Estava baleado e, de repente, senti que morreria. Eles se aproximavam atirando para todos os lados. Não havia como evitar. Nada doía ainda. Tudo era adrenalina a envenenar o sangue que me escapava. Finalmente, me matariam.
Não sei de onde, uma indignação subiu com gosto de vômito. Uma coragem súbita me tomou. Haviam sacrificado minha existência desde a infância, agora estavam me matando como a um cão sem dono.
“Eles” agora eram meu pai. Os comissários de menores e os policiais que me barbarizaram no Juizado de Menores. Os tiras das delegacias e do Deic que me torturaram desde adolescente. Guardas de presídio que me sacanearam, humilharam e espancaram por décadas. Diretores de cadeia com suas leis regidas a canos de ferro e cela forte. O mundo todo contra mim naquele e em todos os instantes de minha existência. Não, não dava para lembrar daqueles que me favoreceram, apoiaram e amaram. Pelo menos não agora enquanto morria.
Quis olhar firme e de frente os que me matavam. Receber aquelas balas todas no meio do peito e ainda andar até “eles”. Eu me perguntava de onde provinha aquela coragem, aquela determinação. Sentia estar enxertado de uma vida maior que minha morte. Fluía dentro de mim a paz de todos aqueles que morreram como eu estava morrendo. Nenhuma inquietação. As balas, o fim de toda aquela angústia que sempre me permeou, atraíam.
ULTRAPASSAGEM
Parecia estar nas entranhas de um cão que latia. Não sabia o que me sustentava e já não morreria como a pedra que tomba. Estava conquistando para mim o que sempre quisera ser. A nobreza e elegância que ninguém mais podia interromper. Joguei a arma, renunciando a qualquer atitude de autodefesa. Com imensa dificuldade, me coloquei em pé. Aquela era a minha primeira decisão verdadeira. Nascera dentro de mim. Não era apenas mais uma consequência gerada por outras consequências.
Algo excedia a cada gesto, era um tempo longo como muitas vidas. Não havia sofrimento. Alívio e paz me moviam para frente, já tombando. Imagino que os policiais se assustaram. No mínimo era inusitado. Apenas um deles correu até mim. Acabou de derrubar, virou de bruços e algemou mais rápido que se pudesse pensar.
A vida havia sido reencontrada. Após a aceitação da morte, tudo podia ser maravilhoso novamente, mesmo no inferno da prisão em que seria jogado. Mesmo muito ferido, o momento era dourado. Escolhera e encontrara a coragem de viver, estranhamente, na frente daqueles que me matavam. Eu me ultrapassara. Havia em mim um sentido de existir. Sim, ainda era possível viver.
Admirei e amei a mim mesmo, pela primeira vez na vida, em meio à chuva de coronhadas e pontapés com que me cobriam os “valentes” policiais.





















