Revista Trip

 

Exército faixa preta

Trip vê em primeira mão e publica imagens inéditas do documentário sobre as entranhas da família Gracie
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13.05.2009 | Texto por Décio Galina Fotos Arquivo pessoal / Divulgação

No meio de uma profusão de lutadores, os bebês adquirem a habilidade para andar ao mesmo tempo em que aprendem a dar os primeiros passos

No meio de uma profusão de lutadores, os bebês adquirem a habilidade para andar ao mesmo tempo em que aprendem a dar os primeiros passos

 

“Somos educadíssimos, gentis, só não pode aporrinhar. Não somos violentos.
Somos perigosos”

Ryan não olha a câmera. Mira o vazio fixamente, como se a pupila estivesse dilatada, sem ver nada. “Eu já bati em muita gente, ainda mais no Rio. E ninguém tem coragem de fazer alguma coisa, pois a família é muito importante. Vai matar? Vai querer me foder, vai se foder depois... Todo mundo tem pai, tem filho, tem mãe. Tira um filho meu, que eu tiro dois teus e talvez a mãe também.” Só a sonoridade do nome do protagonista da cena já remete ao clã que virou sinônimo de jiu-jítsu no mundo: Gracie. Não é esse, no entanto, o primeiro depoimento do documentário The Gracies and the Birth of Vale Tudo [Os Gracie e o nascimento do vale-tudo] dirigido pelo paulistano radicado em Nova York Victor Cesar Bota. O filme começa com Robson definindo o jeito de ser dos Gracie: “Somos educadíssimos, gentis, só não pode aporrinhar. Não somos violentos. Somos perigosos”.

Trip assistiu com exclusividade (e gostou do que viu) ao filme que reconstrói os pilares da saga iniciada por Carlos Gracie, em Belém do Pará, nos idos de 1916. Foi nessa época que Carlos teve as primeiras aulas com o japonês Mitsuyo Esai Maeda. Imagens inéditas mostram como os golpes ali aprendidos culminaram em eventos de vale-tudo, como o UFC (Ultimate Fighting Championship), que hoje movimentam bilhões de dólares. Elas também contam como Carlos criou a dieta vegetariana, como difundiu o açaí no Rio de Janeiro e o porquê da predileção por nomes iniciados com erre. “Aqui nos Estados Unidos e no Japão eles são heróis, mas no Brasil ainda carregam a fama de vilões, de arruaceiros”, compara o diretor da produção, que deve estrear por aqui e nos EUA entre agosto e setembro deste ano.

Carlos foi o responsável pelo traslado do jiu-jítsu de Belém para o Rio em 1925, onde abriu uma academia com foco nos ensinamentos de autodefesa. “[Como meu pai era muito franzino], falavam que aquele esporte não valia nada numa briga de rua. Então, ele inventou um evento em que vale tudo, morder, dedo no olho, o que for, sem regra...”, explica Carlinhos, 11º filho de Carlos. O patriarca teve 21 filhos com seis mulheres: “Ele não construiu uma família, e sim um exército”, comenta Renzo.

A partir de 2004, Victor saiu à caça da história de vida dos homens que definiram o rumo da família até 1997 – ano que o diretor considera como o do retorno do jiu-jítsu ao Japão. Ele destrincha por que Carlos, Rolls e Renzo formam a espinha dorsal da evolução do esporte e os motivos que levaram os holofotes da mídia para o tripé Hélio-Rickson-Royce. Entrevistou 15 Gracie em baterias de duas horas. Esbarrou em questões delicadas, percebeu rixas que criaram facções. Victor mostra os fatos que não permitem o uso do adjetivo “unida” para a família.

Porrada de pijamas
A escolha do tema surgiu por acaso. O diretor jantava com um amigo em Nova York, ainda no bafo do término do trabalho mais recente – o curta Freeman, feito com a produtora O2. Então pintou um terceiro camarada com o papo de que estava cansado do treino na badalada academia de Renzo Gracie, instrutor requisitado até por autoridades do mundo árabe. Pronto: imagine aquele desenho de lâmpada sobre a cabeça de Victor. A ideia de um filme sobre a família foi imediata. Na hora, o paulistano recordou os bons tempos que viveu no Rio. Pegou onda com Ryan e Ralf no Quebra-mar dos 12 aos 15 anos.

Robson numa luta contra um adversário com o dobro do seu tamanho

Robson numa luta contra um adversário com

o dobro do seu tamanho

 “Íamos para a matinê do Mistura Fina. Se dava algum problema, sempre iam buscar o Renzo na casa dele para resolver. Ele aparecia de pijama para proteger a turma”, diz Victor. É dessa fase uma das imagens de arquivo pessoal dos Gracie exibidas no documentário que mostra o nível de envolvimento da família com o jiu-jítsu. Os pais de Renzo se divorciaram e deixaram a casa para o filho, então com 17 anos. Ele forrou a sala com tatames e transformou a residência numa espécie de tribunal, onde as rivalidades do bairro eram resolvidas nos conformes do jiu-jítsu. Também causam forte impacto as imagens de uma luta que a família Gracie armou no quintal de casa. As imagens caseiras são dos anos 90 e mostram Ryan lutando com Tito, aluno da academia de Carlson, nos fundos de uma residência, cenário clássico de um churrascão de domingo. A certa altura, eles se pegam, trocam alguns golpes e caem no azulejo do quintal – para delírio do pessoal. “Abre pra câmera! Abre pra câmera.” Tito reclama que Ryan está mordendo sua orelha, que sangra em abundância. “Deixa!”, alguém grita. “Enfia o dedo!”, outro sugere. Em 2007, Ryan foi encontrado morto aos 33 anos numa cela do 91º DP de São Paulo, um dia após ter sido preso, acusado de furto de um carro e da tentativa do roubo de uma moto, em meio a uma alucinação provocada por drogas.

 

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