Revista Trip

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Cadê a pelada?

Trip foi à Amazônia conferir o maior campeonato de futebol do mundo: o Peladão
19.12.2011 | Texto: Caio Ferretti | Fotos: Peetssa

Trip foi à Amazônia conferir o maior, e um dos mais desconhecidos, campeonato de futebol do mundo: o Peladão. Uma gigantesca celebração da várzea, com mais de mil times – e centenas de musas

A apresentadora de televisão Baby Rizzato procura a câmera mais próxima e anuncia: “Chegou a hora de vermos nossas peladonas de hoje”. Uma fila de 13 mulheres vestindo maiôs verdes e sapatos de salto alto está formada no canto esquerdo do cenário, todas apreensivas à espera do momento certo de entrar no ar. Bem próximo a elas, também um pouco nervoso com a situação iminente, estou eu. Em questão de segundos estaremos ao vivo no palco do programa Nosso encontro. Enquanto aguardamos, ainda fora do alcance das câmeras, recebo alguns sorrisos das moças, mas no fundo sei bem qual é a razão de tanta simpatia. É que serei jurado numa importante etapa do concurso de Rainhas do Peladão 2011. E elas são postulantes às últimas quatro vagas nas semifinais. O mais excêntrico de tudo isso, porém, é que meu julgamento pode interferir diretamente no resultado do maior campeonato de futebol do mundo, o Peladão.

É a gigantesca competição que acontece dentro de campo que me trouxe a Manaus, mas parte importante dele dependente do concurso de beleza. “Primeiro porque todos os times precisam ter uma rainha que os represente no desfile de abertura. Sem isso a inscrição do time não é oficializada”, explica o coordenador de rainhas Kid Mahall. “Segundo porque se um time é eliminado em campo, mas sua rainha chega à final do concurso, ela pode recolocá-lo de volta na luta pelo título. É o chamado ‘Paralelo das Rainhas’.” É essa razão que faz minha tarefa de jurado ser tão importante – e me fez ganhar alguns simpáticos sorrisos. Muita gente já se deu bem com essa mamata do regulamento. Em 1998, por exemplo, o Arsenal já havia dado adeus à briga pelo título, mas graças a sua rainha conseguiu voltar nas quartas de final e terminou o ano com o troféu. Se isso valesse para o Campeonato Brasileiro, por exemplo, provavelmente o Vitória não teria sido rebaixado no ano passado. Sua representante feminina foi finalista do concurso de Musas do Brasileirão.

“Se um time é eliminado do campeonato, mas sua rainha chega à final do concurso, ela pode recolocá-lo de volta na luta pelo título”

Mas o benefício é exclusividade do Peladão. E algumas equipes levam bastante a sério a importância dessas moças na competição. Chegam a pagar roupas, academia e salão de beleza para suas representantes. Mas, no geral, não é assim. “A maior parte dos times não tem a preocupação de selecionar uma boa candidata. Várias moças só vão ao desfile de abertura para garantir a participação do time, sem nenhum compromisso com o concurso depois”, joga o balde d’água Kid Mahall. “Chegam até mães, avós, mas não tem problema. A única coisa que pedimos é que a candidata seja do sexo feminino e tenha idade igual ou superior a 16 anos.” E nunca apareceu um travesti? “Já rolou. Por dois anos seguidos vimos umas candidatas meio estranhas e depois percebemos que eram homens travestidos. Depois disso incluímos a exigência no regulamento dizendo que tinha que ser do sexo feminino.”

A regra é clara!

O regulamento, aliás, não é nada pequeno para um campeonato de peladas. São mais de 200 artigos espalhados em 62 páginas. Muitas delas só sobre a Comissão Disciplinar Desportiva do Peladão. Exatamente, a competição tem até magistrados que se reúnem todas as semanas para julgar recursos relacionados a suspensão de jogadores, falhas da arbitragem, cartões, resultados... Apesar de tamanha seriedade, a ideia da organização sempre foi manter o campeonato com ares de pelada. Por isso, alguns desleixos típicos de uma partida jogada sem compromisso acabaram virando regra no Peladão.

Peetsa

Cenas das finais indígenas do futebol e de rainhas

Cenas das finais indígenas do futebol e de rainhas

Foi o que percebi enquanto assistia a alguns jogos no capenga estádio da Colina, no sul de Manaus, sob um calor que beirava os 40 °C. Era dia de jogo do Vasco da Gama no Brasileirão, reta final de campeonato, briga pelo título, mas na cheia arquibancada da Colina as pessoas só queriam saber dos resultados do Peladão. Dali, reparei que os laterais eram cobrados com os pés – e resolvi me informar com os torcedores ao redor sobre outras regras. Se a cobrança do lateral entrar no gol, por exemplo, é só partir pro abraço, porque vale. As equipes podem fazer até 11 substituições, ou seja, todos os jogadores. Se o time estiver incompleto, sem problemas. Basta pagar multa de R$ 60 e partir pro jogo. E, apesar de existirem bandeirinhas, não há impedimento. Eles estão ali apenas para apontar pra que lado vai o lateral, muitas vezes com a própria camiseta ou qualquer outro pano à mão.

E o mais curioso: todos os clubes devem inscrever além da rainha também um trio de arbitragem. E quem for mandante da partida chega com seu próprio juiz e bandeirinhas a tiracolo. “Assim um time fiscaliza o outro. Temos até 200 jogos por fim de semana, não tem como a organização cuidar de tudo”, justifica Arnaldo Santos, um grisalho senhor de 73 anos que coordena o campeonato há 15. Para as fases finais, no entanto, os árbitros mais bem avaliados nos primeiros jogos são escalados pela organização.

É o caso do baixinho e rechonchudo Aldenir. Escalado para apitar a final feminina da categoria indígena, Aldenir precisa ter bons olhos e um considerável senso de dimensões. Só assim para se sair bem em um campo de terra com pedaços de grama sem nenhuma linha de demarcação dentro. Como ter a coragem de apitar um pênalti numa finalíssima se nem existem as linhas da área? “Isso tudo fica a critério do juiz. Se ele achar que a falta aconteceu dentro da área a bola vai pra marca da cal.” Mas, Aldenir, também não existe a marca da cal! “É verdade. Bom, aí a gente conta 11 passos da linha do gol.” Pra sorte dele não houve nenhum lance duvidoso perto da imaginária área durante as finais indígenas. E nem empates, o que levaria a uma disputa por pênaltis.

Mas Aldenir está acostumado. Grande parte dos campos usados em jogos do campeonato não tem mesmo nenhuma linha. E isso nunca foi um problema para juízes, jogadores e muito menos para os torcedores. Por lá, muitos deles concordam que a falta de times profissionais do Amazonas nas primeiras divisões do Brasileirão, há muitos anos, contribuiu para que o público acolhesse os times do Peladão. Tudo para não se afastarem do futebol. Na final do campeonato de 2009, mais de 42 mil pessoas foram ao estádio Vivaldão acompanhar a disputa pelo título. Um gigantesco público para ver uma pelada que valia ao vencedor a premiação de um carro zero-quilômetro. A importância da competição na região rendeu até um caderno exclusivo no principal jornal do Amazonas, o A Crítica.

“Os laterais, cobrados com os pés, valem gol se a bola entrar”

Sinal das proporções que o Peladão tomou em 39 anos de existência. O suficiente para ser o maior do mundo? “É o que dizem. Fiz um pedido para receber uma auditoria do Guinness Book para saber se isso é mesmo verdade. Sendo o maior ou não, envolve toda uma cidade. Não é só o jogo, é tudo o que o cerca”, conta Arnaldo Santos. Sob sua batuta estão exatos 530 times somente na categoria principal de 2011. Isso significa aproximadamente 11 mil jogadores em busca do mesmo título. E esses números podem ser ainda maiores. Basta considerarmos também o Peladinho (para crianças de 12 a 14 anos), o Master (para incansáveis acima dos 40), o torneio indígena e o feminino. Aí chegamos à estratosférica cifra de 1.120 equipes. E dos mais variados tipos. “Ontem conheci um sargento da polícia militar que me disse que eles estavam no campeonato. Eu não sabia que a PM tinha um time e perguntei qual era o nome. Ele respondeu: ‘Pé na Cova’. De certo eles treinam preparo físico correndo atrás de bandido”, diverte-se Arnaldo.

Canoão do Ciocy

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de saia colorida, a filha do cacique Ciocy – aos 10 anos, sendo preparada para concorrer no concurso de beleza

de saia colorida, a filha do cacique Ciocy – aos 10 anos, sendo preparada para concorrer no concurso de beleza

A uma hora e meia de distância do centro de Manaus está um campo de areia cheio de caneletas formadas pela água da chuva. É onde treina duas vezes por semana o Baré Futebol Clube, chefiado pelo tranquilo cacique Ciocy – ou, se preferir, Austério. No campeonato deste ano a equipe parou nas oitavas de final, perdeu na decisão por pênaltis após um empate no tempo normal. Foram cinco jogos até a desclassificação. Cinco viagens de barco cruzando o rio Negro para chegar a Manaus e, enfim, jogar futebol.

Austério prefere chamar o transporte de “canoão”. “Íamos na base de 20 pessoas dentro dele. E ainda havia outros barcos pra levar as famílias nos jogos.” A princípio é quase impossível acreditar que cabem 20 pessoas dentro do canoão de Austério, mas em poucos minutos ele junta um punhado de gente e mostra que, se precisar, cabe até mais. No ano que vem as viagens vão continuar, ele pretende inscrever o time pela terceira vez no Peladão indígena. E não pensa nem um segundo antes de responder que, sim, vale a pena todo o esforço para estar envolvido nesse gigantesco e eclético campeonato. Não só com o futebol, aliás. Austério está preparando sua filha de 10 anos para que futuramente ela esteja no concurso de rainhas. Falta apenas convencê-la, já que a menina faz cara feia quando escuta essa história do pai.

Enquanto isso, os Baré ficam sem uma candidata ao posto de rainha indígena. O concurso deste ano, com apenas nove meninas, aconteceu no fim de semana em que a reportagem da Trip esteve em Manaus. Ao lado de um campo de futebol com jogos acontecendo, as candidatas eram pintadas de acordo com suas etnias para desfilarem. Com um detalhe da modernidade: a maioria usava lápis de olho e canetão para desenhar no corpo. Nada do tradicional carvão e da vermelha semente de urucum. E nada de salto alto também, era na sola do pé mesmo. Pelo regulamento, a vencedora indígena ganharia o direito de entrar direto na final do concurso de rainhas do Peladão. De fato ganhou, mas não levou. Dias depois da escolha descobriu-se que a eleita não tinha a idade mínima exigida. E a decisão do concurso de musas do Peladão ficaria sem uma representante índia. Nenhuma delas iria para a televisão ao vivo no programa Nosso encontro.

Por lá, aliás, as quatro classificadas na etapa em que fui jurado talvez não cheguem à final para ajudar seus times. Pelo menos no que depender da avaliação da apresentadora Baby Rizzato: “Ai, esta semana estava meio ruim, não é? Semana passada tinha cada menina!”, disse logo após o desfile das moças. O programa Nosso encontro daquele sábado termina logo após o anúncio das vencedoras, mas o dia ainda será de muito trabalho no estúdio. Todas as semifinalistas chegam para ensaiar o que acontecerá no fim de semana seguinte. Mas não sem antes tomarem uma bronca coletiva do coordenador Kid Mahall: “Vocês ainda não fizeram as pazes com os sapatos! Tem candidata andando feio demais! Os jurados reparam nisso, sabia?”. Pessoalmente, não foi nisso que reparei.