Era uma boa turma?
Era uma ótima turma! E essa postura veio logo por causa de a trajetória do primeiro single, “Anna Julia”, ter sido aquele sucesso todo, a gente teve um choque de exposição muito grande. Então foi bom porque, na primeira tateada, a gente falou: “Opa, peraí, talvez isso aqui seja mentira”. Quando alguém nos dizia: “Ó, se você não for nesse programa de televisão, sua carreira está acabada”. Ou então: “Pro pessoal de determinado canal, sabe como é, não pode dizer não”, esse tipo de coisa. E a gente começou a falar: “Será isso? Vamos ver se é verdade?”. E começou a experimentar, e viu o que era e o que não era real. Aí, da mesma forma, isso se refletiu na relação com as pessoas, com os fãs. Estar no Los Hermanos me deu um pé no chão.
"O FATO DE SER FAMOSO ME OBRIGA A TER CLAREZA, A SABER NO QUE EU ACREDITO E NO QUE EU NÃO ACREDITO"
E o que aconteceu com a banda? Foi uma separação tranqüila mesmo?
Foi. Porque, como eu falei, a gente sempre conversou. Quando a gente estava para fazer o quinto disco, não tinha repertório. O Marcelo [Camelo] e eu estávamos sem um grupo de canções que fosse substancial. No caso do Marcelo, eu sempre disse que ele tinha que fazer um disco sozinho, ele sempre teve várias músicas que não cabiam na banda, não combinavam com o formato, mas eram lindas. Só que ele nunca teve tempo, era sempre disco, turnê, disco, turnê, então vimos que era hora de fazer outras coisas.
Fabrizio Moretti e Rodrigo Amarante no “camarim”
do Conservatory, um bar de Oklahoma.
Parceria que gerou canções, o Little Joy e
levou os dois de volta ao underground
Para quem estava de fora, foi estranho, pois foi não só repentino mas no meio de uma fase muito boa.
A gente tinha contrato para entregar um disco, uma turnê pra fazer, o lance da máquina. No sentido comercial não fazia sentido. Mas nunca foi por causa disso que a gente fez música. Sem tesão não há solução, já dizia Roberto Freire. Então foi por causa da música... a gente não queria enganar ninguém. Se fosse assim a gente faria mais um disco, ganharia mais uma grana. Pode funcionar para outras bandas, mas para a gente não. Ainda mais com os fãs que a gente tem, que são incríveis, que têm a maior dedicação, o maior carinho. A gente não quis fazer qualquer coisa.
E foi triste o último show?
Foi ótimo. Teve uma melancoliazinha, né? Uma estranheza de pensar: “Pô, a gente está aqui tocando e não sabe quando vai tocar de novo”. Mas é assim, cara, a vida é isso aí.
Você acha que o fato de os seus fãs serem assim tão intensos, emocionados, tem a ver com uma carência cultural? Não só por a banda ser boa, mas também pela falta de bandas que também estão tocando eles?
Eu acho, claro. Do contrário estaria dizendo que a gente é mesmo maravilhoso. Você tem razão... O Renato Russo disse uma vez que achava que tinha tanta banda ruim porque a maioria delas tentava fazer música para tirar alguma coisa de alguém. Dinheiro, status ou fama. O melhor é você fazer música para dar. Você se junta com seus amigos, carrega amplificador, se esforça porque no fim você quer ver a pessoa na platéia se sentindo presenteada. Claro que do outro jeito também rola, mas a longo prazo e no coração das pessoas esse tipo de postura não sobrevive.
Não sei se você concorda, mas sinto que além de financeira a crise é também criativa. Parece que hoje em dia o que está sendo produzido é baseado num sentimento nostálgico e não em um olhar para o futuro. O que você acha?
Pode ser, mas esse movimento é da arte. O passado é o solo onde se vai plantar. A gente inventa muito menos que acha. Historicamente, esse movimento de expansão e contração é a pulsão dos movimentos artísticos. Não tô dizendo que são organizados, são inconscientes. Reconheço o que você tá dizendo, mas não como negativo. O reconhecimento da crise é um passo, é matéria da solução.
E como está sendo fazer música com os americanos?
Acabei de ter essa experiência de escrever música de uma forma totalmente diferente do que eu tinha feito antes, totalmente. No Los Hermanos fiz algumas músicas com o Marcelo, mas o processo de composição era um pouco mais frio do que tive aqui. Não querendo dizer que era melhor ou pior, mas era assim: o Marcelo vinha com uma progressão de acordes e eu seguia dali. “A Flor” foi a única música que a gente sentou junto e fez. De resto, todas as letras eram ou minhas ou dele, as músicas eram ou minhas ou dele. Quando cheguei aqui, o Fabrizio tinha algumas músicas inacabadas, aí ele falou “pô, me ajuda aqui” e a gente junto começou a fazer. A Binki também tinha umas músicas inacabadas. A gente tinha o tema, conversava sobre ele, cada um escrevia um verso.
Mas já era uma banda?
Quando a gente começou, não tinha idéia de fazer um disco. Era só para terminar aquelas músicas. Mas o Strokes e o Los Hermanos estavam dando um tempo nessa época e acabou rolando o Little Joy.
E como você conheceu essa turma?
O Devendra eu conheci em Londres, quando fiz parte de uma puta banda que montaram para tocar o disco Tropicália. O Fabrizio foi em Lisboa, num festival em que tocaram Los Hermanos e Strokes. A gente se conheceu no backstage e ficou bebendo até oito da manhã, amizade instantânea. Quando fui para Los Angeles gravar com o Devendra, o Fabrizio estava na cidade. Aí a gente começou a se encontrar, eu o apresentei pro Devendra, depois o Devendra pro Nick Valensi. Meio que juntei todo mundo e virou uma turma mesmo.
"VOCÊ SE JUNTA COM AMIGOS, CARREGA AMPLIFICADOR, SE ESFORÇA PORQUE NO FIM QUER VER A PESSOA NA PLATÉIA SE SENTINDO PRESENTEADA"
Você acha que você vai ficar aqui pelos EUA?
Acho que não. Não tenho planos de ficar aqui, mas não sei, cara. Porque para falar a verdade sinto vontade de ficar e sinto vontade de ir embora, por diferentes motivos. Então, como sei que o meu acaso tá recheado de sonho, meu destino tá recheado de sonho, vou seguir sonhando, entendeu? Porque a maior parte do que vai determinar o meu destino tá fora do meu alcance. Então eu continuo sonhando, ou seja, fazendo aquilo que sinto que é o melhor que posso fazer, que é aquilo de que eu gosto. E vou ver no que vai dar. A relação é mais com as pessoas do que com o lugar.





















