Revista Trip

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Fábio Leão

Do crime ao ringue, ele saiu de gerente do tráfico no Rio para promessa das artes marciais
18.11.2011 | Texto: Sara Stopazzolli, | Fotos: >Felipe Gaspar

Do crime ao ringue: De gerente do tráfico no Rio a promessa das artes marciais a viciado em cocaína a um dos líderes do Comando Vermelho na cadeia a súdito de Jesus a palestrante motivacional a protagonista de filme a tricampeão de muay thai... Não tem pra ninguém: o título de transformação pessoal vai para Fábio Leão

Ao som de um louvor, com a cabeça erguida e os olhos prestes a chorar, Fábio Leão caminha lentamente em direção ao ringue para a disputa do último Cinturão Brasileiro de muay thai profissional na categoria 70 kg. Súdito da própria majestade – ou de Jesus, como ele prefere colocar –, faz uma reverência ao chegar ao local do combate. “U-hu, é o Leão, u-hu, é o Leão”, gritam os torcedores. Logo no segundo round, um choque de cabeças não intencional corta profundamente o supercílio de Leão, e a disputa é suspensa por decisão médica. O cinturão fica com Bruno Kober. Uma salva de vaias para a decisão. Fábio anda pelo ringue de um lado para o outro menosprezando o ferimento. Pede o microfone e o silêncio de todos: “Temos que respeitar a equipe médica, mas isso [aponta para a ferida] para mim não é nada. Quem conhece minha história sabe disso. Eu preferia sair daqui com a cara toda arrebentada, mas com aquele cinturão”. A plateia, que lotava a academia Delfim, no bairro da Tijuca, no Rio, foi ao delírio: “U-hu, é o Leão, u-hu, é o Leão”. O caso foi parar no Supremo Tribunal de Justiça Desportiva, que avalia um pedido de anulação do resultado.

Alguns dias depois do episódio, Leão recebeu a reportagem da Trip na mesma academia Delfim, onde dá aulas de muay thai. Ainda triste com o ocorrido, repetia os detalhes do confronto e ameaçava tirar o curativo para mostrar à repórter que a ferida já estava fechada. “Eu tenho que agradecer a Deus na vitória e na derrota. Se não tivesse Jesus ia xingar todo mundo. Hoje posso irar, mas não pecar”, explica-se, antes de se debruçar sobre a tal história de vida, que vai virar um filme de ficção de Paulo Thiago previsto para ser rodado no ano que vem. Se Fábio pudesse escolher, o título seria Entre o crime e o ringue. O crime foi quem chegou primeiro, quando ainda era um garoto que jogava bolinha de gude na favela carioca de Vila Kennedy, onde mora até hoje. Fábio Leão Nunes nunca conheceu o pai, e o salário de secretária da mãe sempre terminava antes do fim do mês. Começou furtando guloseimas em lojas de departamentos, passou a liderar uma quadrilha de menores que praticava assalto à mão armada e em pouco tempo já “formava” com o tráfico, onde ganhou a função de gerente, já que era um dos poucos que eram bom em matemática.

Felipe Gaspar

A luta entre Fábio Leão e Bruno Kober terminou com a perda do título do primeiro por interrupção médica depois de um corte no supercílio

A luta entre Fábio Leão e Bruno Kober terminou com a perda do título do primeiro por interrupção médica depois de um corte no supercílio

Fábio também gostava de comprar briga e notava que era bom nisso. Entrou para o karate e ficou mais manso. Aos 13 anos, descobriu o boxe tailandês e comprou o primeiro par de luvas com dinheiro roubado. Aos 16 anos, foi campeão carioca de muay thai e convocado para disputar o campeonato brasileiro. “Eu queria me afastar para treinar e pedia dinheiro pros caras. Eles me chamavam de lutador de merda e me mandavam cair pra dentro. Pra arrumar o dinheiro, virava noite na boca de fumo e não conseguia treinar”, conta ele. Aos 17 anos, foi baleado durante uma troca de tiros com a polícia. A família e a mulher de toda a vida, Luciana, que namorava desde os 13 anos, acabaram descobrindo seu lado B e tentaram ajudá-lo a largar o crime. Não conseguiram.

Aos 19 anos, Fábio foi preso pela primeira vez. Saiu em oito meses e arrumou emprego em uma multinacional, mas não foi efetivado porque “tinha passagem pelo sistema prisional”. A dispensa lhe caiu como um nocaute. Voltou para o crime e para a cadeia. Lá conheceu um bandido que enviava automóveis clonados para o Paraguai em troca de drogas e entrou para a quadrilha. Saiu da prisão, voltou a treinar, teve sua filha, Hillary, comprou casa com piscina, moto, carro e uma oficina mecânica. “Chegava na academia de Pé do Atleta, Company, e os caras achavam que eu era playboy. Torrava o dinheiro todo no shopping, pulava de asa-delta, surfava. Enquanto os outros caras ficavam enfurnados na favela e só queriam saber de churrasco, cordão de ouro e comer mulher, eu queria ver o mundo”, conta ele.

Em 99, Fábio foi campeão brasileiro de muay thai. Para ir ao mundial, em Veneza, teria que gastar R$ 5 mil. Foi atrás de patrocínio e nada. Seu vice acabou campeão na Itália. Fábio ficou mal. Outro nocaute. E partiu para cima de um bloco de cocaína. “De tão travado minha boca ficou torta, falava segredo pra minha própria orelha. Antes disso eu raramente usava drogas. Se me ofereciam refrigerante eu dizia ‘chuta que é macumba’”, conta. Da noite pro dia, virou drogado de último grau e passava dias sem aparecer em casa. Luciana ameaçou largá-lo, mas não teve coragem. “Ele dizia que ia se matar se eu fosse embora, e era possível porque estava muito depressivo”, conta ela, que fazia incursões com a filha ainda bebê pelas favelas à procura dele. Até que Fábio foi pego em flagrante clonando carros e rodou com a quadrilha toda.

Em Bangu, virou líder da Vila Kennedy pelo Comando Vermelho. “Quando cheguei tava todo mundo igual mendigo. Comprei barbeador, mandava vir Red Label, pagava mulher pros caras”, conta ele, que foi transferido para a Muniz Sodré e chamado para uma conversa com o diretor da penitenciária, Gilson Nogueira. Além do extenso currículo no crime, Gilson viu em sua ficha que ele fora campeão de luta e o chamou para dar aulas de boxe na cadeia, com a condição de fazer uma oração antes e outra depois da aula. Leão topou. Treinava, orava e seguia sendo líder do tráfico lá dentro. Fábio ainda lembra do diálogo que teve certo dia com um bandido na Muniz Sodré:

– Pô, Fabio, só sabe orar o pai-nosso? Fala um versículo da Bíblia aí.

– Sei não. Fala tu aí, pô.

– João, 8, 32, pô: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.

– Que verdade é essa aí?

– Verdade é a palavra de Deus. Tu não tá ligado, parceiro? Tu não tem Bíblia? Qualé, Leão?!

Felipe Gaspar

o lutador se prepara para o desafio

o lutador se prepara para o desafio

Fábio pediu uma Bíblia para sua mãe e começou a estudar a “palavra”. Um dia, numa conversa com Deus, deu um grito de libertação: “Senhor, não aguento mais! Me ajude a sair dessa vida!”. Chamou a galera da Vila Kennedy, passou um rádio para os líderes do Comando Vermelho em Bangu 3 e comunicou que estava deixando o crime. Largou as drogas, voltou a cuidar do corpo, seguiu um treinamento pesado e virou evangélico. Chegou a converter a própria mãe, que era da umbanda.

Outro belo dia, Fábio recebeu a visita da juíza Thelma Fraga, idealizadora do projeto Grão, que trabalha com a reinserção social de egressos do sistema prisional. Fábio treinava sem luvas com um saco feito por três calças jeans, recheado de areia e pedra. Tinha calos ósseos nos joelhos e as mãos sujas de sangue. “A juíza ficou comovida e disse que me ajudaria a voltar a lutar”, conta ele. Thelma ainda convidou o lutador Rogério Minotouro para ser juiz de um campeonato entre os internos. “Fiquei impressionado com o que vi lá dentro. Doei uns sacos e luvas para o Fábio treinar e ele ficou muito grato. Eu sabia que ele era um cara obstinado e que tinha mudado realmente”, diz Minotouro. Para Thelma Fraga, que hoje vê Leão como um filho e viaja pelo país dando palestras ao lado dele, cada um é sujeito da própria reinserção. Seu papel é detectar uma marca pessoal para que eles possam enfrentar o regresso. “O reconhecimento é uma das bases psicológicas do trabalho desenvolvido com o Fábio. Sua ausência desperta nele fragilidades; a presença gera motivação para superar os obstáculos”, diz ela.

Fábio saiu da cadeia há dois anos e já acumula os títulos de tricampeão brasileiro e prata no brasileiro e no Pan-Americano. Até hoje ele preserva a mesma mulher e o melhor amigo desde a infância, Bruno Goes. Foi ele quem levou Fábio para treinar na Delfim, onde conheceu Gabriel Ribeiro, que lhe ofereceu seu único trabalho de carteira assinada. Gilson Nogueira, diretor da Muniz Sodré, comemora a transformação do ex-detento: “Não adianta nós colocarmos o homem atrás das grades sem dar o mínimo de ressocialização. Se agirmos assim, estaremos fazendo depósito de pessoas”.

O lutador segue dando aulas para os presos de Bangu e para crianças na Vila Kennedy, no quintal da igreja Assembleia de Deus. Aos 37 anos, ele se prepara para a revanche do Cinturão Brasileiro, em fevereiro de 2012. Segundo Fábio, com fé em Deus ele realizará seu grande sonho: ir para a Tailândia em março disputar o mundial. Quem conhece a história de Fábio sabe que o projeto está longe de ser impossível.