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Jazz lhe abençoe

Conheça a Igreja Africana Ortodoxa de São John Coltrane, um ritual único e cheio de notas
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27.01.2009 | Texto por Bruno Torturra Nogueira Fotos Bruno Torturra Nogueira
Depois de criar a luz, a terra, os animais e os homens, Deus nos deu o saxofone. Para que John Coltrane trouxesse um evangelho musical e uma família chamada King fundasse uma igreja de San Francisco. A Igreja Africana Ortodoxa de São John Coltrane - um ritual único, sincero e cheio de notas para trazer almas para o jazz e para Jesus

“Com trombetas e som de cornetas, exultai perante a face do Senhor, do Rei”
Salmos, 98:6

 

 

Um baterista suado rufa e dá com tudo no prato de condução enquanto um pianista acima do peso castiga o teclado em síncope e o saxofonista de longos dreadlocks e exóticas vestes segura um harmônico agudo por 10 s no que, sem muita dúvida, é a melhor jam session de San Francisco. O ar está esfumaçado, uma platéia multirracial estala dedos, grita, bate palmas, e mulheres negras dançam de olhos fechados diante da banda. Descrição perfeita de um mundano bar de jazz – mas Jesus, assim como o diabo, está nos detalhes.

A fumaça é de incenso, as vestes do saxofonista são de um sacerdote, as dançarinas são senhoras devotas e os gritos, infalivelmente, são de “aleluia”. Fora o fato de que o relógio marca meio-dia em um domingo de sol. Hora da missa semanal na igreja ortodoxa mais freestyle do planeta. A Igreja Ortodoxa Africana de São John Coltrane. Louvado seja Jazz.

 

O templo em si não tem a descrição de uma típica casa de Deus. Uma sala anexa de centro comunitário, com porta e paredes de vidro escurecidos, carpete barato e fileiras de cadeiras de auditório. O ar sacro da igreja vem das enormes telas penduradas. Um Jesus negro, uma Virgem Maria negra, crianças angelicais, uma árvore e duas imagens de São John Coltrane. Em ambas o santo segura um saxofone que expele fogo sagrado – a visão original que inspirou o bispo King a fundar sua congregação. Prestai atenção.

Há 43 anos o jovem saxofonista Franzo King entrou com sua esposa em um club de San Francisco. Esperavam assistir a uma grande performance, mas, no gargarejo do palco, suas vidas foram transformadas. Sentiram na alma o poder sagrado do sax tenor de John Coltrane. Franzo viu os olhos do jazzman varados de luz em um rosto que parecia esculpido na pedra. Era alguém não humano mas divino. E de seu sax um evangelho sem palavras tomava o ar, e o som tão forte, místico e atraente quanto o fogo. Uma aparição.

Entendo o surto de Franzo... John William Coltrane vinha em uma bem-sucedida busca espiritual. Tinha 38 anos, e havia anos longe da birita e da heroína dos anos 50. Livre como seu som, tocou no islã, na cabala, na meditação, na astrologia, no hinduísmo, no cristianismo. John domou sua alma, sua técnica, e produziu o jazz mais poderoso já ouvido. O show a que o casal King assistiu foi em 1965, Coltrane acabara de gravar um disco. O LP da gravadora Impulse era uma oração em gratidão a seu despertar espiritual. Reconhecendo qual o tipo de amor Deus tem por nós: supremo. A Love Supreme, o título do álbum.

Marina e Franzo já eram parte de um rebanho cristão, de fé pentecostal. Mas agora o caso é outro. Os King sabiam que aquele não era um mero músico virtuoso, mas Deus em pessoa. Eles buscaram na obra do saxofonista seus pensamentos e palavras. Pulverizaram o nome do meio de Coltrane. William virou Will-I-Am, uma afirmação do caráter divino de John. A hipérbole era literal... tanto que, assim que levantou algum dinheiro, o casal fez o que qualquer arrebatado faria: foi pregar.

Em 1971, quatro anos depois da morte de Coltrane, Franzo e sua companheira, Marina King, deram o primeiro serviço no One Mind Temple Evolucionary Transitional Body of Christ. O nome mezzo cristão mezzo hippie era bem adequado àquele começo de década, mas a doutrina só seria consolidada em 1982. Quando a One Mind... começou era mais uma jam forte, aberta e salpicada das falas do reverendo King exaltando Coltrane e seu som como a própria Verdade, como Deus que pisou na Terra. Foi um arcebispo de Chicago, de passagem por San Francisco, que tirou a peculiar seita do underground da fé.

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