Cinco filhos de Doc aproveitam o mar flat para relaxar em Israel, 1974
Por 25 anos, Doc Paskiwitz, sua mulher e os nove filhos viveram em um motor home de 8 m, correndo atrás de ondas perfeitas e comunhão familair. Eles brigaram, passaram fome, não se adequaram ao "mundo real" - mas sobreviveram para contar sua história no cinema
A história do surf está repleta de outsiders que decidiram abandonar o conforto material, cair na estrada por anos a fio e viver de pegar ondas. Mas o caso do americano Dorian “Doc” Paskowitz é único. Ele fez tudo o que foi descrito acima. E ainda carregou consigo a família e a casa. Por família, entenda-se a mulher, Juliette, e os nove fi lhos (oito homens e uma mulher). E, por casa, um motor home com 8 m de comprimento. Ao longo de 25 anos, a chamada “Primeira-família do Surf” cruzou os Estados Unidos, o México e o Havaí, vivendo quase sempre no aperto, e não apenas no sentido literal; em vários momentos, eles sofreram com a falta de comida, água, dinheiro e roupas quentes.
Paradoxo ambulante entre o espírito individualista do surf e a índole gregária de patriarca judeu, Doc tem sua incrível aventura contada no documentário Surfwise, de Doug Pray. Presente em várias listas dos melhores filmes do ano passado (mas ainda não comprado para o Brasil), a produção conquistou um séquito de fãs – entre os quais Doc não se inclui.
Nada contra o documentário (co-produzido por Jonathan Paskowitz, um de seus fi lhos). Ele simplesmente se recusa a acompanhar qualquer exibição. “Eu dediquei quase toda minha vida ao surf. Comecei com 11 anos e continuo surfando aos 87. Conheci os maiores surfistas de todos os tempos, de Duke Kahanamoku a Kelly Slater. Eu me sinto pequeno em comparação a eles, e acho que não mereço um filme. Juliette e meus filhos me convenceram a participar, mas não pretendo vê-lo”, explica Doc, por telefone, de sua casa em Waikiki, no Havaí, onde sossegou há dez anos.
Sossegou é modo de falar. Conhecido como guru da vida saudável, da alimentação orgânica e da alta frequência sexual, o quase nonagenário Doc caminha diariamente por uma hora pelos morros de Waikiki, segue uma rígida dieta sem sal nem açúcar (que ele se impôs por causa de um problema no coração como forma de evitar uma cirurgia), surfa ocasionalmente com seu longboard e faz sexo com a mulher de 77 anos sempre que tem sucesso em seduzi-la. “Eu a persegui ontem e consegui agarrá-la. Hoje vou preparar minhas armadilhas de novo”, ele conta com naturalidade. Perguntado se era adepto de algum estimulante sexual (o repórter pensava, claro, no Viagra e congêneres), Doc responde: “Claro, Mozart, Beethoven ou Vivaldi e uma taça de champanhe”.


































