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Bicho solto

Enquanto a maioria de seus amigos fincava raízes, Antonio Brito corria o mundo atrás de ondas perfeitas e liberdade
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28.01.2009 | Texto por Sidão Tenucci Fotos Arquivo pessoal
Estava me achando o máximo por ter conseguido viajar por 40 dias, 25 deles surfando as esquerdas de Ala Moana Bowls, no costa sul da ilha de Oahu, no Havaí. Eis que me liga o Brito, do Panamá: “Estou na estrada há um ano e um mês: Indonésia, Costa Rica, Filipinas, Havaí...”. “Você é meu ídolo!”, respondi, num misto de admiração e inveja. Começou assim o desafio de tentar separar o personagem desta matéria do amigo de 40 anos. Bem-vindo à saga desse cara que desliza entre a música, o surf, as viagens, o plantio, as amizades e a convicção inabalável de que a liberdade é o maior patrimônio.

BRITO VIABILIZOU FINANCEIRAMENTE SEU ESTILO DE VIDA DESCOBRINDO PICOS REMOTOS E COMPRANDO PAISAGENS PARADISÍACAS A PREÇOS MÓDICOS

Antonio Mendes Brito. Nascido em 30 de abril de 1954, em São Paulo, Brasil. 54 anos. Cavalo no horóscopo chinês. “Os cavalos se mantêm, só precisam de pasto novo”, diz. Não é difícil adivinhar qual é o pasto preferido dele. Brito, como é conhecido pelos amigos, foi inoculado pelo vírus do surf aos 13 anos. Considera o dia 6 de janeiro de 1968 um marco fundamental. Foi quando pegou onda pela primeira vez. O fato determinou quem ele seria e o que faria para o resto da vida. Entendeu e aceitou o destino do mar. A partir daí foi um dos brasileiros desbravadores do Havaí, em 1975; de Bali, em 1978; desvendou a praia da Pipa, no Rio Grande do Norte, em 1980; e, finalmente, a cidade de Itacaré, no sul da Bahia, em 1988. Essa pacífica inquietude parece não se satisfazer enquanto houver fronteiras e sentimentos inexplorados.

Dentro da índole própria do surfista, de procurar sempre os picos mais remotos, estava contida a fórmula de viabilizar financeiramente esse tipo de vida: chegando antes aos lugares, encontrou as oportunidades para comprar paisagens paradisía­cas a preços módicos. Brito fez ótimos negócios para amigos e os melhores para si, como corretor de terrenos localizados em áreas desconhecidas, esquecidas ou desprezadas. Isso lhe deu ainda mais espaço para exercer o seu instinto de cavalo chinês: “Tem muro, o cavalo quer pular. Imprescindível é a minha liberdade”.

MÚSICA NA VEIA
1953. As primeiras notas musicais entraram na sua vida quando ainda respirava pelo cordão umbilical. Família de músicos. A mãe tocava piano para o bebê ainda na barriga. O pai dedilhava o banjo. O casal de irmãos gêmeos, 13 anos mais velhos, tocava piano e violão. Inescapável. Já nascido, Brito parava de chorar “no mesmo segundo” que ouvia música.

Aos 10 anos, ele enfrentava intermináveis aulas de escalas musicais com a severa professora germânica de piano, didática que quase abafou seu tesão musical. Mas Brito, numa manobra recorrente durante a sua trajetória, a de se ver livre de cobranças e incômodos desnecessários, escapou das suas garras migrando para o bongô. Depois vieram a bateria, o djambé, as congas e a flauta transversal.

Em 77, quando morava no Havaí, formou uma banda de surfistas com Pat Rawson, um dos melhores shapers das ilhas, no piano e Jimmy Irons, tio do campeão mundial de surf Andy Irons, no sax. Em 88, excursionou por Austrália, Indonésia e Japão, sem deixar de surfar, claro. Em 89, participou do Free Jazz Festival com a banda Aquilo Del Nisso. “Considero a minha missão fazer as pessoas se sentirem felizes e bem através da música”, diz, olhando para o mar do Guarujá, local desta entrevista, onde ele tem um apartamento.

Toda essa trajetória musical – incluindo o repertório materno intra-uterino de standards, Hendrix e Steve Wonder – iria se materializar em 2006, no CD Taken by the breeze, nome da canção que ele compôs para o disco, no qual canta, toca diversas percussões e é acompanhado de músicos de primeira linha.

Gilberto Gil e Tom Jobim continuam sendo seus músicos prediletos e rolaram soltos na jam que gravamos durante a entrevista. Como nos tempos do Haleiwa Road Group, nossa banda no Havaí, em 75. Brito no djambé , eu no violão, Roberto Teixeira na gaita e AD na lata de Coca-Cola com areia. Os bons novos tempos, com o ritmo controlado num metrônomo amadurecido.

O histórico escolar de Brito não é dos mais brilhantes, no sentido tradicional, já que não via motivos razoáveis para “ficar parado em sala de aula”. Estudou no Vila Brandão, no Dante Alighieri (de onde foi expulso por “formação de gangue”), no São Luís e no Bandeiras. Com 17 anos foi parar na Faculdade de Arquitetura de Mogi das Cruzes, em companhia dos amigos e surfistas Thyola, Carlos Motta e Marcelo Villardi. Mas aí já estava ganhando algum dinheiro com a fábrica de pranchas MOBY – que começou em São Paulo, em 1968, e que, ao se transferir para o Guarujá, em 1971, tornou-se a primeira da ilha. Nesse período acelerou a produção e, com 19 anos e financeiramente independente, abandonou a faculdade. “Melhor não ter me formado. Para mim foi até melhor financeiramente. Eu estava gastando meu tempo. Tem de ter a sensibilidade de saber qual a sua missão.”

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