. Buscamos conscientizar as empresas sobre o papel que elas exercem na sociedade para que tomem decisões baseadas não apenas no lucro, mas também no impacto social de suas ações. Uma ideia só é inovadora se melhorar a vida das pessoas”, teoriza.

 

“Uma ideia só é inovadora se melhora a vida das pessoas de verdade”

 

Em termos práticos, isso se traduziu, por exemplo, em um trabalho para a Nike no Rio de Janeiro, de olho na Copa de 2014 e na Olimpíada de 2016. Após conversar com atletas, líderes comunitários, empreendedores sociais, músicos e artistas plásticos, a Mandalah apontou que a cidade vive um momento de integração e a Nike poderia envolver diferentes comunidades em seus projetos. A recomendação foi de que no lugar de ações espetaculares pontuais de marketing, melhor seria participar de atividades que deixem um legado para a cidade, mesmo após o término dos eventos esportivos. “Esse olhar foi fundamental para descobrirmos a melhor forma de nos aproximar dos cariocas. O trabalho deles foi o embrião de uma série de ações que depois desenvolvemos internamente”, explica João Chueiri, Brand Manager da Nike no Rio. Entre os projetos que a marca patrocina atualmente estão torneios de futebol para jovens de baixa renda como os do Futebol Social, reformas de rampas de skate e a escola de surf do Favela Surf Clube.

Revolução silenciosa

Outro trabalho foi um estudo global para a GM sobre o futuro da mobilidade urbana. “Fomos para Coreia do Sul, Suécia, Estados Unidos e Inglaterra. Ouvimos mais de 30 especialistas, acadêmicos e governantes, e o resultado foram 32 propostas de inovação para a indústria automobilística”, conta Lourenço. Uma equipe da GM estuda a implementação das medidas.

Quem recentemente procurou Lourenço para uma conversa foi o grupo EBX, do empresário Eike Batista, que atua nas áreas de mineração, energia, petróleo e logística. A diretoria responsável pelas relações com as comunidades o chamou para conhecer seu trabalho. “Me disseram: ‘Mas você vai se reunir com a EBX? Não tem nada a ver com a Mandalah!’. Na verdade, eu acho ótimo que nos procurem. Existe uma colisão de paradigmas entre nós e a EBX, mas isso não impede que possamos criar uma agenda compartilhada”, afirma.

Otimista, Lourenço acredita estar em curso uma revolução silenciosa de pessoas que querem mudar o mundo dentro de suas próprias estruturas. “Vejo que existe uma comunidade que antes ficava meio oculta, passava despercebida. Diariamente recebo e-mails de pessoas que se identificam com os nossos valores e falam: ‘É isso aí, tamo junto’. Isso não tem preço”.