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Erasmo Carlos

Erasmo chega à 5a. década de carreira com a solidez de quem digeriu seus próprios demônios
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14.05.2009 | Texto por Ronaldo Bressane e Nina Lemos Fotos Leandro Pagliaro


 

Seus filhos foram um grande suporte para você, não?
Aí o sofrimento já é outro. Mas eles me ajudaram muito. As pessoas comentavam: “Fiquei impressionado com a união de vocês”. Era o abraço amigo, o carinho de um pelo outro. E vida que segue.

Você ainda faz muito show?
Não muito, bem menos, até porque eu quero. Adoro fazer show. Mas fazendo uns quatro por mês eu tô muito feliz. Mas aquela estrada de fazer cinco shows por semana e tudo não tenho mais pique pra isso. E nem quero, eu não tenho mais paciência também.

Tem alguma música sua que te incomoda de tanto tocar? Tipo escutar no motel, no rádio?
Não chega a tanto, viu? Mas pior do que ouvir é cantar! “Detalhes”, por exemplo, eu só ouço. Mas “Sentado à beira do caminho” eu tenho que cantar sempre. Um dia ou outro, eu digo: “Meu Deus do céu! Essa música realmente é a minha ‘Conceição’”, do Cauby Peixoto... [Risos.]

Você trabalha muito?
Procuro. Senão, o diabo vem morar aqui na minha cabeça. E ele já se instalou, tá vendo esse terreno aqui? [Erasmo aponta para a própria cabeça.]

Você deve ter escrito muito nesses últimos anos, já que se prepara para lançar as suas memórias ainda em 2009.
Fiquei dois anos escrevendo. Mas não é memória não. São contos engraçados da minha vida. Está todo mundo esperando um livro de memórias [risos], todo mundo doido pra ouvir fofoca. Não vai ter isso. São passagens engraçadas que aconteceram comigo, meus amigos artistas, amigos particulares, minha família, nada de fofocada nem coisa triste.

Leu a biografia do Tim Maia?
Li, claro. Tudo que fala de mim eu leio [risos].

E a do Roberto?
Também, também. Gostei, achei legal.

Não quis dar um toque para o Roberto aprovar?
Não, bicho, eu não me meto na vida dele nem ele na minha. Por isso a gente é amigo há tanto tempo. Como o Mick Jagger e o Keith Richards, bicho. Eles se reúnem, fazem o show, nenhum se mete na vida do outro.

Você e o Caetano são da mesma geração e estão os dois lançando discos de rock.
Eu observo muito o Caetano e copio umas coisas dele. Tem umas direções que ele toma que eu sempre pego uma coisinha, sabe? Aprendo muito com todo mundo, só vendo o comportamento da pessoa. E o Caetano sempre tem algumas dicas boas para dar.

Você nunca mais se casou. Está fechado?

Não fechei não. Casar por enquanto não está nos meus planos porque tive umas experiências que não foram legais. É duro quando você ama muito e certas coisas acontecem. Aí você demora muito tempo pra voltar para a realidade. E, quando você volta, começa a fazer comparações, às vezes inconscientemente. E aí o tempo passa e você se acomoda, sabe? Suas manias vão crescendo, sua liberdade vai ampliando, chega um ponto em que você fica num beco sem saída, bicho. Aventura não dá mais. Prefiro minha liberdade do que tentar do zero uma coisa que você não sabe se vai dar certo.

Está namorando?
Não, bicho. Na minha idade a gente não tem mais namoradas, a gente tem amigas. Elas são tão amigas que até se passam por namoradas às vezes. Tem pessoas que pensam mais ou menos igual à gente, que também amam a liberdade, que também não querem um relacionamento.

Você sofre muito por amor?
Sofri por amor só uma vez. É por isso que nunca mais eu tive ninguém. Não sofri 30 ou 40 vezes. O que me leva a crer que só amei de verdade uma vez. A vida é engraçada. Você às vezes pensa que ama, mas não ama, sabe? Mas vai ver tem alguém por aí que ainda não encontrou você e que vai dar essa liga. Aí a gente espera acontecer, não força barra nenhuma, se tem que acontecer acontece. Acredito muito naquele encontro, o carrinho que bate no outro no supermercado e as compras caem no chão e aí você olha para a pessoa.

Já teve alguma circunstância em que você escutava uma música sua e pensou: “Mas essa música vai tocar justo agora...”?
Acontece sempre, né? Quando eu me separei, estava numa fossa brava, aí ia jantar sozinho. Estava lá tomando uns goles e o cara do piano me via e começava: “Não posso mais te esquecer, durante toda a sua vida eu vou viver”. Aí as lágrimas caíam no copo de whisky [risos]. Outro dia, outro restaurante, chegava lá, mal entrava, já tocavam “aí eu vim aqui amor, só pra me despedir”, só músicas de Roberto e Erasmo que o Roberto gravou porque são romantiquíssimas. Todo restaurante aqui tinha música ao vivo. Aí, bicho, eu desisti de comer fora! [Risos]

Você comentou em uma entrevista que você e o Roberto, quando vão compor, fazem muita piada e que a letra até vai para um caminho surrealista. Guardam essas versões?
Não. É papo mesmo. Às vezes a gente faz mais letra do que precisa. O Roberto é o único parceiro com quem eu componho fisicamente. Com os outros, não componho junto. É porque eu sou muito educado e fico com vergonha de discordar. Imagina eu compondo com a Marisa Monte, se ela falar um negócio e eu disser: “Não gostei não, Marisa, não é por aí não”. Porra, o que é isso? Com o Roberto eu tenho liberdade, eu discordo dele, ele discorda de mim.

Você é vascaíno doente, ainda joga futebol?

Não posso agora. Estou cada vez mais condenado. Operei a coluna, tive que parar com o futebol. Operei hérnia inguinal, parei de pegar peso. Agora eu operei o quadril, então não posso pular nem correr. Não posso jogar futebol, não posso pegar peso...

O que você pode fazer?
Compor [risos]. Não sei como é que vai ser o show, porque não vou mais poder dançar. Vai ser uma experiência nova.

Amar também pode, né?
Ah sim, aí tudo bem. Mas kama sutra nem pensar! [Risos.]

Você lida com sua velhice com humor, né?

Que jeito? Mas, que é terrível, é. O horrível é que, quando você diz isso, as pessoas não deixam você concluir a frase, dizem que o importante é a alegria de viver etc., que convivem muito bem com isso. É mentira [enfático]. É mentira, cara! Você convive com isso porque tem que conviver. Mas, porra, é chato pra caramba! Sacanagem que Deus fez com a gente! O ser humano não merece isso que Deus fez, o negócio de velhice, sabe. É muito chato.

O pior deve ser a saudade dos amigos, não?
Ah, isso aí é foda, bicho. Puta merda! Isso é violento. Você fica “nunca mais eu vou ver esse cara”. Alguns amigos da minha vida morreram e foi brabo. Fora a família, minha mãe, minha mulher, meu pai. É uma falta forte. E daqui a pouco vou eu. E, o dia que chegar meu fim, não sei o que será de mim [risos], como eu canto em “Cover” [uma das canções do disco novo].

Seu filho nos disse que o Tim Maia, seu amigo de infância, veio morar aqui na esquina...
Aqui na esquina de casa! Porra! E me ligava toda madrugada: “Filho da puta! Ouve o que é som, seu veado de merda, seu branco vendido!”. Aí botava o “Descobridor dos sete mares” para eu ficar ouvindo. Desligava e 5 min depois ligava de novo: “Filho da puta, veado e punheteiro! Ouve o que é que é som!”. E botava “Azul da cor do mar”. Chegava uma hora que eu tinha de parar de atender o telefone [risos].

Ele não aparecia no portão?
De vez em quando aparecia aqui. Mas teve um dia em que eu tentei enganar ele. Estava chegando de viagem, cansado pra caramba. Tocou o telefone. Atendi, percebi que era ele e fingi que era o meu filho [Erasmo imita voz de criança]: “Bicho, o meu pai não tá, ele tá viajando”. E ele respondeu: “Vai tomar no cu, seu veado de merda, o filho do Erasmo não fala ‘bicho’, fala ‘cara’!” [gargalhadas]. Porra, eu fiquei de cara e engoli. Ele foi muito sagaz...

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