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Amizade vida loka

Luiz Alberto Mendes e Edmundo Clairefont debatem amizade em circunstâncias extremas
14.08.2012 | Texto: Edmundo Clairefont e Luiz Alberto Mendes | Ilustração: Rafael Coutinho

Rafael Coutinho

 

Nosso colunista Luiz Alberto Mendes escreve cinco crônicas sobre amizades nas ruas e nos presídios brasileiros – onde passou 30 anos. Enquanto isso, o repórter Edmundo Clairefont conversou com antropólogos, biólogos, psicólogos e filósofos para entender por que, afinal, precisamos tanto de amigos

A amizade nasceu na África, uns 10 mil anos atrás. Mas pode ter sido na China. Ou no Oriente Médio. Talvez tenha sido antes, há 12 mil anos, mas ninguém sabe ao certo. A origem da amizade é uma história nublada e morta. Só sabemos que ela, a amizade, é filha da circunstância com a substância – e isso não é poesia (ruim); é ciência. É fórmula, é mecanismo. É química corporal. É ação e reação. Sua função é mais ou menos exata e resumida numa palavra: sobrevivência. Temos amigos porque ter amigos faz com que se viva melhor e por mais tempo.

A circunstância
Na Pré-História, os laços humanos eram amarrados entre pouquíssimos indivíduos. Pesquisadores estimam que travávamos contato com, no máximo, 50 pessoas. Era um arranjo que permitia agilidade a uma rotina ambulante, cheia de riscos e predadores. Por volta de dez milênios atrás, esse período, o Paleolítico, foi encerrado pela descoberta da agricultura. Acontecia a revolução neolítica, enterrando a era dos caçadores-coletores. Deixamos de ser nômades.

Ocupando mais terreno, afastando as ameaças e estocando alimentos, a vida ficava mais fácil, sedentária, longa. O problema era que, para esses povoados funcionarem e crescerem, se tornou uma necessidade ficar e juntar mais gente além do nosso reduzido círculo de parentes. Era obrigatório fazer alianças.

O segundo passo foi pensar nas relações que aconteciam dentro desses ajuntamentos fixos. “Um bom jeito de explicar por que homens [e primatas como os chimpanzés] têm a capacidade para a amizade é entender que, com amigos, formamos coalizões sólidas, algo importantíssimo quando vivemos em grupo”, explica o biofísico alemão Stefan Klein, autor de A fórmula da felicidade (Sextante, 256 páginas). “A amizade permitia essa cooperação em busca de um benefício comum.” Ou seja, a amizade nasce de um impulso contraditório, um altruísmo egoísta: ofereço algo porque espero receber algo, e assim todos lucram.

“Acontece que essa ideia de que se você coça as minhas costas, eu coço as suas, que é uma teoria da psicologia evolucionária, não basta para explicar a existência de um amigo”, diz o filósofo e teólogo Mark Vernon, autor do livro The Meaning of Friendship (O sentido da amizade, inédito em português). “Embora adoremos ser úteis aos nossos amigos, odiamos ser usados por eles. Esse altruísmo recíproco pressupõe que sejamos basicamente usados pelos amigos.” Klein concorda: “Como qualquer explicação
darwinista, ela só dá conta de por que somos capazes de ter amigos. Não explica por que escolhemos esse e não aquele nem por que, às vezes, damos sem esperar receber”.

Rafael Coutinho

A substância
Se alguém fosse dissecar a amizade para reduzi-la a um só componente físico, a partícula elementar das relações humanas teria um nome: oxitocina. Esse hormônio, produzido no hipotálamo (uma região do cérebro do tamanho de uma noz), estimula a busca por um parceiro para a reprodução. É também responsável pelo impulso de se relacionar, querer conhecer gente e, dependendo desse conhecimento, manter essa gente por perto. Animais produzem a substância em quantidade muito inferior. Essa diferença química entre espécies e o fato de a oxitocina atingir diversas regiões do nosso cérebro, cada uma com funções particulares, explica por que estabelecemos relações intensas, complexas, únicas, diferentes. E por que a amizade faz bem tanto para o corpo como para a mente.

A oxitocina começou a ser entendida em 1909, pelo fisiologista inglês Henry Dale. A partir dele, e nas décadas seguintes, cientistas decifraram os efeitos que ela causava no corpo. Encontraram um carnaval. O hormônio promove uma farra tão grande dentro do organismo que seus efeitos vão de melhoras no sistema imunológico a contrações da vagina que facilitam a inseminação do óvulo. E vai além: reduz a ansiedade, nos torna mais resistentes a doenças e menos agressivos. Quando você se sente cansado de estar sozinho, é a oxitocina clamando.

Enfim, por que temos amigos?
Por causa da oxitocina (a substância) e porque viver é difícil (a circunstância). Como não dá para escrever a própria história se relacionando apenas com a família (em algum momento você vai se apaixonar, trocar de parceiro, quem sabe, ter filhos), fazer amigos é o caminho para gerar descendentes, viver bem, com mais gente em volta e por mais tempo.

Um estudo da Universidade de Harvard mostrou que ter amigos íntimos pode esticar a expectativa de vida em dez anos. A amizade é tão poderosa que uma pesquisa dos sociólogos Nicholas Christakis e James Fowler, publicada no livro O poder das conexões (Elsevier, 336 páginas), afirma que, quando um amigo engorda, temos 45% mais chances de ganhar uns quilos. Quando é o cônjuge que ganha peso, as chances são menores (37%).

“Neuro-hormônios, como a vasopressina e a já citada oxitocina, são liberados quando iniciamos uma relação ou reencontramos alguém querido”, explica Stefan Klein. “Eles acionam sistemas cerebrais que fazem conexões e acessam nossas memórias.” O cérebro relembra a você que aquela pessoa é confiável, um porto seguro. Ficamos menos agressivos, mais confortáveis. “Esse processo reduz o estresse e o medo do desconhecido, as inseguranças. Confiança, aliás, é a palavra-chave da amizade e de qualquer forma de cooperação.”

 

“Conversar era proibido na cela forte. Henrique falava sobre livros pelo encanamento da privada”

 

Outras substâncias também entram no jogo. Neurotransmissores, como dopamina e endorfina, por exemplo. As risadas, aquela colossal sensação de alegria e empolgação que sentimos entre amigos, são efeitos dessa química corporal. Seu resultado é chamado por cientistas de natural high. Algo semelhante ao efeito causado por algumas drogas – e, portanto, pode ser viciante (o que explica as crises de "abstinência” de nosso círculo íntimo).

Um estudo publicado por pesquisadores da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, indicou que o indivíduo que tem ao menos quatro amigos corre menos riscos de desenvolver doenças cardíacas. Quem não atinge esse patamar, dobra suas chances de um enfarto ou derrame. Nesse jogo, a oxitocina, de novo, tem um importante papel. Ela reduz a pressão sanguínea e sossega os batimentos cardíacos.

Como escolhemos?
“Basicamente, por semelhança”, explica o biofísico Stefan Klein. “A psicologia social provou que pessoas parecidas andam juntas.” Mauro Koury, coordenador do Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia das Emoções da Universidade Federal da Paraíba, diz que nossos amigos funcionam como um espelho. “Eles são escolhidos pelas projeções que fazemos em relação aos nossos próprios desejos e anseios. Procuramos neles qualidades ou defeitos que podem ser úteis aos nossos defeitos e qualidades”.

O psicólogo cognitivo Peter DeScioli, da Universidade da Pensilvânia, foi um dos responsáveis por delimitar como escolhemos e ranqueamos as pessoas. Com o pesquisador Robert Kurzban, ele desenvolveu a Hipótese das Alianças. “Nesse estudo, proponho que a amizade pode ser entendida como uma estratégia de apoios”, explica. “É por isso que as pessoas se ajudam mesmo quando elas não esperam retribuição. Ajudar os amigos é uma forma indireta de se ajudar. Se eu sou seu melhor amigo, você tem que ser o meu.” Nesse modelo, ter muitos amigos não significa enfraquecer as amizades mais profundas. “Mas isso apenas se as pessoas deixarem claro quem são esses amigos mais importantes. Se as pessoas que têm muitos amigos não demonstram quem faz parte de seu ciclo íntimo, suas amizades tendem a ser mais frágeis”, afirma.

A noção de que o interesse move os nossos relacionamentos ganhou popularidade em 1976, quando o evolucionista britânico Richard Dawkins publicou O gene egoísta (Cia. das Letras, 544 páginas). A tese da obra é simples: nossos genes buscam a sobrevivência. Por isso, eles procuram qualquer tipo de aliança que servir a esse propósito. Tirando a lupa e ampliando o campo de visão, nossas relações seguiriam o mesmo princípio. Fazemos o bem porque fazer o bem faz bem pra gente.

 

“A necessidade do outro no isolamento nos deixa mais vulneráveis. O perigo de ser usado e traído aumenta”

 

O sociólogo e antropólogo francês Marcel Mauss chamou de “dádiva” um ato de doação que não visa retorno. “Entretanto, embora sejam gestos altruístas e desinteressados em si, pressupõem troca, o retorno daquele que recebeu a dádiva”, afirma Mauro Koury. “Sem esse retorno não há a troca, não se constroem vínculos e a amizade não acontece.”

Situações extremas
Koury acredita que, em situações extremas, como em prisões, os laços de amizade costumam ser mais intensos. “A necessidade do outro no isolamento, ou em cenários de crises pessoais, guerras, catástrofes e aprisionamento, deixa o indivíduo mais vulnerável. Sua busca de apoio ou de dar apoio aumenta. Mas, com essa vulnerabilidade, o perigo de ser usado, de ser traído, também aumenta. O que pode ocasionar o efeito contrário: a recusa a qualquer abertura para o outro, pelo medo de confiar, pelo receio de ser usado. Romper essa desconfiança e se entregar a um desconhecido pode significar uma experiência especial de amizade e de intimidade com durações variáveis: pela vida toda ou apenas enquanto dure a situação específica.”

Rafael Coutinho

Precisamos de amigos hoje?
“Hoje, a amizade é o tipo de relacionamento que permite liberdade. É diferente da família, em que o laço é obrigatório”, explica Mark Vernon. “Por isso a amizade é tão valorizada: porque damos muito valor à liberdade – e note que a amizade é uma das bases das redes sociais da internet. De todo jeito, amizade exige tanto quanto a família, não é mais fácil. Todas as relações humanas pedem coisas em troca e requerem comprometimento.”

Klein está atento ao papel da internet na relação entre pessoas. “Bem, ninguém pode ter tantos amigos assim”, diz. “Há um estudo da Universidade de Oxford que afirma existir um limite universal de 150 pessoas com quem o indivíduo pode ter relacionamentos significativos.” E esses amigos, vale lembrar, não são todos próximos. Segundo a pesquisa, estabelecemos um ranking em que os mais importantes não passam de cinco pessoas.

“A internet pode ser tanto boa como ruim para a amizade. Há muito debate sobre o impacto que ela tem”, conta Mark Vernon. “Ela é boa porque nos ajuda a manter contato. Ela é ruim porque nos mantém a distância. Palavras digitadas não são o suficiente para se comunicar.” Stefan Klein completa: “Amizade exige um mínimo de contato com carne e osso. Chamar de amigo uma pessoa com quem você só divide notícias, vídeos e virais em uma rede social? Isso é um truque de marketing do Facebook”.

Tudo é oxitocina e gene egoísta?
“Eu não compro todas as justificativas científicas, não. Como quando dizem que as amizades mais profundas são feitas na juventude, época em que produzimos mais oxitocina”, diz Stefan Klein. “É uma explicação mecânica. A oxitocina é um neurotransmissor muito importante para permitir as relações humanas, fato, mas construir um relacionamento é algo muito maior do que a liberação de uma substância.”

“Mas a ciência não reduz a amizade. Seria o mesmo que dizer que descobrir sobre a química dos óleos aromáticos reduz o cheiro que a flor exala. É justo o contrário: a ciência adicionou toda uma nova dimensão de maravilhas. Ela explica os mecanismos fundamentais, mas nunca vai ser capaz de esgotar a riqueza que cada um experimenta fazendo amigos ou sendo amigo dos outros. As histórias das nossas vidas não podem ser explicadas. Elas podem ser contadas.”

Minha Necessidade dos Outros
Por Luiz Alberto Mendes

Desde muito cedo, minha companheira mais constante foi a solidão. Meu pai não me deixava sair de casa. Tentou me dominar e controlar o quanto pôde. Ficar só naquele quintal exíguo era a pior das torturas. Doía muito ver os garotos da rua empinando pipa e jogando bola. Quando criava coragem para sair, era quase uma fuga. Caso meu pai chegasse e eu não estivesse, com certeza tomaria uma surra. Ele batia até perder as forças. Deixava meu pequeno corpo todo lanhado por dias. Não podia ir para a escola com aqueles vergões roxos pelo corpo todo.

Eu era filho único, e não havia ninguém que quisesse ficar preso comigo no espaço do meu quintal. Eles tinham liberdade e a aproveitavam. Meu pai chegava sempre bêbado. Eu me escondia na casinha do cão até que ele desmaiasse. Então eu mexia em seus bolsos e tirava algumas notas. Pegava para promover festinha de doces com os meninos – era a única forma de mantê-los ali comigo, no quintal.

Eram meninos pobres como eu, não tínhamos um tostão furado. Com o tempo, tornei-me uma liderança. Sempre tinha algum dinheiro e, justamente por isso, era bastante procurado. Foi assim que comecei a roubar, para ter os outros junto comigo.

Somente quando adulto consegui reconstruir o respeito pelo que é dos outros. Descobri que a minha necessidade dos outros é a maior das minhas necessidades. Mesmo dentro da prisão, aprendi a agregar valores. Quis fazer de mim alguém que as outras pessoas gostassem pelo que havia de bom dentro de mim. E, em parte, acho que tenho conseguido.

Rafael Coutinho

Amizade Verdadeira
Por Luiz Alberto Mendes

Meu primeiro amigo se chamava Renato Rimonato e com ele aprendi o que é uma amizade verdadeira. Morava em frente à minha casa e ficava comigo no quintal porque gostava de minha companhia. Nunca aceitou ser comprado. Os que se venderam jamais conseguiram me enganar. Eu os usava conscientemente.

Sempre fui muito briguento. Acho que buscava me afirmar. Meu pai me apavorava. Eu era controlado pelo medo que ele me inspirava pela violência com que me tratava. Fora de casa era preciso combater esse medo, então enfrentava ameaças e desafios batendo de frente. E, como era de pequena estatura, vivia apanhando dos meninos maiores. Renato, embora mais fraco porque sofria de bronquite, entrava em todas as minhas brigas. E eu, nas dele. Éramos imbatíveis. Com ele aprendi a alegria, o prazer incomensurável que é ter um amigo leal.

Não me recordo o que aconteceu, mas sei que a culpa foi minha. Brigamos. No meio de uma briga, eu ficava cego e partia para cima feito touro bravo. Consegui pegá-lo pelo pescoço. Renato já havia desmaiado, eu não percebi e continuei o enforcamento. A mãe dele e os vizinhos acudiram. Fui tirado de cima dele a vassouradas; eu estava acabando com sua vida. Ele ficou vários dias internado no hospital. Devíamos ter uns 11 ou 12 anos e nossa amizade foi interrompida ali. Eu, afastado pelo remorso. Ele, pelo trauma, fugia de mim quando me via.

Completei 18 anos preso, no que hoje chamam de Fundação Casa. Quando fui libertado, retornei ao bairro onde morava depois de três anos longe. Quem me recebeu foi Renato. Como se nada houvesse acontecido entre nós, ele, agora um rapaz, me abraçou chorando de saudade. Levou-me para jantar em sua casa e me proporcionou imensa felicidade.

Em sua homenagem, dei o nome de Renato a meu primeiro filho. Há pouco, soube que meu primeiro amigo de verdade já é falecido.

Um amigo entre livros
Por Luiz Alberto Mendes

Conheci Henrique Moreno na cela forte da Penitenciária do Estado. Nosso nauseabundo meio de comunicação era o encanamento da privada. Conversar era proibido. Caso fôssemos flagrados, seriam acrescidos mais 30 dias ao nosso tempo de castigo. Nas madrugadas, nos falávamos baixinho. Moreno foi a primeira pessoa que ousou conversar sobre livros comigo. O primeiro sobre o qual me contou foi Os miseráveis, de Victor Hugo. Colocou tanta alma no relato que quando fui ler o livro achei até sem graça. Por quatro meses ele me contou histórias de livros ao pé da privada.

Quando fui liberado para o convívio, meu novo amigo trouxe duas pilhas de livros, uma lista dos livros da biblioteca da Casa e um rascunho de carta para minha mãe. Eu não conseguia transpor para o papel o que pensava. Passei a limpo na minha letra (minha mãe conhecia) e enviei. Aos poucos fui modificando o rascunho que ele fazia. Na verdade, a intimidade que havia entre minha mãe e eu só nós conhecíamos. Concomitantemente, incentivado pelo amigo, comecei a ler também. No começo, ao fim da página já não lembrava do início. Cinco minutos e já doíam os olhos. Dez minutos e doía a cabeça. Meia hora e doía o pescoço, mas eu estava determinado. Quando fui dar por mim, estava lendo 10, 12 horas, desesperadamente.

Henrique me acompanhou por décadas. Nosso destino era morrer na prisão ou cumprir a pena máxima do país. Ele fugiu quase ao final e foi morto pela polícia. Eu consegui chegar ao final e sair limpo. Sou amigo de sua esposa, de suas filhas e de seu neto recém-nascido. Uma das coisas que mais lamento é não haver encontrado Henrique aqui fora. Tenho certeza de que seria uma festa sempre que estivéssemos juntos. Teríamos muito a comemorar.

Rafael Coutinho

O editor
Por Luiz Alberto Mendes

Quando vi os cartazes na entrada dos pavilhões da extinta Casa de Detenção de São Paulo, procurei saber do que se tratava. A atriz Sophia Bisilliat estava entrando na prisão com o projeto Talentos Aprisionados. E, dentro do projeto, o escritor Fernando Bonassi propunha uma oficina sobre textos. Aquilo me interessou. Como era encarregado da escola da prisão, fui conferir.

Acabei gostando do cara. Era sincero, só que a oficina dele patinava. Sugeri que fizéssemos um concurso literário. Fernando vinha toda quarta-feira e passava a tarde conosco, conversando. Foi quando lhe falei sobre um livro que eu havia escrito fazia mais de dez anos e que estava engavetado. Ele quis ver. Achou que era um bom livro e merecia ser publicado. Deu formato aos escritos e entregou nas mãos do doutor Dráuzio Varela (novamente), que levou os manuscritos à Companhia das Letras.

De repente fui desterrado para a penitenciária de Presidente Venceslau, lá perto do fim do mundo. Na Casa de Detenção eu era professor e possuía uma pequena fábrica de bichos de pelúcia. Com isso, conseguia sustentar minha esposa e meus dois filhos. Em Venceslau não havia nada disso. Fernando Bonassi se propôs a depositar uma verba em nome de minha esposa todo mês.

Quando meu primeiro livro, Memórias de um sobrevivente, começou a render algum dinheiro, pedi que parasse com os depósitos. Aqui fora recorro à sua orientação quando tenho dúvidas. Já me favoreceu tantas vezes que se eu fosse retribuir à altura não seria possível. Desconfio que só de permanecer no caminho que tenho seguido já o recompensa o suficiente. Mas prometo: farei tudo para que, no futuro, o lucro maior na relação seja o dele.

À primeira vista
Por Luiz Alberto Mendes

Na prisão desenvolvemos dispositivos psicológicos de autodefesa. É instintivo e inconsciente. Aprendemos a detectar a maldade a quilômetros de distância. Aqui fora, às vezes, me sinto um velho de 100 anos lidando com criancinhas de 5, tamanha a inocência das pessoas. Recebi e-mail de uma fã de meu livro Memórias de um sobrevivente (incrível, mas eles existem!). Ela havia lido e estava encantada com o livro, queria conversar comigo. Respondi, e ela mal conseguia acreditar que era o próprio cara do livro. Regina Sampaio é atriz, trabalha na novela Malhação (é a Beatriz) da TV Globo e tem 73 anos. Os e-mails seguiam lá para a Ilha Primeira da Barra da Tijuca, onde ela mora, e para cá, Embu das Artes, onde moro. Enormes, carregados de emoção verdadeira e de um bem-querer imenso – puxa, a gente se gostava muito.

Precisávamos nos ver. Parecíamos duas crianças ansiosas para se conhecer, para comer bolo juntas. Arrumei um tempo, ela arrumou carona para mim, e eu fui pra Ilha. Ela me esperava no cais, quando saltei da embarcação. Nosso encontro foi uma alegria imensa. Choveu o tempo todo que fiquei em sua casa e eu não lamentei. Ficamos conversando os cinco dias, das nove da manhã até próximo da meia-noite, quando ela entrava para o quarto dela.

Pude acompanhá-la no Projac para fazer as gravações; escutá-la estudando teclado; acompanhá-la na dança e na musculação; fomos ao teatro para assistir à excelente peça Um beijo no asfalto, que seu filho, Roberto Bomtempo, codirige e interpreta; vê-la estudando inglês com a professora africana e escutar seus planos de ir para a Europa. A mulher é um dínamo e vive como se jamais fosse morrer. Uma enorme lição de vida. Uma inesperada surpresa, um grande presente da vida: uma amiga.